Eva  Gaspar
Eva Gaspar 29 de novembro de 2012 às 00:20

Tanto e tão pouco, Grécia...

Agora que a poeira começa a assentar, esta segunda renegociação das condições financeiras dos já dois empréstimos à Grécia resume-se a muito e, ao mesmo tempo, a tão pouco.

Juros (ainda) mais baixos, prazos (ainda) mais longos de reembolso, uma década de carência de pagamento de juros, lucros do BCE com compras de dívida grega transferidos para Atenas e até a possibilidade de um novo empréstimo para recompra de dívida grega (que anda no mercado a saldo, com 65% de desconto) revelam que não é conversa fiada a de que se quer a Grécia dentro do euro.

No caso dos empréstimos bilaterais, com base nos quais se improvisou o primeiro pacote de assistência à Grécia em Maio de 2010, juros ainda mais baixos significam, neste momento, menos de 1%. Ontem, o Financial Times escrevia que Espanha e Itália arriscam-se a perder dinheiro nesse empréstimo à Grécia.

Ninguém anda a brincar com os gregos. Ninguém anda a brincar com o "berço da democracia".

Pode argumentar-se que a Europa decidiu tarde e com poucos meios quando decidiu resgatar a Grécia em Maio de 2010; que o fez no pressuposto de metas irrealistas; que pediu reformas e contenção que jamais a Grécia poderia ter realizado em tão pouco tempo.

Mas no plano dos factos, a Grécia tem feito muito menos do que podia. Com duas eleições em três meses, um Governo que levou outro tanto a gerar consensos internos, quase tudo ficou parado nas privatizações, na legislação laboral, nas reformas da administração pública, na luta contra a evasão fiscal.

Christine Lagarde foi crucificada na praça pública quando disse que a Grécia era um país pobre de gente rica que fugia olimpicamente aos impostos e que tinha a obrigação de os fazer pagar antes de pedir mais empréstimos a terceiros. Sabe-se agora que sabia bem demais do que falava. Que terá sido ela, ainda como ministra francesa das Finanças em 2010, que deu ao seu colega grego a lista que lhe chegara por um funcionário do HSBC em Genebra com os nomes de mais de dois mil gregos que refugiam as suas fortunas na Suíça. Em Atenas, quem podia e devia, nada fez. As mais recentes estimativas da evasão fiscal duplicam as que até agora se assumiam como próximas da realidade: 30 mil milhões de euros anuais.

Ninguém anda a brincar com os gregos. Ninguém anda a brincar com o "berço da democracia".

É muito o que se tem tentado fazer para manter o país no euro e proteger o euro da terrível incerteza que significaria a sua saída. É muito, e ao mesmo tempo, tão pouco.

Depois de tudo, depois do maior perdão de privados dos tempos modernos, a dívida pública grega ainda estará em 124% em 2020. Uma reestruturação ou qualquer coisa à séria (pacto de amortização de dívida?) terá de ser feita antes dessa data, e possivelmente para mais países (e não só os suspeitos do costume).

A decisão desta semana é mais uma que compra tempo - e ainda mantém o FMI a bordo. Tempo para quê? Para que a Grécia consiga convocar-se. Para que se perceba se os gregos querem ficar no euro e sujeitar-se à disciplina que uma união monetária pressupõe. Idem aspas para Portugal. 

E mais a Norte? Especular que a Europa não está a fazer mais por causa das eleições alemãs é levantar poeira para os olhos. Mesmo depois das eleições de Setembro, e independentemente de quem as vencer, a lei estará lá: e o que a lei diz é que não há transferências entre países do euro.

A lei pode ser mudada. Mas se a Grécia (idem aspas Portugal) não mostrar empenho em cumprir a actual, que garantias está a dar de que cumprirá a seguinte?

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