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Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 23 de Janeiro de 2014 às 00:01

Social-liberal-realismo

“The rather dangerous Monsieur Hollande”. Estávamos em Abril de 2012, entre as duas voltas das eleições presidenciais francesas, e a “Economist” fazia mais uma daquelas capas que ficam na memória. Torcia despudoradamente pela vitória improbabilíssima de Nicolas Sarkozy.

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O único consolo, escrevia a revista britânica, é que com um presidente socialista talvez a França conseguisse dar massa crítica à frente de oposição à disciplina orçamental de inspiração alemã que, em sua opinião, estava a estrangular qualquer possibilidade de retoma na Zona Euro. Em contrapartida, um Presidente francês que prometia ser  “normal” e “hostil”  à mudança  “minará a vontade da Europa de fazer as reformas dolorosas necessárias à sobrevivência do euro”.

 

Dois anos e meio volvidos, nenhum destes pressupostos se verificaram. 

 

O presidente “normal” morreu antes do seu tempo político. Viu publicamente exposto o triângulo amoroso no qual viverá há longos meses e confirmou a suspeita universal de que, de perto, ninguém é normal.

 

O Tratado Orçamental e a sua regra de ouro do equilíbrio das contas públicas foram aprovados sem emendas, ao contrário do que o candidato Hollande prometera.

 

A  Europa fez e está a fazer alterações que, podendo não bastar (e não bastam), são tão profundas e radicais que só o distanciamento histórico o permitirá realizar em toda a sua dimensão (numa reportagem televisiva recente sobre a Grécia, Yves Thibault de Silguy, o comissário francês que acompanhou o lançamento do euro na década de 90, dizia que, se tivesse tido o atrevimento de sugerir mecanismos para que Estados pudessem ajudar-se uns aos outros a obter financiamento para pagar políticas e funcionários públicos, "teria sido fuzilado”). 

 

Por último, depois de dois anos de conversa e acção centradas na possibilidade de fazer crescimento e gerar emprego com procura e gasto público, os objectivos mantêm-se mas o presidente francês diz que a solução tem de ser procurada do outro lado da equação. “Chegou a hora de a França atacar o seu principal problema: a produção. Temos de produzir mais e melhor. É sobre a oferta que temos de agir”. Reduzir a despesa pública, incluindo a social, para ganhar espaço para baixar impostos às empresas passou a ser o novo Norte da política económica também aquém Reno. No plano das grandes orientações de política económica, Paris e Berlim estão agora de passo mais acertado.

 

É cedo para perceber o quanto a França está disposta, compreende a necessidade e é efectivamente capaz de se reformar - em particular a máquina do Estado, mas também o seu Estado social. Hollande referiu en passant alguns riscos. Num clicar de dedos, os sindicatos franceses não param a França - param a Europa; e a extrema direita de Marine Le Pen está aí de braços abertos para receber nas autárquicas de Março e nas europeias de Maio a fileira dos descontentes – e eles virão de todos os quadrantes. O que parece certo é que a França só se reformará ao lado e com o apoio da Alemanha.

 

No mesmo discurso em que prometeu menos carga fiscal para as empresas a troco de mais garantias de emprego, Hollande retomou velhos projectos de aliança com Berlim - quer uma “convergência económica e social” com a Alemanha que começará com uma harmonização dos impostos sobre as empresas,  promessa que Merkel e Sarkozy fizeram em 2011 e que deveria ter começado a vigorar em 2013 - e ainda lhes acrescentou mais alguns, nos domínios estratégicos da energia e da defesa. 

 

A viragem francesa e a entrada na era da "Merkollândia" acontece depois de uma viragem na Europa menos percebida: as “parcerias económicas”. O conceito, ainda numa fase embrionária, decorre da convicção de que, com uma população envelhecida, endividados e confrontados com um baixo potencial de crescimento, todos os países europeus têm reformas mais ou menos dolorosas pela frente que serão política e socialmente menos difíceis de empreender se forem feitas em conjunto e com financiamento o mais barato possível – quiçá, mais a prazo, através de um Orçamento próprio para a Zona Euro.

 

A Holanda e, em menor medida, a Finlândia, têm-se manifestado contra. Duvidam precisamente de países como a França. "A motivação para modernizar uma economia tem de vir de dentro e não acredito por um segundo que grandes países façam reformas a troco de empréstimos baratos", argumentava em Dezembro Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo. Pode ser que o discurso de Hollande faça o ministro holandês mudar de ideias. E pode ser que a França ajude a Europa a evitar uma deriva populista, acertando o passo num qualquer paradigma de social-liberal-realismo.

 

 

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