Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt 06 de Maio de 2013 às 00:01

Portugal não é a Irlanda

De há uns meses para cá, Portugal e Irlanda têm andado de mão dada, numa aproximação apadrinhada pela troika. A ideia é que surjam associados na percepção dos investidores, e assim conseguir que Lisboa beneficie do esperado regresso irlandês aos mercados no final deste ano. Dadas as desvantagens que acumula, Portugal bem precisa desta mãozinha.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 3
  • ...

Uma primeira grande diferença entre é o ambiente político e a dimensão dos esforço orçamental aplicado. A coligação que governa a Irlanda está de melhor saúde que os nossos PSD e PP e o maior partido da oposição tem, em linhas gerais, alinhado com a estratégia combinada com a troika. Isso é em parte explicado pela maior proximidade ideológica entre os partidos, mas deve-se também à menor exigência nas medidas de austeridade. 


Entre 2009 e 2012, o défice estrutural baixou 2,5 pontos na Irlanda, um valor que compara com 4,2 pontos nacionais. Na Irlanda os impostos sobre as empresas não mexeram. E mesmo agora, enquanto em Lisboa se debate um corte de despesa de 4 mil milhões de euros em três anos, em Dublin a polémica instalou-se em torno mil milhões de poupanças.

Uma segunda diferença relevante é a maior habilidade política do Governo irlandês a gerir as relações com os credores. Sem nunca colocar em causa o seu memorando, Enda Kenny conseguiu definir objectivos próprios e conflituantes com os dos credores. Destacam-se a redução dos juros e a reestruturação de parte da sua dívida bancária, metas reclamadas desde cedo e atingidas com sucesso. Na Irlanda ninguém quis ir além da troika.

E enquanto Lisboa se satisfaz agora com a recente extensão de maturidades, o Executivo em Dublin já comprou um novo conflito: a reivindicação de uma recapitalização retroactiva dos seus bancos por fundos europeus. Provavelmente perderão a guerra, mas ninguém lhes tira a visibilidade na luta por melhores condições junto dos credores – uma arma que daria muito jeito a Pedro Passos Coelho.

Mas não é só na receita de austeridade ou na capacidade política que a Irlanda está em vantagem. Há diferenças estruturais que jogam a seu favor, especialmente num contexto de ajustamento por desvalorização interna. O plano adoptado para os países periféricos assenta numa lógica de contracção da procura interna que, idealmente, seria compensado por um maior dinamismo no sector exportador. Ora na Irlanda as exportações pesam mais de 100% no PIB – o que compara com os 40% de Portugal – um elemento que alivia a pressão do ajustamento. Essa é a razão central para o país ter crescido um pouco em 2011 e em 2012.

Todos estes factores contribuem para uma última grande diferença entre as duas economias, talvez a mais importante para o regresso aos mercados. Entre as três grandes empresas de notação de risco só uma mantém a dívida pública irlandesa classificada como "lixo" – e mesmo essa poderá elevar a sua notação antes do final do ano. Já a dívida portuguesa é considerada "especulativa" pelas três agências e não há expectativa de alterações significativas. Isto traduz-se numa maior facilidade da Irlanda na atracção de grandes investidores mais estáveis e conservadores, como bancos centrais ou fundos de pensões.

A estratégia de aproximação entre os dois países faz sentido mas enfrenta uma enorme obstáculo: é que quanto mais se olha para eles mais evidente fica que Portugal não é a Irlanda.

* Jornalista

Visto por dentro é um espaço de opinião de jornalistas do Negócios

Ver comentários
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias