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Eu nomeio-te, ele indigna-se

Eu, tu e ele. Eu nomeio, tu és nomeado e ele indigna-se. Eu sou ministro, tu és gestor e ele é contribuinte. Eu sou secretário de Estado, tu és meu ex-colega e ele é eleitor. Eu conheço-te, tu conheces-me e ele não conhece ninguém.

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Eu, tu e ele. Eu nomeio, tu és nomeado e ele indigna-se. Eu sou ministro, tu és gestor e ele é contribuinte. Eu sou secretário de Estado, tu és meu ex-colega e ele é eleitor. Eu conheço-te, tu conheces-me e ele não conhece ninguém.

As decisões em Portugal tomam--se com pronomes, são um processo de selecção. Uma selecção dos mais fortes, dos que chegam mais longe, dos que chegam mais alto. Eu e tu decidimos e ele não. Eu e tu sabemos e ele não sabe nada. E quando ele souber, eu e tu já sabemos mais.

Eu sou presidente, tu és primeiro-ministro e ele elegeu-nos. Eu sou deputado, tu és deputado e ele está na galeria. Eu sou CEO, tu és um grande accionista e ele é um pequeno accionista. Eu sou regulador, tu és operador e ele é cliente. Eu sou juiz, tu és advogado e ele é suspeito.

Eu sou maçon, tu estás de avental e ele nem sonha. Eu vou para a Holanda, tu escolhes Caimão, ele paga no Terreiro do Paço. Eu decido, tu concordas e ele vai discordar. Mas ele não nos toca. Ele reclama, ele resigna-se, ele raramente protesta, ele não é violento, há uma tradição neste País que ele respeita. Que nos respeita. Eu tenho direito, tu tens direito e ele tem direito à indignação. Somos um País livre. Eu posso, tu mandas e ele obedece. Eu sonho, tu queres e ele faz. Eu crio emprego, tu dás emprego e ele está desempregado. Eu pago porque tenho, tu pagas porque podes e ele paga o que pode. Quando pode.

Os pronomes do poder em Portugal raramente têm plural. Nós, no poder, é um plural singular. Nós somos eu e tu. Nós não somos eu, tu e ele. Vós, é Vossa Excelência. És tu, mas com deferência. Eles. Eles são eles, é ele com outros como ele. Eles não sabem, Nós sabemos.

Nós nacionalizamos e eles pagam. Nós privatizamos e eles pagam. Nós concessionamos e eles pagam. Nós nomeamos e eles nunca são nomeados. Nós entramos em tribunal como arguidos e eles saem como acusados. Nós defendemo-nos e eles nem sequer atacam.

As elites do poder em Portugal têm um problema fundamental. Não compreendem, ou não querem compreender, a sua utilidade pública. Recusam-na, num momento em que o poder que acumularam devia servir a todos. Para servir todos. A tragédia é que, no labirinto em que o País se encontra, a saída de emergência mais perto está bloqueada. E não passam todos na porta. Passa quem pode, passa quem sabe, não passa quem quer e muito menos quem precisa.

Nós passamos, eu escolho-te, tu segues-me e passamos. Eles não passam.



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