Tiago Freire
Tiago Freire 23 de maio de 2017 às 00:01

Ainda não estamos lá

Ao fim de oito anos, Portugal sai do Procedimento por Défices Excessivos. É um calvário, longo e duro, e há que salientar a boa notícia.
De uma forma bem portuguesa, a depressão de sairmos na "lista negra" de Bruxelas está a dar duas leituras: a euforia ligada causalmente ao actual Governo; e a desvalorização, de quem diz que isto afinal não interessa assim tanto.

Quanto à primeira leitura, não há motivos para a euforia. Os problemas continuam lá e o caminho continua a ser duro e sem fim previsível à vista. É o que é. Por outro lado, coube a António Costa invadir em festa um Marquês metafórico, mas sem o trabalho do Governo de Passos a vitória não teria chegado. Concorde-se ou não com as exigências das regras europeias, elas existem, e foi preciso comer o pão que o diabo amassou para agora termos um bocadinho de manteiga. Esteve bem Marcelo, a repartir os louros. O diabo não chegou, mas esta é também uma façanha de Passos, Portas, Gaspar e Maria Luís.

A segunda leitura é que isto interessa pouco, porque continuamos a ter metas ambiciosas de consolidação (algumas ainda mais do que até aqui). E que mais importante do que a saída do PDE é a subida do "rating" por parte de uma das três grandes agências mundiais. Tudo verdade. Mas a importância é outra. É também muito simbólica, e os símbolos contam. Esta decisão da Comissão Europeia é mais um capítulo na narrativa que Portugal tem sabido construir, com esforço, com estratégia. E também com a sorte do acaso.

O Presidente da República, o primeiro a puxar-nos para cima, volta a puxar-nos para a terra. Marcelo é o exímio contraponto emocional do país, fundamental neste período ainda de convalescença.

Valorizemos esta decisão, esta boa notícia, mas não em demasia. Porque há quem esteja à espera de qualquer boa-nova para decretar o fim das dificuldades, a chegada à terra prometida. Veja-se a reacção do Bloco e do PCP, pedindo para que se aproveite de imediato uma margem que não é certo que exista.

Ainda não estamos lá. Costa sabe-o. E sabe também que a grande maioria dos portugueses reconhece a importância deste caminho, por mais que quisesse, com toda a legitimidade, viver melhor.

É, por isso, indispensável prosseguir, sem excessos "troikistas", mas sem delírios de geringonça financeira.
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