Tiago Freire
Tiago Freire 04 de julho de 2017 às 00:01

Portugal, debaixo do capô

As últimas semanas foram um rude e traumático despertar para o país. Cansados de tanta dificuldade, tanto sacrifício e tanta pancada, os portugueses entregaram-se ao entusiasmo como merecida recompensa. Depois veio a realidade.
O crescimento económico e a queda do desemprego vieram como consequências do regresso da confiança, de uma envolvente internacional favorável e, diga-se, da base de comparação baixa dos últimos muitos anos. E o governo, depois das naturais desconfianças perante o inédito, parecia indestrutível, a liderança que melhor casava com um novo ciclo de Portugal.

E depois? Bem, depois chegou a realidade, que encontra sempre forma de o fazer.

O recente saque de material militar em Tancos e, sobretudo, a ainda hoje indizível tragédia do incêndio de Pedrógão Grande colocaram a nu as nossas debilidades.

Portugal é um carro que há muito se habituou a ser ultrapassado por modelos mais rápidos, mais fortes, mais bonitos. No último ano recebemos uma boa pintura, mudámos os pneus, até começámos a andar um bocadinho mais depressa. O problema, como sempre, é quando olhamos para debaixo do capô, e vemos que, em tanta e tanta coisa, os problemas continuam lá.

Vemos isso nos incêndios, com anos de juras renovadas de que não voltará a acontecer, sem entendermos que o que é necessário é mais profundo do que meios de combate ao fogo e de gestão defensiva da floresta. É preciso um verdadeiro movimento de coesão nacional que retire os meios rurais do desprezo a que foram condenados.

Vemos isso neste episódio de Tancos, que seria caricato não fosse tão sério, e na verdade só nos podemos interrogar, - quanto mais sabemos -, como é que isto não acontece mais vezes. Há quanto tempo não há uma verdadeira discussão acerca das Forças Armadas, os seus objectivos e os seus meios?

Vemos isso, até, na lamentável comissão de inquérito parlamentar à Caixa Geral de Depósitos, com uma proposta de relatório que, previsivelmente e tal como a própria comissão, branqueia a perniciosa influência político-partidária no banco público. Não se discute seriamente o sistema financeiro, vão-se tapando buracos.

Três exemplos, três áreas apenas, em que o país muito teria a ganhar com verdadeiros pactos de regime, com empenho e estabilidade asseguradas para além dos ciclos eleitorais.

Se calhar rende menos votos do que políticas imediatistas, que enchem o olho e descansam consciências mas que não atacam o fundamental.

Além do visível e do óbvio, há um país estruturalmente deficitário em várias áreas, das quais só nos lembramos quando corre mal. É esse o desafio de crescimento da nossa maturidade democrática: ver para lá da clubite dos partidos e da agenda mediática do dia. Em nome de todos.
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