Manuel Esteves
Manuel Esteves 24 de janeiro de 2014 às 00:01

A ADSE é um "belíssimo seguro" para os grupos privados

Consegue o leitor imaginar o Governo a subir as contribuições sociais para evitar cortes nos apoios aos desempregados? Ou aumentar mais os impostos para evitar novos cortes no SNS? Com certeza que não. Mas foi isso que aconteceu no subsistema de saúde da Função Pública.

 

Desde o início do programa de ajustamento que a estratégia orçamental tem procurado seguir uma regra sacrossanta: a consolidação deve ser feita pela redução da despesa e não pelo aumento da receita. E o Governo só não foi mais fiel a esse princípio por causa dos chumbos do Tribunal Constitucional que obrigaram Gaspar a enveredar pelo "enorme aumento de impostos". Mas o princípio de consolidar pelo lado da despesa manteve-se e Passos Coelho nunca se cansou de o repetir.

Também na ADSE a abordagem inicial era essa. Conforme lembra a jornalista Marlene Carriço num trabalho de fundo sobre esta matéria publicado na edição impressa do Negócios de terça-feira, o memorando da troika fixava como meta para 2016 a autosustentabilidade da ADSE. E dizia como: "através do decréscimo das contribuições da entidade empregadora e pelo ajustamento do âmbito dos benefícios de saúde".

Só havia uma forma de cumprir esta orientação: cortando nos benefícios do subsistema. Foi isso que se fez nas prestações sociais, por exemplo. Mas não foi isso que o Governo fez na ADSE. Pelo contrário, optou pelo aumento dos descontos dos funcionários públicos e dos reformados, que passaram de 1,5% para 3,5%.

Quem teria perdido com o corte nos benefícios da ADSE? Sem dúvida os funcionários. Mas não foi isso que demoveu um Governo que nem sequer pestanejou quando cortou a eito nos salários, aumentou o horário de trabalho (sem compensação pecuniária) e reduziu de forma abrupta as pensões actuais e futuras da Função Pública. O que levou o Governo, sempre tão diligente no cumprimento do memorando da troika, a evitar cortes nos benefícios prestados pela ADSE não foi a saúde dos funcionários, mas sim a saúde financeira dos grupos privados de saúde.

A ADSE tem um papel fulcral na dinamização deste sector, já o assumiu o ministro da Saúde, como também a presidente da ES Saúde, que disse ainda que "é um belíssimo seguro de saúde". Imbatível pelos seguros privados, provou o Negócios. E por ter uma cobertura inigualável e um preço sem paralelo, a ADSE conduz a uma utilização massiva dos serviços privados de saúde. Os necessários, mas também os dispensáveis. E, em questões de saúde, opta-se sempre por mais: mais consultas, mais prescrições, mais exames. E mais facturação para os grupos privados.

A ADSE não é só um belíssimo seguro de saúde para os funcionários públicos. É também um belíssimo seguro de vida para os grupos privados da Saúde.

*Editor de Economia

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