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A baleia de Londres

O mais recente episódio de um gestor de activos descontrolado a fazer apostas "estúpidas" – palavras do presidente do banco norte-americano JP Morgan, que terá de pagar uma conta que já vai nos três mil milhões de dólares – foi possível porque... a sua chefe esteve ausente por doença e, quando regressou, foi trabalhar para um gabinete uns pisos mais longe do computador do ambicioso gestor.

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O mais recente episódio de um gestor de activos descontrolado a fazer apostas "estúpidas" – palavras do presidente do banco norte-americano JP Morgan, que terá de pagar uma conta que já vai nos três mil milhões de dólares – foi possível porque... a sua chefe esteve ausente por doença e, quando regressou, foi trabalhar para um gabinete uns pisos mais longe do computador do ambicioso gestor. É este o nível de controlo que continua a existir no gigantesco monstro que continua a comandar o destino de todos nós.

Não se aprendeu nada com a crise do Lehman Brothers. Pelo contrário, aprendeu-se a ignorar esse grande elefante branco no meio da sala de mercados: existe uma impunidade total para quem perpetua uma autofagia destruidora de riqueza, para quem aposta com o dinheiro dos outros.

O pecado capital da actual crise do euro – cuja onda de austeridade arrasta tudo pelo caminho, de forma cega e fria – é a credibilidade que se dá aos "mercados". Os "mercados" já não são os mercados responsáveis de antes da evolução tecnológica. Agora, os "mercados" são algoritmos, máquinas que rentabilizam décimos de segundo e investidores que só vêem códigos da Bloomberg ou Reuters. E oportunidades para lucrar com a fragilidade alheia, de empresas ou de países.

Os "mercados" não querem saber do esforço de consolidação orçamental de Portugal, não vão premiar as reformas estruturais, da mesma maneira que não vão punir o aumento do desemprego ou anemia profunda da economia portuguesa. Os "mercados" precisam que as apostas matemáticas – muitas vezes "combinadas", de posições longas e curtas – resultem e, como tal, lutam contra probabilidades, indiferentes às realidades.

O gestor do JP Morgan – um banco recuperado com dinheiro público – tinha a alcunha de "Baleia de Londres", pelas enormes posições que assumiu no mercado. Os danos que provocou no banco resultaram, de forma simplista, de uma aposta tão gigantesca que chamou a atenção de outros investidores, que começaram a apostar contra si. Se pelo meio deste jogo estivesse a dívida pública portuguesa – ou grega –, podíamos esperar nova onda de austeridade para tentar acalmar os "mercados". Nada nos garante que isso ainda não aconteça, porque andam por aí outras baleias, entretidas a provocar ondas que mandam ao fundo qualquer pequena balsa que esteja no seu caminho.



*Editor de Empresas
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