Eva  Gaspar
Eva Gaspar 13 de fevereiro de 2015 às 04:50

A grande falácia grega (outras menores e uma sugestão )

O novo governo em Atenas alega que a dívida pública do país é insustentável e constitui o maior travão à recuperação da economia e do emprego no país. E como promete "falar verdade" e dizer frontalmente aos povos o que se sussurra nos bastidores do poder na Europa, quer preparar desde já o resto dos europeus para uma segunda reestruturação. Porque, afinal, também aqui não há alternativa: a dívida dos gregos "nunca poderá ser paga".

É verdade que a dívida pública grega, tendo sempre sido elevada (em torno de 100% do PIB), nunca o foi tanto e é hoje a mais pesada da União Europeia - rondava no final do ano passado 177% do PIB, cerca de 315,5 mil milhões de euros, mesmo depois de bancos e fundos de investimento de todo o mundo terem, em 2012, sido forçados a perdoar mais de 60% do valor dos títulos que tinham em sua posse, na que foi a maior operação de reestruturação de que há memória.  

 

Mas se o tamanho da dívida fosse o único critério para avaliar a sua sustentabilidade o mundo estaria agora aterrorizado com o que se passa num dos eixos da economia planetária. Porém, no Japão, que quase não cresce há décadas e onde os preços obedecem muito melhor à lei da gravidade do que às instruções do governo e banco central, a dívida pública está quase em 250% do PIB, e, no entanto, ninguém ouviu por lá dizer "sou ministro das Finanças de um país falido".

 

Talvez gregos e outras esquerdas estejam mais empenhados em falar de reestruturações para tornar a conversa menos antipática, vendendo a ilusão de que é possível zerar contas, mandar a factura para terceiros, e continuar a viver "business as usual". Discutir reforma do Estado ou do sistema pensionista ou do fiscal, falar, enfim, dessa coisa de escolher o que fazer em função do que se tem e realisticamente se pode ambicionar ter, é chamar chatice e afastar eleitores.

 

Há, porém, uma boa razão para os japoneses não andarem em pânico. Basta olhar para outra métrica, para o custo de honrar a dívida, que remete para a fatia da riqueza de um país, medida pelo PIB, que tem de ser anualmente transferida para pagar juros e parcelas dos empréstimos contraídos.  

 

Esse valor no Japão é de apenas 2%, porque a taxa de juro média que incide sobre aquela montanha de 250% do PIB de dívida é baixíssima: 0,9%. Na média da Zona Euro, o peso do serviço da dívida tem rondado 2,9% do PIB. Em Portugal, Irlanda ou Chipre pesa em torno de 4%-5%.

 

E na Grécia? Era de 5%, mas esse fardo foi cortado para metade - 2,6% do PIB, nas contas do instituto Bruegel - porque, entre várias concessões feitas em exclusivo ao país, está a promessa de os bancos centrais do euro prescindirem a favor de Atenas da sua quota-parte de lucros decorrentes das compras feitas pelo BCE de títulos de dívida pública grega, no tempo em que andava a ser vendida no mercado ao desbarato devido ao receio de calote.

 

Esse número - 2,6% - revela-se ainda mais extraordinário quando se olha para o peso do serviço da dívida no passado. Nunca tendo sido inferior a 4,4% no horizonte temporal da base de dados europeia, em 1992 foi de 10,4%, em 1993 de 11,4%, em 1994 de 12,5%, em 1995 de 11,3%, em 1996 de 10,6%. Ou seja, durante cada um destes cinco anos, um décimo da riqueza da Grécia foi para pagar aos credores, quatro vezes mais do que a proporção presente. Quantos suicídios se atribuíram, então, aos agiotas que insistiam em emprestar o dinheiro que o Estado grego insistia em pedir?

 

Só depois desse ano de 1996, já no regaço da disciplina orçamental imposta pela contagem decrescente do que viria a ser o euro, a fatia do PIB destinada a pagar aos credores caiu para valores que não se escrevem com dois dígitos. Mesmo assim, pelo meio, Atenas ainda teve margem para organizar, em 2004, a "Olimpíada mais cara da modernidade" que terá custado mais de sete mil milhões de euros aos contribuintes gregos, o dobro do estimado, o dobro das anteriores Olimpíadas de Sidney.
 

Yanis Varoufakis, porém, acha que não há volta a dar. Quem ganha menos de 12 mil euros anuais vai ficar isento de impostos (o actual limiar é metade), mas convencer a Grécia a manter-se determinada em pagar o que deve aos outros países seria "como querer tirar mais leite de uma vaca exausta. Chicoteia-se, a vaca morre e não dá mais leite". 

 

Nos anos 90, havia um chanceler que também avisava que a Alemanha não estava disposta a ser mais a "vaca leiteira". Talvez seja esse simultaneamente o maior mérito e fonte de desilusão da Europa: não há mais um só homem ou mulher capaz de fazer cumprir a sua vontade.

 

Outras pequenas falácias.

 

* Queixa-se o ministro grego de que os empréstimos da troika são como "droga", tornaram os gregos "dependentes" da dose seguinte. Nos cálculos do Mecanismo Europeu de Estabilidade referentes a 2013, o financiamento europeu permitiu à Grécia poupar 8,6 mil milhões de euros (o equivalente a 4,7% do seu PIB) em juros por comparação com o que o preço que o mercado lhe estava disposto a emprestar. Varoufakis tem razão: assim não dá para acabar com o vício.

 

* "Se a Europa não nos apoiar como nós queremos, vamos bater a outras portas", avisa-se. Se Atenas descobrir algum investidor que lhe ofereça crédito a menos de 2% por maturidade de 30 anos, dez anos de carência de pagamento de juros e sem impor quaisquer condições, passe palavra, por favor.

 

Um dia, o Estado grego obteve emprestados 100 euros de um investidor, mas entretanto o comprador deu-se conta de que corria o risco de nunca voltar a ver o dinheiro, porque parecia que nada batia certo nas contas de Atenas. Passou a querer vender esse título, mesmo ao desbarato, e muitos outros fizeram o mesmo. Para tentar acalmar o pânico, o BCE pisou nos limites do seu mandato e foi comprá-lo. Cobraram-lhe 70 euros. Um dia chegou a data de vencimento. O BCE cobrou o valor facial de 100 euros à Grécia, mas por decisão dos outros Governos dos países do euro prometeu entregar esses 30 euros de lucro (que seriam distribuídos pelos bancos centrais nacionais) ao Estado grego. Impuseram-se duas condições: contas em ordem e que usasse esses 30 euros para ir pagando a quem deve. E como é que isto foi traduzido em novo grego? "Devolvam-me" os 1,9 mil milhões de lucros que fizeram em "negócios" com a minha dívida. 

 

* Em Atenas, por estes dias, os homens vivos não são mais os responsáveis pelo seu tempo. Pode enterrar-se compromissos assumidos há quatro anos, sendo igualmente legítimo desenterrar Tratados aceites há 25 que acertaram contas de guerras travadas há 70.

 

* Na versão Varoufakis, resistir contra a deriva soviética que diz emanar de Berlim é dizer na TV italiana que o euro é um castelo de cartas, que se a carta grega cair tudo vai ruir, mas, pelo sim pelo não, dê-se golpinho baixo na carta italiana: "Disseram-me que a vossa dívida também é insustentável mas não se pode dizer": a Alemanha pode retaliar.

 

* Com o novo governo de Atenas, a semântica ganhou toda um nova relevância. O Estado e os bancos gregos desejavelmente vão continuar suportados por financiamento da comunidade internacional, mas chiu! ninguém pode desconfiar que o pessoal de Bruxelas e do FMI ainda anda por aqui. Falar troika, só em 'off'; escrever esse palavrão, nem pensar. E os gregos tão pouco podem suspeitar que haverá uma "extensão" do programa; o que pode eventualmente acontecer é uma "alteração" na sua duração temporal e, claro, um baptismo, uma ruptura, um pós-qualquer.

 

Uma sugestão.

 

Não há muito tempo, Christine Lagarde foi crucificada na praça pública por se ter atrevido a dizer que a Grécia era um país pobre com gente muito rica que foge olimpicamente aos impostos. Se a Grécia precisar de um terceiro resgate,  por que não avançar em paralelo com uma "taxa euro"? A Itália pagou uma para lá entrar, talvez os gregos ricos tenham um assomo patriótico e paguem para aí se manterem. Solução mais à esquerda é difícil. 

 

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