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Raul Vaz raulvaz@negocios.pt 23 de Março de 2017 às 00:01

Vade retro, Satanás

Desta vez a sonsice chegou por telemóvel. Tomem nota para memória futura: o vice-presidente do Banco Central Europeu "não participou de forma alguma na elaboração do relatório nem em qualquer reunião onde tenha sido aprovado". Palavra do primeiro-ministro no Parlamento.

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Lembro a manhã da toalha ao tapete. Vítor Constâncio, ele mesmo: uma conversa para a notícia do dia seguinte, denunciando o caldo que o impedia de liderar o PS. Antes, como agora, a responsabilidade habita as fórmulas de excel ou a página digital de cada problema filosófico. Constâncio foi, e é, o que alguém quis que ele fosse. Com mérito, indiscutível. Sem coragem, sempre.

 

Desta vez a sonsice chegou por telemóvel. Tomem nota para memória futura: o vice-presidente do Banco Central Europeu "não participou de forma alguma na elaboração do relatório nem em qualquer reunião onde tenha sido aprovado". Palavra do primeiro-ministro no Parlamento.

 

O relatório tem a assinatura do BCE e foi revelado pelo Negócios. O texto admite a possibilidade de sanções a um país há três anos em desequilíbrios macroeconómicos excessivos - mecanismo que avalia um conjunto de indicadores orçamentais e económicos. É este o diabo de que vem falando Pedro Passos Coelho.

 

Claro que Constâncio foge como o diabo foge da cruz e é assim que se tem mantido à tona. Sem necessidade de uma explicação fundamental: a anterior ameaça dizia respeito à violação do limite do défice orçamental, estando em causa a diferença entre receitas e despesas no Orçamento. Esse diabo já teve, de facto, melhores dias.

 

Do Satanás que ronda, não quer António Costa ouvir falar. E vai convencendo a pátria, que é a de Constâncio, de que "não se justifica qualquer sanção a Portugal". Para quem espera a maldição para regressar à terra e quem - qual bota apertada - tem dúvidas sobre o milagre pós-troika, acredite-se na bola de cristal que acompanha a carreira triunfante de Vítor Constâncio.

 

Na manhã de 1988, quando quebrou pela sua incapacidade em enfrentar a adversidade, o então líder do PS apontou o dedo, sem o esticar, a Mário Soares. O Presidente da República estava por trás da conspiração. Agora, sem o dizer, responsabiliza Mario Draghi. Ou pior ainda, um técnico anónimo de Frankfurt.

 

É assim a vida de Vítor Constâncio. Ontem, telefonou a António Costa a pôr-se ao fresco de um relatório feito pela instituição de que é vice-presidente. Anteontem, escapou-lhe entre mãos qualquer pressentimento sobre o BPN. Amanhã, esperemos que o diabo não venha, até porque Constâncio pode nem reparar mesmo que se cruze, entre Frankfurt e Lisboa, com o próprio Belzebu.

 

Vítor Constâncio não chega a diabo, mas faz-se de anjinho. Acreditemos que o mafarrico já não vem, e que Constâncio também já não volta. Para podermos celebrar a uma só voz: vade retro, Satanás. 

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