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Nuno Carregueiro nc@negocios.pt 27 de Fevereiro de 2013 às 23:00

Negociar cá dentro e investir lá fora

Metade das cotadas do PSI-20 já apresentou os resultados de 2012 e as conclusões parecem, à primeira vista, ser surpreendentes. Exceptuando o caso particular do Banif, todas as restantes nove empresas viram os seus resultados líquidos melhorar face ao período homólogo.

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Num ano em que a economia portuguesa registou uma contracção de 3,2% e está a ser fustigada pela pior recessão desde a II Guerra Mundial, seria de esperar precisamente o contrário, com os lucros a recuarem face a 2011, ou mesmo a passarem para terreno negativo.

Os mais distraídos dirão que esta tendência reflecte o facto de as grandes empresas estarem a passar ao lado dos sacrifícios que estão a ser pedidos aos portugueses. Mas a verdade é outra. As empresas que estão cotadas na bolsa portuguesa há muito que deixaram de ser um bom barómetro da economia nacional, já que a actividade internacional tem um peso cada vez maior nos resultados que estas geram. Basta olhar para os números apresentados quarta-feira pela Jerónimo Martins: 72% do EBITDA gerado foi obtido na Polónia e do investimento que a empresa vai fazer este ano apenas uma parte residual será aplicado em Portugal.

Este não é caso único. O EBITDA gerado pela EDP Renováveis em Portugal representa menos de 13% do total obtido pela empresa. A Portucel e a Altri exportam a esmagadora maioria do que fabricam em Portugal.

Quem segue de perto a actividade das maiores cotadas nacionais (sobretudo investidores e analistas) já pouco liga ao que se passa em Portugal. A Portugal Telecom é a maior operadora de telecomunicações portuguesa, mas o que está a condicionar o desempenho bolsista da empresa é a expectativa sobre a evolução da sua participada brasileira. Na Galp Energia os investidores e analistas não querem saber se as vendas de combustíveis estão em queda em Portugal, mas antes como está a decorrer o processo de produção e exploração de petróleo e gás no Brasil, Angola e Moçambique.

À primeira vista esta é uma tendência positiva. As grandes empresas portuguesas souberam internacionalizar-se com sucesso e estão agora a receber os frutos dessa aposta. Sem dúvida. Mas esconde também uma tendência perigosa. Cada vez menos dependentes do mercado português, as grandes empresas estão também a investir cada vez menos no mercado doméstico. Numa altura em que a recuperação do investimento parece ser um factor cada vez mais decisivo para a retoma da economia portuguesa, este foco internacional das empresas portuguesas pode também representar más notícias. É que se não forem estas a liderar a recuperação do investimento em Portugal, dificilmente se pode pedir tal tarefa às PME.

*Subdirector

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