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Um-xis-dois

O ministro da Economia está prestes a livrar-se de um abacaxi, que ele próprio plantou no seu colo. Desta vez a Portucel vai. A má notícia é que ninguém ainda sabe como esta novela acaba.

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Não se sabe praticamente nada. Quem vai concorrer. Se vão muitos ou poucos. Se o engenheiro Belmiro compra ou vende. Se o engenheiro Paulo Fernandes desiste ou resiste. Se há mesmo um “acordo de cavalheiros” que leve o senhor Pedro Queiroz Pereira ao altar.

Se há estrangeiros dispostos a ir até ao fim. E qual é o fim dos estrangeiros. A única coisa que se sabe, ou pelo menos pensamos nós que sim, é que a telenovela Portucel está mesmo a caminhar para os últimos episódios. E desta vez não há sequer desculpas para manter este interminável drama no ar.

Primeiro, porque parece que desta vez existe o essencial: candidatos. E parece que há vários, algo que não aconteceu na primeira tentativa, fracassada, de Carlos Tavares. Segundo, porque parece que Belmiro de Azevedo está mesmo disposto a vender.

Algo que também não aconteceu na operação anterior. Terceiro, porque há gente disposta a cumprir, em simultâneo, a primeira e a segunda condição. Ou seja, há candidatos aos 30% do Estado e também aos 25% da Sonae.

E isto leva-nos à quarta e igualmente decisiva condição: é que também parece haver dinheiro. A conclusão é simples: o ministro da Economia está prestes a livrar-se de um enorme abacaxi, que ele próprio ajudou a plantar no seu colo.

Desta vez a Portucel vai. A novela acaba. Os vilões são castigados. O herói casa com a noiva, a justiça é feita e todos os que se portaram bem ficam felizes para sempre. Está bem, mas a história acaba mesmo com a privatização? E com que privatização exactamente? Continuará a Portucel um Centro de Decisão Nacional?

Ou irá ficar na história como o mais complicado Caso de Indecisão Empresarial? Há uns meses, quando os estrangeiros desistiam, um a seguir ao outro, o ministro explicava: não tinham garantias de controlo. Se, logo à tarde, a Stora Enso e a Mondi apresentarem propostas, toda a gente obviamente percebe o que isso significa.

E, se assim for, se ganhar um estrangeiro, o que vamos pensar disto tudo? Alguém vai ter de perguntar, com toda a naturalidade, por que razão não acabou há cem episódios atrás? Mesmo não tendo reflexos na política, os investidores vão ser eloquentes na forma como exprimem essa recriminação, nomeadamente através das acções da própria Portucel.

E, por falar em sinais do mercado, o que acontecerá às ‘Sonae’s’ cotadas, caso Belmiro decida mesmo concorrer? Significará isso que está pronto para a guerra? Estará ele disposto a pagar essa factura? Ou, como parece mais lógico, estará ele simplesmente a vender mais cara a paz?

A moral desta história é que esta história não foi feita para ter moral.

E o seu desfecho será ditado por algo que este ministro e este Governo tiverammuita dificuldade em entender: os negócios fazem-se no mercado, com capital, com candidatos interessados em comprar e accionistas com vontade de vender, e um regulador do mercado a agir acima de todas as suspeitas.

A Cofina e a Lecta não são hoje accionistas da Portucel porque estas regras básicas foram ignoradas. Alguém se esqueceu de Belmiro e, por fim, têm de se entender com ele. As novelas acabam sempre assim: com a sensação de desperdício de tempo. A má notícia é que ninguém ainda sabe como esta acaba.

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