Tiago Freire
Tiago Freire 04 de maio de 2017 às 00:01

Na Caixa, eventualmente

Almeida tem alma, isso tem ficado claro nos últimos dias. A vila transformou-se numa espécie de aldeia gaulesa simbólica, que resiste não contra uma invasão, mas contra uma saída, a do balcão da Caixa Geral de Depósitos.
O caso de Almeida não é diferente de muitos outros por esse país fora, e o fenómeno do descontentamento é compreensível e expectável. Compreensível porque não é a mesma coisa ter um balcão por perto ou a dez quilómetros; expectável porque o redimensionamento da Caixa bateu perfeitamente com um ano de eleições autárquicas, cujos motores há muito foram postos em marcha. O resultado só poderia ser este.

A emoção dos protestos parece excessiva, vista de fora. Não pode ser apenas uma dependência bancária que está em causa. Será um assomo de bairrismo, de orgulho local, de combate justo a um fenómeno mais abrangente, o centralismo que faz escola há décadas neste país. Isto é tudo certo, mas isto tem pouco que ver com um balcão bancário.

A decisão da Caixa Geral de Depósitos é financeira. Ponto. Não é política, não é social. O mesmo se aplica a todo o plano de reestruturação do banco público. A discussão sobre se isto está bem ou está mal é relevantíssima, mas é um barco que já partiu: desde o momento em que o plano "em condições de mercado" foi fechado com Bruxelas e as linhas gerais publicamente conhecidas que se soube que seria assim. A saída de Almeida é uma consequência natural de toda a lógica desse plano, bem como o corte de regalias de difícil justificação aos trabalhadores e a redução de pessoal. O Governo assinou; os partidos da esquerda fingiram que não estavam a perceber; a direita acordou agora, mas não tem moral alguma para falar.

Não deixa, aliás, de ser extraordinária a eloquente afirmação do social-democrata Álvaro Amaro: "Não sei se a CGD dá lucros ou prejuízo, mas tão importante quanto isso é a componente de olhar para o território de todo o país." Esta frase é um tratado. Não sabe, nem quer saber. E foi por isso que chegámos aqui, a injectar este camião de dinheiro na Caixa e obrigados a um plano de reestruturação estreito e duro. Infelizmente nem o PS nem o PSD têm ficha limpa nessa matéria, quando andaram a fechar escolas e tribunais e centros de saúde no interior. Poupem-nos a lágrimas de crocodilo.

Os bravos habitantes de Almeida continuam a ter um balcão da Caixa no município - ainda que mais longe -, terão alguns serviços da Caixa na vila e têm um balcão de outro banco, o Crédito Agrícola, ao seu dispor. Estão zangados com a Caixa? Podem sempre mudar de banco. Essa é, aliás, a resposta "de mercado" a uma estratégia "de mercado".

Paulo Macedo tem um mandato muito claro para cumprir. Não vai ceder porque não pode e porque, na verdade, acha que não deve. E tem razão.
pub

Marketing Automation certified by E-GOI