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As crianças mimadas e os porcos selvagens

O tema marca a agenda dos mercados há vários meses e continuará certamente a ditar o rumo das acções nos próximos tempos. O facto de Ben Bernanke ter sinalizado que a Reserva Federal deverá em breve começar a diminuir os estímulos à economia norte-americana provocou quedas acentuadas nos mercados accionistas em todo o mundo, influenciando igualmente de forma decisiva a cotação de outros activos: os juros da dívida soberana dispararam, o dólar valorizou e as matérias-primas (sobretudo o ouro) perderam terreno.

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Uma reacção abrupta (entretanto aligeirada nas últimas duas sessões) que não pode deixar de causar estranheza sobretudo por duas razões. A primeira está relacionada com o facto de o tema da retirada de estímulos não ser novo, com as bolsas a recuarem nas últimas semanas precisamente a anteciparem a maior proximidade do fim do "dinheiro fácil" nos Estados Unidos. A segunda tem a ver com os motivos que levaram a Fed a sinalizar aos mercados a razão de estar a equacionar a redução do programa de estímulos. É que a economia norte-americana está a dar sinais de melhoria continuada e a Fed só irá "levantar o pé do acelerador" quando e se a retoma se confirmar.

Uma perspectiva mais optimista para a maior economia do mundo deveria servir de catalisador para os mercados accionistas. Mas é precisamente o contrário que se está a passar. A divulgação de um indicador económico positivo nos Estados Unidos tem merecido muitas vezes uma reacção negativa nas bolsas mundiais, pois tal sugere que a Fed vai ser mais rápida a retirar os estímulos que alimentaram a boa prestação de Wall Street nos últimos meses. Os índices accionistas norte-americanos atingiram máximos históricos quando a economia estava ainda "ligada à máquina" da Fed, e agora estão em queda porque se perspectiva que já se aguenta sozinha, sem a ajuda do banco central.

Um paradoxo aparentemente difícil de entender e que serviu para engrossar a lista de "nomes feios" já atribuídos aos investidores. Michael Hewson, analista do CMC Markets em Londres, disse que os "investidores estão a comportar-se como crianças mimadas a quem ameaçaram tirar o brinquedo". O presidente da Fed de Dallas foi bem mais longe e comparou os investidores a "porcos selvagens", por tentarem criar pânico no mercado para travar a intenção da Fed em reduzir os estímulos.

Certo é que, nos mercados, definir uma estratégia de investimento contrária à da maioria dá, regra geral, maus resultados. Quanto à política monetária da Fed, tomara que tire o pé do acelerador o quanto antes. Será sinal que a economia norte-americana estará em breve a ganhar força, o que poderá contagiar a anémica economia europeia. Nessa altura, se tal se concretizar, os mercados accionistas estarão certamente mais valorizados do que actualmente, independentemente da quantidade de nomes feios que chamem aos investidores.


*Subdirector

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