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A credibilidade de Maria Luís e Paulo Portas

Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque, responsáveis pela coordenação económica e financeira do Estado e pelas negociações com a troika são os dois principais actores para o resto de mandato do Governo. Não é possível estar muito optimista quanto à capacidade de cumprirem as suas missões. Mas ao contrário do que possa parecer nas últimas semanas pela polémica dos "swaps", a principal fragilidade não é a ministra das Finanças, mas sim o novo vice-primeiro-ministro que nos últimos meses deixou claro que não pode ser levado muito a sério.

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Como é evidente, Maria Luís Albuquerque sabia dos problemas associados aos "swaps". Podia não conhecer detalhes, podia não ter informação sobre a melhor forma de actuar do ponto de vista legal, e no limite poderia até não ter recebido informação de Costa Pina (o secretário de Estado socialista com um desempenho sofrível na gestão do Sector Empresarial do Estado), mas a agora ministra sabia o suficiente sobre o problema, sabia que era grave e que exigia acção. E sabia porque toda a gente no sector sabia, do IGCP, às empresas de transportes e à banca. 


O Governo errou ao não actuar de forma decidida nesta frente – denotando, e tal como já fez com as PPP, que tem maior capacidade de choque contra a máquina da administração pública do que com a banca. E Maria Luís, em particular, minou a sua credibilidade e a confiança do Parlamento ao afirmar que não tinha informação para actuar com mais celeridade.

Mas convenhamos, em termos de tropelias à credibilidade, a ministra fica a dever ao homem com quem irá, supostamente, negociar com a troika e avançar com a reforma do Estado.

Em termos de avaliação de idoneidade no desempenho de cargos públicos, vale sempre a pena recordar a proximidade de Paulo Portas e do seu partido a vários dos escândalos que mancharam o Estado nos últimos anos, desde os famosos submarinos e suas contrapartidas aos sobreiros abatidos em benefício do BES.

E sobre a reforma do Estado em particular, o desempenho e jogo de sombras de Paulo Portas tem sido lamentável:

1. No final do ano passado, Portas ficou responsável por coordenar e apresentar na sétima avaliação – em Fevereiro/Março – o guião para a reforma do Estado acordado com a troika e que previa cortes de 4 mil milhões de euros.

2. Chegados a Fevereiro/Março, limitou-se a avançar um enunciado vago de medidas, sem escolhas políticas claras - de tal forma que a sétima avaliação da troika se arrastou por vários meses, minando de forma séria e grave a credibilidade da estratégia do Governo e da troika.

3. Nessa altura, passou aliás a circular nos corredores do Governo a versão (e atenção que não era piada) que Portas ficara responsável não pelo corte de 4.000 milhões de euros na despesa, mas sim por um plano estratégico de médio e longo prazo, que maximizaria os fundos estruturais e pensaria o Estado do século XXI.

4. Em Maio, o Governo acordou finalmente o corte de despesa após pressão intensa da troika que veio três vezes a Lisboa. Portas aceitou e afinal só se importava com uma taxa sobre as pensões – a tal linha vermelha que traçou apenas para a pisar de seguida.

5. Portas volta a ficar responsável por concretizar o guião de cortes acordado com a troika... mas voltou a não fazer nada disso e em Junho, num conselho de ministros extraordinário, apresenta novamente um vago conjunto de medidas, como sublinhou sexta-feira no Diário Económico a Márcia Galrão.

6. Após a crise política espoletada pela demissão de Vítor Gaspar e pelo espírito volúvel do agora vice-primeiro-ministro volta, pela terceira vez, a assumir a reforma do Estado e já se escreve sobre isso como já não estivesse decidida em Maio...

Maria Luís até pode ter perdido credibilidade e margem política. Mas é bem mais espantoso que alguém ainda leve Paulo Portas a sério. Veremos como corre a sua negociação com a troika.

*Jornalista

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