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Alexandra Machado amachado@negocios.pt 03 de Setembro de 2012 às 23:30

Não passe cartão

O Pingo Doce deixou de aceitar cartões de crédito e débito em compras inferiores a 20 euros. É uma decisão empresarial, num confronto com as empresas gestoras de cartões.

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A Jerónimo Martins não quer pagar tanto pelas comissões bancárias. Admite que vai poupar cinco milhões. Quando li a notícia assaltaram-me várias perguntas. Não vai a Jerónimo Martins perder com esta guerra negocial? O processo de depósito de dinheiro não tem custos? Os enganos, nas transacções co numerário, não são maiores? Não haverá clientes a optarem por outras lojas?

As comissões são elevadas. O grupo Jerónimo Martins tem força negocial para enfrentar a banca. Quem vai ganhar este braço de ferro? Não se sabe, mas sabe-se, antecipadamente, quem vai perder. Os consumidores. Não vêem a poupança ser repercutida, mas também não podem utilizar o método de pagamento que mais lhes convém. O poder negocial do consumidor é ir a outra loja. Mas olha para o lado e... começa a haver poucas alternativas no que a supermercados de proximidade diz respeito. Nunca foi um mercado fácil. O Lidl conseguiu, no entanto, entrar e conquistar clientes. Porque tem por trás uma máquina. Já os pequenos supermercados, independentes, lutam com cada vez maiores dificuldades. Com um a agravar: existem menos grossistas a quem podem comprar os produtos. A Manuel Nunes está em processo de insolvência. Agora, a GCT também. A própria Makro está a reduzir actividade em Portugal. Os portugueses estão a comprar menos, inclusivamente produtos alimentares, e concentram cada vez mais as suas compras. Os maiores saem beneficiados. Por isso, se exige maior atenção das entidades de supervisão da concorrência. Em toda a linha. E não basta querer-se que haja acordos de auto-regulação entre distribuição e produção. Nesta história, há elos mais fracos. Há produtores a lutarem pela sobrevivência e sem os pequenos grossistas vêem a colocação dos seus produtos limitada. É um risco sério e grave. E a atenção tem de ser redobrada.

Os pequenos produtores, grande parte PME portuguesas, não têm a força da Nestlé ou da Unilever. E não conseguem simplesmente dizer que não aceitam cartões. Se a distribuição quiser, aceitam todas as formas de pagamento. É mais uma luta desigual. Como a que não é travada entre Jerónimo Martins e banca. Esta é uma luta entre iguais. Para já, não há cartões. Mas continua a haver clientes nos Pingo Doce. Como continua a haver clientes da distribuição a pagar comissões pelos pagamentos electrónicos. Vai ser interessante perceber o desfecho, ainda que com o sentimento amargurado de que vai sobrar para os do costume: os consumidores.

*Jornalista

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