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Eva Gaspar - Jornalista egaspar@negocios.pt 13 de Março de 2015 às 03:07

A Grécia e a má vizinhança

Imagine-se a viver num prédio sem seguro que sofreu um enorme abalo em 2008, que provocou estragos graves em vários apartamentos que ameaçavam a integridade de todo o edifício.

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O condomínio decidiu então quotizar-se para emprestar dinheiro para a recuperação das fracções mais abaladas. O vizinho que tinha a casa mais descuidada e que ficou mais danificada recebeu o maior dos empréstimos. As obras correram mal por responsabilidades várias, foi preciso um segundo empréstimo, a família que lá vivia foi ficando cada vez mais frustrada e empobrecida – como, de resto, em muitos outros apartamentos. Mudou várias vezes de "governanta" e passou agora a ser administrada pelo filho mais novo, que acaba de informar a vizinhança que quer um perdão de metade do que lhe foi emprestado e que se sente legitimado a recorrer ao fundo de reserva do condomínio, até porque precisa de recontratar as senhoras da limpeza cuja demissão fora imposta pelos vizinhos como condição para que lhes fosse emprestado o dinheiro. Você, vizinho, concordaria? Pois o eleitorado grego, ou parte dele, acreditou que sim.

 

Depois de a Grécia ter recebido o maior programa de assistência financeira jamais montando pela comunidade internacional (240 mil milhões de euros) e de ter beneficiado do maior perdão de sempre de dívida pública (120 mil milhões de euros que estavam na posse de fundos e bancos foram anulados), o Syriza venceu as eleições prometendo e assumindo como adquirido um segundo perdão de dívida pública (agora quase toda garantida por contribuintes dos demais países do euro) e o desvio para o seu Orçamento de Estado de quatro mil milhões de fundos estruturais europeus e de outros três mil milhões de euros do envelope da troika destinado à recapitalização dos bancos (envelope esse que, à cautela, o Eurogrupo mandou entretanto sair de Atenas).

 

O grande mal-entendido nasce aqui. Por melhores que fossem as suas intenções, o Syriza prometeu o que não estava, nem nunca estará, ao seu alcance. Sabendo disso, quer agora convencer-nos de que o apartamento grego está em ruínas ("é uma catástrofe humanitária"), e que isso se deve aos empréstimos ("a Grécia ficou viciada neles") e à má-fé do empreiteiro da obra ("a troika não foi criada para salvar a Grécia, mas para a destruir"). 

 

Olhar para dentro, tentar perceber porque é que a Grécia foi o país da União Europeia que nos 30 anos antes da união monetária menos cresceu, que explodiu depois com o consumo permitido pelo crédito barato do euro e pela "ambiguidade criativa" (então mais aplicada às estatísticas), que nestes anos de ajustamento (2008-2014) as exportações caíram (enquanto as portuguesas cresceram 20%) muito simplesmente porque a Grécia não produz muitas coisas que o mundo queira comprar, será desviar atenção do essencial. Essencial é fazer crer que são os vizinhos os devedores de reparações financeiras e até morais. E, como em matéria de acerto de contas, Atenas é o Paradigma da Virtude, desenterrem-se também as sepultadas antes da construção do condomínio ao qual, por vontade própria, e com altíssimo patrocínio da França, a Grécia se integrou.

 

É essa a lógica que explicará que o parlamento presidido por Zoe Konstandopoulos - a mais velha de duas filhas que permitiram à mãe receber abono de família até Novembro de 2013, 18 e 12 anos além do legalmente permitido - acabe de aprovar a instalação de uma comissão para reclamar dívidas do tempo da II Guerra Mundial à Alemanha. Que no dia anterior, o ministro grego da Defesa tenha ameaçado fazer letra morta do mui recente Tratado de Schengen insinuando que dará documentos para que ilegais e até "jihadistas" entrem Europa adentro e "inundem" Berlim. Que no fim-de-semana passado, o primeiro-ministro Alexis Tsipras tenha denunciado uma conspiração ibérica para derrubar o seu governo de coligação de radicais de esquerda e de direita. Que nas semanas anteriores, Yanis Varoufakis tenha jogado todas as cartas para espalhar o rastilho da crise grega aos países mais vulneráveis, chegando ao ponto de confidenciar, no recato de uma entrevista à RAI, que alguém muito bem colocado em Roma lhe tinha dito que a dívida italiana também nunca poderia ser paga. Com a ajuda de São Draghi, o tiro saiu pela culatra: enquanto os juros da dívida grega trepam para níveis estratosféricos, os dos demais países renovam praticamente todos os dias mínimos históricos.

 

Pelo meio, ouvimos ainda chamar nomes novos a coisas cuja substância é a mesmíssima de sempre, lançados contra um inevitável muro de contradições. O governo que se recusou a pedir uma extensão do anterior programa de assistência, porque prometeu ao seu povo romper com o passado da troika, foi o mesmo que dias depois não o submeteu à votação do seu próprio parlamento com o argumento de que se tratava de uma mera extensão "do programa anterior". O governo que começou por garantir a pé juntos que prescindiria da última fatia do empréstimo da troika, é o mesmo que, afinal, se deu conta de que precisa desse dinheiro o quanto antes, e até de mais algum por um bom par de anos, chamando-lhe em grego siryzico de "contrato para a reconstrução e crescimento", o que em vernáculo não passa de "terceiro resgate". 

 

Podia ser diferente? O programa de assistência não foi fechado no fim de 2014, como previsto, porque o anterior governo de coligação entre o Nova Democracia e o Pasok aprovou o Orçamento de 2015 à revelia da troika, que identificara um "buraco" de 1,7 mil milhões de euros face à meta de um excedente primário de 3% do PIB, pelo que, independentemente de quem tivesse vencido as eleições, a Grécia e os seus credores estariam hoje de candeias às avessas. 

 

A novidade do Syriza, tratando-se da Grécia, não é, portanto, o jogo do faz-de-conta. A novidade está na distância entre a ruptura que prometia e a mesmíce que oferece, e na arrogância com que se apresenta como salvador da Grécia, resto da Europa e arredores. 

 

Mesmo o capital de expectativa de que haveria finalmente um combate pensado e consequente contra a fraude e evasão fiscais – uma das maiores chagas da sociedade grega – ficou comprometido com a proposta patética de Varoufakis de recrutar por dois meses "milícias fiscais" entre estudantes, donas de casa e até turistas. Isto, enquanto deixa a marinar a oferta técnica de alemães, franceses e britânicos para montar um sistema moderno de cruzamento de dados, e diz querer perdoar quase 90% dos 76 mil milhões de euros que os gregos devem ao Estado por considerar essas dívidas "incobráveis".

 

Diz Vital Moreira que a Grécia está a ficar sem tempo, sem dinheiro e sem amigos. Talvez o mal-entendido original não se desfaça sem novas eleições. Até lá, toda a culpa será da má vizinhança - ora transvestida de velha autoritária e intrometida, ora de avara incapaz de qualquer demonstração de solidariedade.

 

Esta mesma conversa, com algumas derivadas, ouvimo-la em Atenas, mas também em Budapeste.

 

Numa altura em que se volta a falar de exército europeu, para travar expansionismos putinistas e jihadismos difusos, convém saber com inequívoca clareza com quem se pode ou não contar.

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