Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Eva Gaspar - Jornalista egaspar@negocios.pt 13 de Junho de 2012 às 23:30

Sampaio da Nóvoa e os "senis"

Não o conheço. Conheço apenas quem com ele jogou à bola nos tempos dos "juvenis" contra os "senis" e ainda hoje guarda boa memória do melhor jogador em campo que, a meio das partidas, desfalcava a equipa dos filhos para evitar um resultado que, de outro modo, seria invariavelmente desmoralizador para os mais velhos. Pelos vistos, Sampaio da Nóvoa ainda hoje gosta de desequilibrar. Na procura de equilíbrio.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 3
  • ...
Não o conheço. Conheço apenas quem com ele jogou à bola nos tempos dos "juvenis" contra os "senis" e ainda hoje guarda boa memória do melhor jogador em campo que, a meio das partidas, desfalcava a equipa dos filhos para evitar um resultado que, de outro modo, seria invariavelmente desmoralizador para os mais velhos. Pelos vistos, Sampaio da Nóvoa ainda hoje gosta de desequilibrar. Na procura de equilíbrio.

No Dia de Portugal, o reitor da Universidade de Lisboa fez o retrato do país que somos e não gostamos. Apontou um sistema político "bloqueado" e "instituições enfraquecidas tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício", uma economia "frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial". Constatou as desigualdades sociais e dificuldades acrescidas de quem não tem trabalho ou protecção do Estado numa sociedade em que se esboroou também a rede da família tradicional. Alertou para os extremismos porque "uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização". Rejeitou as vias únicas, porque é de alternativas que se faz a liberdade. Falou depois da Europa - como "condição", não opção, para Portugal.

Sampaio da Nóvoa fez o retrato do país que somos e não gostamos, mas também mostrou quem e como se pode fazer a mudança. "Não nos iludamos. Ou nos salvamos a nós ou ninguém nos salva". "Não conseguiremos ser alguém na Europa e no mundo se formos ninguém em nós".

O "heroísmo" que se pede aos portugueses, disse, pode parecer pouco mas é muito: muito trabalho, muitíssima organização, pôr o potencial de conhecimento que há na mais qualificada geração de portugueses e em escolas técnicas e universidades a serviço do sector produtivo real.

É um caderno de encargos para ser executado em longos anos, se não décadas, que serão de quase estagnação, em que desejavelmente se passará a remunerar menos financeiros e advogados, e valorizar mais quem faz indústria e agricultura e satisfaz o essencial do bem-estar humano.

É um caderno de encargos ainda mais pesado nestes tempos de incerteza global que anteciparam algumas velhas certezas. "Os reformados de hoje vivem graças à idade áurea dos sistemas de Previdência. Em compensação, os trabalhadores de hoje e de amanhã terão de trabalhar durante um número maior de anos antes de alcançar a reforma e terão pensões públicas mais reduzidas".

O aviso recorrente da OCDE surgiu nesta semana em que Reserva Federal fez contas ao rasto de destruição deixado por um sector que ainda tem muito louco e criminoso à solta: a riqueza líquida média das famílias norte-americanas caiu 39% entre 2007 e 2010, em boa medida devido à desvalorização do património imobiliário.

Pode parecer estranho, mas foi bom ouvir Sampaio da Nóvoa dizer que não há "quick fix" e que quem tem de pôr mãos à obra somos nós. Foi bom ouvir realismo sem derrotismo. E não ouvir culpas lançadas a infortúnios gregos ou fortunas alemãs. Talvez sabedoria seja também admitir que as coisas podem piorar antes de melhorar. E seguramente que austeridade rima também com racionalidade. A apontar dedos, aponte-se à que será a nossa pior característica colectiva: a cultura da desresponsabilização.


Redactora Principal
Visto por dentro é um espaço de opinião de jornalistas do Negócios
Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias