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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 19 de Janeiro de 2012 às 23:30

Um estranho bem-querer de crises políticas

Quando perguntaram a Joseph Stiglitz o que pensava das mudanças à lei laboral em Portugal, o nobel da Economia respondeu que sim, que eram positivas, que era óptimo haver acordo entre parceiros sociais mas que a verdadeira questão é se o euro se vai manter. A resposta devolve-nos à escala dos nossos conflitos. É a Grécia, é sempre a Grécia. E somos nós. Vamos inventar uma crise política a esta hora?

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Quando perguntaram a Joseph Stiglitz o que pensava das mudanças à lei laboral em Portugal, o nobel da Economia respondeu que sim, que eram positivas, que era óptimo haver acordo entre parceiros sociais mas que a verdadeira questão é se o euro se vai manter. A resposta devolve-nos à escala dos nossos conflitos. É a Grécia, é sempre a Grécia. E somos nós. Vamos inventar uma crise política a esta hora?

A Grécia está a ser largada no corredor da morte. A missão de salvá-la é quase impossível, tamanha é a sua dívida, tão fraca é a estabilidade política, tão esparsa é a possibilidade social de implementar as medidas danadas exigidas pelos credores. Quase metade da dívida grega é já hoje europeia (emprestada pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo de Estabilização). Na outra parte, pede-se um perdão de 68%.

A dissimulação já não existe: os líderes dos maiores países europeus e das institu-ições comunitárias já não fazem juramentos de bandeira azul e branca. A tese dominante parece ser a seguinte: a Grécia vai sair mas não pode sair já, descontroladamente, pois seria o caos; é preciso ganhar tempo para criar "firewalls", cortinas que internem a Grécia sem perigo de contágio; e depois deixam-se os gregos à desventura de uma falência do estilo da Argentina, extirpando o problema da Europa.

A tese tem um problema: ninguém sabe se vai funcionar. As "firewalls" passam pela receita de sempre - compromisso político, mais federalismo, reforço dos fundos europeus e activação do BCE - mas é impossível prever se a quarentena da Grécia não inocula o vírus. Mesmo que o Banco Central Europeu já esteja, indirectamente, a injectar vastas quantidades de liquidez (através dos empréstimos a três anos a taxas de 1%), a corda que nos sustém é fina. E são mais os que dizem que não é possível separar o contágio da Grécia do que os que crêem no contrário.

Agora segure-se bem: há "hedge funds" norte-americanos que, por causa da dívida, admitem processar a Grécia no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Sim, os "hedge funds", uma forma selvagem de investimento institucional, alegam violação de Direitos Humanos... Este exemplo mostra a ridícula submissão a que a Europa chegou face aos mercados financeiros. É como abutres processarem as carcaças de animais mortos por já não estarem frescas.

Este cenário de catástrofe possível na Europa não pode paralisar Portugal. Estamos, como tem sido dito, a fazer a nossa parte na base do melhor cenário europeu, cujo desfecho não controlamos e quase não influenciamos. O nosso novo ministro das Finanças já cita o mesmo "Monstrengo", de Pessoa, que o antigo ministro das Finanças citava, o que significa que já se sente isolado e missionário. Por tudo isto, este acordo para a reforma das leis laborais é um activo precioso, que deve ajudar à percepção externa de que Portugal está mais para o bom lado irlandês do que para o mau lado grego.

A união entre a UGT e a CGTP desfez-se. A união dentro do PS está em risco do mesmo. António José Seguro não tem o partido a seus pés e Carlos Zorrinho não tem a bancada parlamentar nas mãos. Há um grupo de dissidentes, que são socratistas, que querem divorciar-se de um novo acordo com o Governo, quando ele for solicitado, o que há-de acontecer para novas medidas de austeridade. Se o PS sai do caldo, ele entorna-se. Cavaco Silva sabe-o. E nós também. Não é altura de uma crise política. Olhai a Grécia, minha gente, olhai a Grécia...


psg@negocios.pt


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