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Eva Gaspar - Jornalista egaspar@negocios.pt 06 de Junho de 2013 às 00:01

Mensagens e mensageiros

François Hollande não inovou. Em abono da verdade, foi obediente à melhor tradição gaulesa quando, na primeira ocasião que se lhe apresentou, mandou a Comissão Europeia às urtigas.

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Depois de apelar a um "verdadeiro governo económico", a uma "agenda europeia para o crescimento", até mesmo a um "New Deal" para a Europa combater o desemprego entre os jovens, o presidente francês disse alto e em bom som que não cabe à Comissão "ditar" à França o que tem de fazer para reformar a sua economia e equilibrar as contas públicas. Ou seja, que as regras votadas (também) pela França para dar a Bruxelas poderes reforçados na coordenação das políticas económicas continuarão a não valer quando em Paris se pressentir que beliscam a sua soberania. Hollande lembrou isso à Comissão, na véspera de entrar em vigor mais um pacote legislativo (o "Two Pack") precisamente destinado a fornecer a Bruxelas uma capacidade de intervenção mais robusta  e precoce na elaboração dos Orçamentos dos países do euro.


Hollande não terá chegado a prestar um mau serviço à França. Um país em recessão, com uma taxa de desemprego de 11%, a segunda maior carga fiscal da Europa, um défice orçamental e externo ainda próximo de 4% e uma dívida pública a caminhar a passos largos para os 100% do PIB tem de fazer reformas – e o presidente francês fez questão de o dizer na mesma frase em que tentou tirar o tapete à Comissão.

Mas não terá prestado um bom serviço à Europa, e por essa via, a Portugal. Ao desmoralizar o "polícia", Hollande não ajudou a credibilizar as novas regras do Pacto de Estabilidade, e terá tornado ainda mais distante uma união orçamental e um qualquer expediente de mutualização de dívida, sem o qual dificilmente o euro sobreviverá no formato actual.

E forneceu seguramente argumentos redobrados aos que, em Berlim - e não só -, suspeitam que jamais a França fará as reformas que os franceses sabem indispensáveis apenas pela "pressão dos pares". Será necessária também a pressão dos mercados, que continuam a oferecer condições fantásticas de financiamento ao Estado e à economia francesa (as taxas de juro cobradas às empresas, em particular às PME, são em França as mais baixas da UE).

 

A França arrisca-se, assim, a perder a segunda oportunidade que não foi dada aos pequenos países da periferia de se ajustar às dinâmicas do envelhecimento e da globalização sem ter a corda ao pescoço. E é pouco provável que o euro sobreviva a um segundo abalo, com epicentro no centro.

A reacção de Hollande poderá, no entanto, ter sido condicionada não tanto pela mensagem - as recomendações da Comissão encaixam-se perfeitamente nas orientações do Governo -  mas pelos mensageiros. Boa parte da imprensa não fugiu à tentação dos títulos provocatórios ("Comissão ordena Paris" para no dia seguinte noticiar que "Paris encosta Bruxelas às cordas") e fez interpretações muito próprias do que é recomendado pela Comissão e, mais ainda, do resultado da receita. O correspondente do "El País", por exemplo, escrevia que Bruxelas tinha prescrito à economia gaulesa "um programa neoliberal em toda a linha que se for aplicado ao pormenor acabará com boa parte do Estado social em apenas 18 meses"... Resta, por isso, a dúvida: terá Hollande mandado Bruxelas às malvas ou também a quem lhe trouxe a mensagem?

*Redactora Principal
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