Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

As próximas vítimas

Assinala-me uma amiga grega que o apelido do primeiro-ministro interino Panagiotis Pikramenos, que vai manter o País em gestão corrente até às eleições de 17 de Junho, é sinónimo de "triste", "amargurado".

  • Assine já 1€/1 mês
  • 7
  • ...
Assinala-me uma amiga grega que o apelido do primeiro-ministro interino Panagiotis Pikramenos, que vai manter o País em gestão corrente até às eleições de 17 de Junho, é sinónimo de "triste", "amargurado". É a ironia a atravessar-se uma vez mais no caminho de um povo que, durante o próximo mês, estará sujeito a uma chantagem feroz por parte das instituições europeias e da Alemanha.

Mais decidida a quebrar do que a ceder, Angela Merkel nega aos gregos uma aspiração mais do que legítima: manterem-se no euro, vendo aliviadas as medidas draconianas a que têm sido sujeitos. E, no entanto, dar espaço à Grécia para que se recomponha economicamente e se regenere socialmente é a reparação mínima que a Europa deve cumprir por, desde o início, ter concebido um projecto que acolhe países com níveis de organização e desenvolvimento tão assimétricos; por negligentemente, durante vários anos, ter fechado os olhos aos malabarismos orçamentais que por lá – tal como por cá – se faziam; e por ter falhado teimosamente na receita a aplicar à economia grega, que conduziu o País ao quinto ano consecutivo de recessão e a uma das mais graves crises da sua história.

Quando há dois anos fui enviada pelo Jornal de Negócios a Atenas, em reportagem, a poucas semanas de o país ter accionado o pedido de assistência financeira, tive oportunidade de descrever um Estado transformado num instrumento de satisfação de clientelas. De ouvir as elites do país a reconhecerem que partidos políticos, corrupção e Estado formavam uma tríade inseparável. E de transmitir relatos de uma Administração Pública escangalhada, que serve para empregar amigos e correligionários, onde os médicos cobram dinheiro para acelerar o atendimento de um doente; onde os pedidos de licenciamento de obras são acompanhados por generosos envelopes e onde os fiscais das Finanças recebem incentivos para fecharem os olhos à contabilidade criativa dos contribuintes (se virmos bem, em relação a Portugal, estaremos apenas perante uma questão de escala e de legitimação pública da corrupção).

Não há dúvidas de que a economia e a sociedade gregas precisam de se reestruturar. O mapa político e administrativo, para reduzir a influência dos partidos nas estruturas estatais, o sistema fiscal, a administração pública, o sistema económico, a cultura extremamente individualista e clientelar. Mas precisa de tempo. As terapias de choque apenas continuarão a aprofundar as desigualdades e a cavar a miséria num país onde a austeridade está a dizimar lentamente pensionistas, trabalhadores dependentes e função pública que não conseguem fugir ao sistema, e a adiar as reformas verdadeiramente estruturantes.

Os líderes portugueses, que lamentavelmente perdem mais energias a estigmatizar os gregos do que a procurar convergência de esforços para recentrar o debate na revisão da arquitectura europeia, deviam ouvir o conselho que há dois anos nos foi deixado por Theodoros Pangalos, o imponente e poderoso número dois do Governo do PASOK, entretanto caído em desgraça.

Quando ainda resistia ao inevitável pedido de assistência, e numa altura em que os gregos estavam a ser atacados por Angela Merkel e enxovalhados pela comunicação social alemã, perante a passividade europeia, disse-nos em entrevista: "Devo dar-vos um conselho: não sejam neutros. Vocês são as próximas vítimas". Teve razão em relação ao resgate. Dois anos depois, poderá voltar a tê-la caso deixemos que a Grécia seja enxotada do euro.

*Jornalista

Visto por dentro é um espaço de opinião de jornalistas do Negócios

Ver comentários
Saber mais opinião
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias