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O sucesso irlandês visto a partir de Dublin

Os trabalhadores da função pública na Irlanda chumbaram na semana passada um novo plano de cortes salariais que havia sido previamente negociado entre governo e a liderança do maior sindicato do país. Foi a primeira vez em muitos anos que a concertação social falhou de forma tão retumbante.

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O chumbo de "Corke Park 2" é o sintoma mais visível da decepção dos irlandeses em relação ao ajustamento económico. A desilusão é justificada: três anos depois, o plano desenhado com a troika atirou para cima dos contribuintes os excessos dos bancos, não resolveu o grave problema de sobreendividamento, e abusou de má austeridade. 


A Irlanda experimentou a explosão de uma imensa bolha imobiliária que derreteu o sistema financeiro. O governo da altura, atordoado, reagiu com medidas de austeridade e uma despropositada garantia sobre todo o sistema financeiro. A chegada da troika no final de 2010 foi a oportunidade para, com financiamento barato e boa assessoria económica, traçar uma estratégia adequada de saída. O balanço é desapontante.

Os irlandeses viram a troika e governo decidir que, além da austeridade inevitável após o colapso económico, teriam de assumir também o reembolso dos obrigacionistas dos bancos que alimentaram a grande bolha. Ao todo os contribuintes injectaram cerca de 64 mil milhões de euros (quase 40% do PIB) nos bancos, o que deu um contributo decisivo para o disparo da dívida pública do país que, antes da crise, rondava os 25% do PIB.

Daí resultou a necessidade de aumentar a dose de austeridade que vinha já desde 2008 – e uma austeridade que ignorou o baixo nível de tributação do país, especialmente o das empresas, sobrecarregando o corte de despesas. Para além da destruição da concertação social, o resultado na frente económica também não é animador.

A Irlanda tem hoje um défice orçamental de 7,5% do PIB e uma dívida de quase 120%. O desemprego triplicou para os 15% mas, se considerados os "part-time" involuntários e que não procuraram emprego nos últimas quatro semanas, chega aos 23%. A procura interna está a cair há seis anos e o incumprimento bancário regista valores impressionantes: uma em cada cinco hipotecas tem algum tipo de problema e uma em cada oito está atrasada há mais de 90 dias. O crédito malparado atinge 25% dos empréstimos.

O facto desta ressaca de crédito não ter ainda sido tratada é talvez o maior pecado da troika. A evidência de outras crises prova a urgência de actuar nesta frente. Não há economia que recupere com sistemas financeiros "zombie". No entanto, só agora, a seis meses da saída da troika, se vêem os primeiro sinais de algum esforço para lidar com insolvências e incentivar os bancos a assumirem estas perdas.

Não fosse o desempenho do sector exportador que garantiu um modesto crescimento na casa de 1%, e o resultado do ajustamento irlandês arriscaria o desastre. Cinco anos depois do início da crise, o país enfrenta um elevado risco de estagnação prolongada e de insustentabilidade da dívida.

Visto a partir de Dublin, e não pelas lentes dos governos europeus, o sucesso no ajustamento parece mais uma necessidade política do que uma evidência económica.


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