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Catarina Martins
Assunção Cristas
O que ganharia o PS
António Costa Pinto acredita que um cenário de bloco central (em sentido formal) só seria possível se Portugal estivesse perante uma "conjuntura excepcional como, por exemplo, um resgate ou numa circunstância de Portugal estar fora dos mercados". Fora dessa conjuntura, o PS só teria interesse em associar-se ao PSD se fosse a única forma de garantir uma solução estável de um governo socialista minoritário. Pedro Adão e Silva vê o bloco central como improvável, mas reconhece que o eleitorado socialista (como outros) valoriza soluções de compromisso. "O eleitorado olha para os partidos como mais robustos se eles passarem a ideia de se diferenciarem e se forem capazes de compromissos mantendo as suas divergências", diz o investigador do ISCTE. Viriato Soromenho-Marques acredita também que entendimentos em torno de políticas públicas valorizam quem os promove, já que só "consensos construídos" permitem desenvolver verdadeiras políticas públicas.
O que perderia o PS
"O PS não tem qualquer interesse em fazer o PSD beneficiar desta conjuntura económica e da actual política de distribuição de rendimentos", acredita António Costa Pinto, para justificar a ideia que o bloco central não tem vantagens para o PS. Além disso, o professor do ICS lembra que a actual conjuntura, com uma solução de Governo à esquerda liderada pelo PS, "introduziu uma novidade que os socialistas perderiam perante um cenário de entendimento com o PSD. Na actual conjuntura, o PS pode transformar-se no partido maioritário, que ainda não é", antecipa Costa Pinto, acrescentando que "a ameaça de punição eleitoral é muito grande". Também Adão e Silva vê mais desvantagens do que vantagens num cenário de bloco central para o PS. "Um Bloco Central seria devastador para o PS e para o PSD, porque deixariam de ser vistos como alternativa", afirma o ex-dirigente socialista. Já o filósofo e professor da Universidade de Lisboa Viriato Soromenho-Marques receia que entendimentos ao centro, nas áreas que têm sido faladas (descentralização, justiça, fundos europeus e novo aeroporto) tenham um impacto negativo na actual geringonça. "São áreas que têm um potencial de grande clivagem no actual Governo", apesar de serem dossiês que ficaram de fora das posições de convergência assinadas em Novembro de 2015, salienta. É que um "PSD cooperante" coloca a dúvida sobre "até que ponto o PS teria a tentação para mudar de campo" quando tem de partir para uma negociação, acrescenta Soromenho-Marques. "Esta dinâmica de potencial clivagem obrigaria o PS a estender a agenda de negociação à sua esquerda", admite, acrescentando que o PS terá de dar preferência à esquerda sempre que for negociar.
O que ganharia o PSD
Pedro Adão e Silva considera que sempre que um partido entra no espaço da negociação fica a ganhar porque aumenta a sua capacidade de influência. Além disso, refere que o eleitorado valoriza soluções de compromisso, mesmo que os partidos mantenham divergências programáticas. No entanto, estas seriam vantagens para o PSD apenas no caso de acontecerem entendimentos em dossiês concretos (justiça, fundos europeus, novo aeroporto ou descentralização), afastando assim o cenário de bloco central. Viriato Soromenho-Marques acrescenta que o novo posicionamento do PSD, introduzido pelo novo líder, vai permitir "tirar o partido da trincheira" e acredita que a probabilidade de entendimentos aumenta no caso de vitória do PS com pequena vantagem. "Nesse cenário haverá a necessidade de um acordo escrito, já que o PS não poderá governar na base de vales", explica.
O que perderia o PSD
"O bloco central introduziria no eleitorado do PSD um enorme problema, eventualmente com perda de uma parte do eleitorado para o PS, antecipa António Costa Pinto. Tal como para o PS, a "ameaça de punição eleitoral é muito grande", avisa o professor. O sociólogo Adão e Silva reitera que para o PSD o peso de um bloco central seria devastador, por diluir a mensagem com a do PS e esconder a ideia de alternativa. O professor da Universidade de Lisboa acrescenta outro ponto de leitura: "O PS tem umas ideias sobre a reforma da Zona Euro, mas a posição do PSD não é conhecida." E este é um dossiê onde era importante que houvesse um entendimento antes de 2019, quando mudará o presidente do Banco Central Europeu, defende Soromenho-Marques. O professor da Universidade de Lisboa admite, porém, que um compromisso nesta área pode ser difícil tanto para o PSD como para o PS. "Porque implicava uma autocrítica por parte do PSD ao período de governação anterior e, no caso dos socialistas, seria doloroso também tendo em conta que o PS tem como parceiros o Bloco de Esquerda e o PCP", que em matéria de Europa "vivem em Marte".
O que ganharia o PCP
Para os comunistas um cenário de bloco central poderia traduzir-se até "nalguma recuperação", admite Costa Pinto. É que este tipo de coligação formal, só se colocaria perante uma conjuntura excepcional, e nesse caso, isso significaria que, no fundamental, haveria uma "menor capacidade distributiva do Governo e uma possível maior cedência a um programa de centro direita", acrescenta o professor do ICS. "Isto ajudaria a reforçar a mensagem do PCP", defende.
O que perderia o PCP
Adão e Silva admite que possa existir alguma vantagem ao "nível discursivo" - permitindo ao PCP acusar o PS de à primeira oportunidade virar à direita. No entanto, o sociólogo explica que actualmente o PCP (e também o Bloco de Esquerda) "têm o monopólio da negociação o que é sempre importante. Com mais interlocutores, estes partidos perdem força".
O que ganharia o BE
Um entendimento entre PS e PSD torna mais fácil para o BE explorar o descontentamento junto dos eleitores e "o entendimento abre espaço para os partidos de protesto", acredita Costa Pinto. Esta ideia é já explorada pelo Bloco de Esquerda sempre que fica evidente uma divergência face ao PS. Foi o que aconteceu recentemente com a eleição de Mário Centeno para o Eurogrupo, com o Bloco a lembrar que é naquele fórum que nascem as políticas de austeridade.
O que perderia o BE
O Bloco de Esquerda, tal como o PCP, perderia posição negocial se houvesse uma aproximação entre PS e PSD, reitera Adão e Silva. Na actual solução de governo, o partido de Catarina Martins tem capacidade para influenciar as políticas do Governo. Num cenário de entendimentos ao centro - corporizado por um bloco central - essa capacidade desaparecia.
O que ganharia o CDS
"Um cenário de bloco central não penalizaria o CDS, já que o partido de Assunção Cristas ficaria com o espaço da direita em Portugal. Recolheria algum apoio dos chamados intelectuais mediáticos da direita liberal e ganharia alguma coisa com isso", antevê Costa Pinto. Pedro Adão e Silva explica desta forma aquilo que poderia ser uma vantagem para o CDS perante um cenário de entendimento entre PS e PSD: "Seria um tipo de afirmação." No entanto, tudo dependeria do resultado das eleições de 2019. "Se o PS vencer, e a vitória for grande, pode tentar coligar-se no Parlamento de forma casuística e, neste cenário, até com o CDS isso pode acontecer", antecipa Soromenho-Marques.
O que perderia o CDS
Um cenário de aproximação entre PS e PSD poderia atirar o CDS para um plano de partido do caso. "Se o PSD se recentrar, o CDS torna-se o partido que amplifica o caso do dia", antevê Adão e Silva. Viriato Soromenho-Marques acredita que, neste caso, "o CDS corre o risco de ter um papel semelhante ao que a esquerda também teria".