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Sérgio Figueiredo 22 de Julho de 2004 às 13:59

Uma paródia nacional

Podia ser uma crónica de humor. Se o assunto não fosse sério. Podia ser uma paródia. Não se tratasse do Governo da República. Podia ser uma comédia. Mas continua a ser ministro de Estado. Enfim, podia ser uma brincadeirinha, um «fait divers», só que é mau

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Podia ser uma crónica de humor. Se o assunto não fosse sério. Podia ser uma paródia. Não se tratasse do Governo da República. Podia ser uma comédia. Mas continua a ser ministro de Estado.

Enfim, podia ser uma brincadeirinha, um «fait divers», só que é mau demais para ser verdade.

Se a formação da equipa ministerial já tinha sido atribulada, como podemos qualificar aquilo que aconteceu ontem na constituição do grupo de secretários de Estado?

No dia da tomada de posse, Paulo Portas rasgou-se em elogios. Que tinha «o orgulho» de comunicar o facto histórico de uma mulher assumir um cargo na pasta da Defesa. Que essa mulher era a doutora Teresa Caeiro.

Se a ocasião era inédita, a decisão foi ponderada. Como é óbvio. Pois, prosseguia Portas, «revela visão e modernidade». O ministro de Estado e da Defesa deu os argumentos curriculares. A futura secretária de Estado está familiarizada com os assuntos militares porque, de acordo com o seu ministro, é «neta e filha de militares».

Além disso, foi uma «óptima governadora civil», que «podem perguntar a qualquer colectividade o que pensam dela» e, por fim, que «trabalhou bem com Bagão Félix, que é um homem com quem se aprende muito».

E, realmente, assim foi. Até às 17 horas e 15 minutos, quando a lista oficial teve de ser corrigida para que a doutora Caeiro fosse transferida para a Cultura e, a trouxe-mouxe, fosse empossada como secretária de Estado das Artes e Espectáculos - que, como qualquer pessoa facilmente constata, tem tudo a ver...

Podia ser, efectivamente, um «fait divers».

Não tivéssemos ainda frescas na memória as imagens de Paulo Portas, espantado com o facto de o seu Ministério também se designar Assuntos do Mar.

Não fosse o primeiro-ministro ter prometido ministros de várias regiões e serem quase todos de Lisboa.

Não tivesse o primeiro-ministro anunciado um Governo avantajado na quantidade de ministros, mas parco em secretários de Estado - e ser, afinal, o seu Governo um dos maiores que a República conheceu até hoje.

Não fosse o primeiro-ministro ter dispersado Ministérios por Santarém, Faro e Porto - e toda a gente já ter percebido que, felizmente, não passou num «improviso televisivo».

Certamente que o doutor Portas tem a capacidade de nos convencer sobre as elevadas razões para o que parece, mas não é, uma enorme confusão. O facto é que o «orgulho» do ministro de Estado apenas durou duas horas. E que, continuando a parafraseá-lo, num ápice, lá se foi a sua «visão» e a «modernidade» do seu Ministério.

O primeiro-ministro, para explicar esta enorme baralhada e as suas próprias contradições, ameaça deixar de falar aos jornalistas sobre possibilidades. E começa apenas exprimir certezas. A pergunta é: «mas ainda ninguém lhe tinha explicado essa regra básica»? É que alguém deve avisar Santana Lopes que ele já não é comentador dos Donos da Bola...

Não é grave. Até ver. E, visto do lado de fora, só dá mau aspecto.

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