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Pedro Ferreira Esteves pesteves@negocios.pt 01 de Abril de 2014 às 00:01

"O BES está bem e recomenda-se"

A separação do BES do GES serve a todos. Se o BES caísse na sequência dos "desequilíbrios" no GES, caía a família toda, o sector bancário mergulhava na idade das trevas, o país ficava de novo refém de um banco sistémico.

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Uma frase de Ricardo Salgado, na carta aos colaboradores do banco, salta à vista, por ser sintomática das duas dimensões da crise que o grupo está a viver: "Dada a proximidade entre as designações - Grupo Espírito Santo e Banco Espírito Santo - há tendência para confundir uma com a outra. Mas sabemos todos que são dimensões empresariais diferentes". 

 

A separação do BES  do GES serve a todos. Se o BES caísse na sequência dos "desequilíbrios" no GES, caía a família toda, o sector bancário mergulhava na idade das trevas, o país ficava de novo refém de um banco sistémico e "o poder instalado" tremeria como nunca desde o anterior choque de regime que retirou Jardim Gonçalves do topo da sua montanha.

 

O que o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, "patrocinou", em parceria com as autoridades internacionais, foi uma solução que protege todos: isolou o banco das graves insuficiências do Grupo. Fez, no fundo, aquilo que Vítor Constâncio devia ter feito no BPN em relação à SLN, cujos negócios estavam, à semelhança do GES, sustentados na solidez do banco (e, como tal, ameaçavam-na), independentemente das incomparáveis questões legais no caso do BPN.

 

O regulador, agora munido de informação enriquecida pelos erros do passado e apoiado na autoridade das instituições internacionais, "ajudou" o BES a solucionar um problema que ameaçava o sistema bancário português.

 

Não foi muito duro (aceitou uma hipervalorização artificial da ES Internacional com a venda de acções da ESFG à ES Irmãos por 22 euros, cinco vezes mais do que o valor de mercado - e agora até retira este problema de cima da sua mesa). Mas também não foi muito mole, embora as provisões de 700 milhões para cobrir riscos na venda do papel comercial a clientes sejam mais um "puxão de orelhas" do que um verdadeiro castigo, porque ignoram a questão moral. E  isolou aquilo que pode efectivamente servir ao sistema, descartando aquilo que se vinha servindo do sistema. 

 

Mas esta separação é mais do que uma reorganização de rácios de capital,  é uma decisão de divórcio depois de meses de discussões familiares. Ricardo Salgado, na carta aos funcionários, não tem problemas em afirmar que "o BES está bem e recomenda-se" e que o GES  "terá de fazer uma reestruturação que não será isenta de dor".

 

A separação racional precede - ou será precedida? - a separação emotiva. Trata-se de instituições, mas sobretudo de pessoas, num momento em que o líder do banco está a ser "atacado" por dentro em plena guerra familiar pela sua sucessão no topo da estrutura.

 

Volte-se à frase sintomática do líder do BES. Substitua-se Grupo  por "Família" e Banco Espírito Santo por "Ricardo Espírito Santo Salgado". E releia-se, para perceber quem é que se separa de quem por achar que têm "dimensões empresariais diferentes". Tão diferentes, que uns têm que se preparar para testar o seu nível de tolerância à dor. E outros sentem-se tão bem que até se recomendam.

 

Editor de Empresas

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