Manuel Esteves
Manuel Esteves 27 de setembro de 2013 às 00:01

O pequeno fascista que vive dentro de nós

"Os políticos são todos iguais". "A mim não me enganam mais". "Só pensam no deles". Estes e outros mimos não citáveis têm tido muito eco na (pouca) cobertura que vai sendo feita da campanha eleitoral dos candidatos autárquicos. Num tom que varia geralmente entre o arrogante e o resignado, o eleitor veste simultaneamente a pele de vítima e de juiz, apontando o dedo aos culpados. Os políticos. Todos. Sem excepção.

Existem razões de sobra para que nos sintamos descontentes com a qualidade média dos políticos e com o seu desempenho. A forma fechada como os partidos funcionam, a vulnerabilidade das suas agendas a temas eleitoralistas, a dependência financeira dos seus protagonistas face à dita actividade política e a falta de qualificações suscitam legítimo e compreensível desagrado. Mas nada disto justifica o discurso anti-político do "são todos iguais". É errado e é perigoso.

Os políticos só serão todos iguais no dia em que os eleitores forem todos iguais. Enquanto houver eleitores que se informam, reflectem e decidem, haverá políticos sérios e capazes. Se, pelo contrário, cresce o número de eleitores mal informados, desinteressados e alienados da causa pública, maior será o número de políticos incompetentes e corruptos.

Se, nós eleitores, aceitarmos o postulado do "são todos iguais", só nos restam duas alternativas: deixarmos de escolher "políticos" e entregarmos os desígnios do país a uma só pessoa ou a um colectivo que governe com mão pesada (e que não deixa, por isso, de ser política); ou então, estando nós eleitores descontentes com os elegíveis, podemos tentar substituí-los. Claro que isso não se faz de um dia para o outro, exige maior protagonismo e uma intervenção gradual na causa pública. E pode começar por coisas bem simples: num colectivo de bairro, no sindicato, na freguesia, na associação de pais, no grupo dos amigos de qualquer coisa, numa associação de apoio a outra coisa qualquer, etc. Aqui e ali, onde haja interesse público, há política. Todos fazemos política cada vez que fazemos alguma coisa que mexa no interesse colectivo. E também fazemos política quando dizemos que os políticos são todos iguais.

Claro que a maioria dos que dizem "são todos iguais" não opta por nenhuma das alternativas. Sabe-nos bem dizer mal e sabemos que isso só é possível em democracia. E não temos tempo nem jeito para intervir no bairro, na escola ou no local de trabalho. E, assim, lá vamos andando, "com a cabeça entre as orelhas", libertando, muitas vezes sem querer, o pequeno fascista que temos dentro de nós e que aos poucos e poucos vai minando os pilares da nossa democracia.

*Editor de Economia

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