Rui  Peres Jorge
Rui Peres Jorge 09 de fevereiro de 2014 às 20:50

Portugal, um sucesso à força

Entre defensores do actual processo de ajustamento têm surgido nos últimos dias vozes a defender um apoio adicional da troika até 2015, através de um programa cautelar, porque, dizem, é preciso domesticar os políticos portugueses perante as pressões eleitorais que se adivinham. E embora se lhe possa conceder alguma razão num contexto de diferentes ciclos eleitorais, este é um argumento que falha o essencial.

Indicadores melhores sobre a evolução da economia portuguesa, do emprego à actividade económica, alimentam a esperança de que a queda livre dos últimos anos possa ter chegado ao fim. São óptimas notícias, sem dúvida. Mas uma coisa é celebrar o estancar de uma hemorragia, a outra é defender que uma estratégia de austeridade excessiva que se descontrolou pelo caminho e provocou mais vítimas que o necessário é um sucesso. Isso com certeza não está a ser. Portugal será, com boa vontade, um sucesso à força em 2014. 


É muito importante não perder foco sobre o diagnóstico. Por um lado, temos uma responsabilidade conjunta de apreender com o que correu mal, e foi muito. Por outro lado, uma correcta avaliação da realidade é essencial para melhor desenhar as políticas para o futuro. Um bom exemplo encontra-se no debate recente em torno da necessidade e utilidade de Portugal recorrer a um programa cautelar – isto é, a mais um ano de apoio financeiro da troika na forma de um seguro que fica pronto a usar contra um pacote de condições.

Entre defensores do actual processo de ajustamento têm surgido nos últimos dias vozes a defender um apoio adicional da troika até 2015, através de um programa cautelar, porque, dizem, é preciso domesticar os políticos portugueses perante as pressões eleitorais que se adivinham. E embora se lhe possa conceder alguma razão num contexto de diferentes ciclos eleitorais, este é um argumento que falha o essencial.

Portugal deve recorrer a um programa cautelar – e eventualmente até um programa completo de menor duração que o actual – porque o ajustamento desenhado pelos governos europeus e pela troika deixou a Europa, e Portugal em particular, numa posição excessivamente frágil. Os indicadores falam por si.

A dívida pública está próxima dos 130% do PIB desafiando os limites da sustentabilidade no contexto de uma economia estagnada, com desemprego de país em desenvolvimento – onde por isso o défice externo corrigiu, mas o orçamental persiste. Os juros da dívida, que baixaram nos últimos meses, continuam acima do crescimento nominal da economia, uma realidade que é agravada pelo contexto de inflação baixa e crescimento anémico que se instalou na Zona. E ninguém pode ficar descansado com a forma como as taxas de juros têm navegado ao sabor das decisões da reserva federal norte-americana ou dos ajustamentos nos mercados emergentes.

A actual situação portuguesa é melhor do que há um ano e o País escapou à espiral recessiva grega. O Governo e os responsáveis da troika poderão fazer disto um sucesso, mas não o é. A situação é frágil, pior do que seria de esperar e é por isso que Portugal precisa de mais apoio financeiro externo, assim como de políticas que promovam o investimento, a inflação e o crescimento na Zona Euro. Esta é a razão para defender um cautelar, para pressionar o BCE a fazer mais pela periferia e para procurar políticas orçamentais mais razoáveis no plano nacional e europeu – incluindo a ponderação de alguma reestruturação de dívida. Isto não é nada demais, mas se a Europa e Portugal recusarem os seus erros, poderá revelar-se impossível.

Visto por dentro é um espaço de opinião de jornalistas do Negócios

pub

Marketing Automation certified by E-GOI