Raul Vaz
Raul Vaz 29 de agosto de 2017 às 22:59

Não se esconda, doutor Costa

Sobre o orçamento que aí vem vale apenas perder tempo no peso das pensões, um pouco no salário mínimo e, ainda, na falsidade do descongelamento das carreiras dessa bolsa de votos que é a função pública.

Sim, Augusto Santos Silva tem razão: "Quem provocar uma crise política vai pagar caro." Mas porque é que o ministro-farol vem falar do custo de uma crise, precisamente quando o pior parece ser página virada? É simples e é pólvora seca: está em construção o terceiro orçamento de austeridade com a assinatura da geringonça e a hipocrisia (mesmo que socialmente enquadrada) mexe com um espinho que diferencia a raça.

 

Sobre o orçamento que aí vem vale apenas perder tempo no peso das pensões, um pouco no salário mínimo e, ainda, na falsidade do descongelamento das carreiras dessa bolsa de votos que é a função pública. De verdade, Mário Centeno já disse tudo e tudo se vai confirmar: vamos cumprir o défice do compromisso, vamos ter melhor nota do que no ano anterior, podemos mesmo vir a ter uma carreira internacional. Centeno, claro, como António Costa, se um dia for dia.

 

Na entrevista à Bloomberg, o ministro não fala apenas pelo receio em relação ao orçamento. Santos Silva sabe que, nessa matéria, já não há Mortágua que estrebuche, Catarina que não pese a ameaça de Augusto, Jerónimo que não engula mais um sapinho. A geringonça levará a veia hipócrita além da austeridade. Económica, social e política, numa fórmula partilhada pela ambição do poder.

 

Um pouco diferente é aquilo que, à margem do temor por um sopro da direita, se vai conhecendo na imaculada esquerda. Onde habita - e sejamos nesta matéria caridosos - a mesma massa de que se faz a farinha do poder. Chegamos ao que Santos Silva intui: afinal o pecado não mora ao lado.

O que pensam Mariana Mortágua, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa da vergonha que vem nas viagens pagas para se obter um contrato do Estado? Não pensam nada porque foram os agora seus (nessa oitava maravilha do mundo que se denomina geringonça) que apanharam o avião, comeram e dormiram de borla e agora, apanhados, põem o futuro à disposição. Mariana, Catarina e Jerónimo não têm vergonha. Ou têm - e nós acreditamos que ainda têm - e perguntam ao primeiro-ministro o que ele pensa fazer. Já, sem inquéritos de 90 dias ou processos internos de apuramento sobre o vazio.

 

O que o cidadão que não mergulhou no milagre da fórmula mágica e no afecto da nova fórmula precisa de saber é como e quantos contratos públicos foram, ou não, feitos sem concurso, na sequência das viagens de altos quadros do Estado que a geringonça controla. 

 

A astúcia envolve, que se saiba, o Estado, a Huawei, a Nos, e a Oracle. Por enquanto. Cada um por si ou em articulações em que se dividem responsabilidades e, presume-se, retorno financeiro. O que está em causa, à pala de um governo da reversão virtuosa, é grave.

 

E por isso, não chegam as amedrontas do ministro Santos Silva ou a abertura de inquéritos do Ministério Público. É forçoso que o primeiro-ministro não se esconda e diga o pensa sobre a trapaça. Chegue-se à frente, doutor Costa. 

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