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Energia: porque não aproveitamos o sol?

352 dias de sol. É desta forma que Portugal se apresenta ao mundo. Ou pelo menos é uma das principais reivindicações no que concerne à mensagem publicitária turística. No entanto a energia solar não é, nem de perto nem de longe, a principal fonte de energia renovável. Mas este é um cenário que poderá mudar nos próximos anos.

Alexandra Costa 14 de Abril de 2021 às 11:00
O Governo anunciou recentemente vários leilões de energia solar fotovoltaica. DR
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Em março, segundo dados da APREN, Portugal continental gerou 4.252 GWh de eletricidade, dos quais 88,5% foram de origem renovável, com a energia hídrica a dominar (43%) seguida da eólica (25%). A energia solar vem em sexto lugar no ranking com apenas 3,3%. Sendo que este valor tem permanecido relativamente inalterado desde, pelo menos, 2019. O que leva a esta situação? Porque é que Portugal não aproveita a energia solar tendo em conta todos os dias de sol de que beneficia? Afinal a Alemanha, que não tem essa benesse, pelo menos como Portugal, tem 4.8 GW de energia solar instalada, sendo o maior mercado de energia solar da Europa.

Sobre isto Francisco Ferreira, presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável, refere que a energia solar não serve apenas para a geração de eletricidade. E lembra que esta é "muito importante no aquecimento de águas sanitárias e em usos ainda limitados como a produção de calor na indústria", acrescentando que "o relativo atraso de Portugal, comparativamente com outros países europeus, prende-se principalmente com o recurso ao uso de painéis no setor residencial".

Já Pedro Amaral Jorge, CEO da APREN, lembra que a primeira central fotovoltaica em Portugal surge em 2006 e que, na altura, "a tecnologia solar era considerada pouco madura, com custos de produção (LCOE) elevados e com uma vertente mais direcionada para a instalação local e, como tal, pouco competitiva com o solar termoelétrico, que à data se encontrava em expansão na Península Ibérica, com os projetos de maior dimensão em Espanha". Quando, finalmente, a tecnologia começa a mostrar ser promissora Portugal entra em crise económica e financeira, o que fez com que o setor praticamente estagnasse. Mais precisamente, e dado que houve um novo enquadramento económico e legislativo, "todo o setor renovável esteve sete anos sem que qualquer concurso fosse realizado, permanecendo apenas com o incentivo à pequena produção".

Feitas as contas, constata Pedro Amaral Jorge, "em 10 anos (2006-2016), o setor solar fotovoltaico vê apenas a instalação de 600 MW de capacidade (potência instalada), dos quais cerca de metade eram centrais de larga escala detidas por pequenas e médias empresas".

Recentemente, o Governo anunciou vários leilões de solar fotovoltaico. Mas serão suficientes para inverter este cenário? O CEO da APREN coloca em causa o facto de estes se basearem "num mecanismo financeiro com um critério único, o do preço" e questiona se não deveriam ser usados, de forma complementar, "outros critérios complementares, como o de sustentabilidade ambiental, os de incorporação de valor acrescentado bruto local e nacional, e que também beneficiem transversalmente o Sistema Elétrico Nacional (SEN)".

Afinal, "o setor solar fotovoltaico precisa de uma estratégia coesa assente em pilares que ofereçam uma transição energética justa para a sociedade com redução de custos, mas que também promova um setor gerador de cadeias de valor sustentáveis".

Investir no solar, cumprir as metas da União Europeia

A questão não se prende apenas com o não aproveitamento de uma energia renovável, mas, também, com o cumprimento das metas estabelecidas pela União Europeia no que concerne à utilização das energias renováveis, nomeadamente com o Roteiro para a Neutralidade Carbónica para 2050. No entanto, "embora o PNEC 2030 tenha previsto uma capacidade total instalada e a operar em 2020 de 2 GW, encontramo-nos bastante abaixo desse valor, com uma capacidade instalada de 1,03 GW, o que não deixa de ser preocupante, visto que para 2025 estão previstos 6,6 GW e, em 2030, 9 GW", refere o CEO da APREN, acrescentando que, nos próximos cinco anos, para acelerar o desenvolvimento e instalação da capacidade solar fotovoltaica, "serão utilizadas essencialmente duas ferramentas pelo Governo, leilões para atribuição de capacidade de injeção na rede e possibilidade de os promotores desenvolverem, junto com os operadores da RESP, os reforços de rede nas situações em que não haja capacidade de receção (idealmente para projetos de grandes dimensões)".

Quando as medidas estiverem implementadas e a capacidade fotovoltaica atingir os 9 GW definidos pelo PNEC 2030 Pedro Amaral Jorge acredita que "a energia solar ficará a par com a capacidade eólica instalada prevista (9,3 GW), com o mesmo peso, em termos de potência, na produção de eletricidade e neste caso as duas energias de maior destaque a par com a hídrica".

Já Francisco Ferreira refere que, para atingir o objetivo de 7 GW de potência instalada, é "necessário ainda acrescentar a potência renovável associada ao solar para responder à produção de hidrogénio verde (da ordem de 1 GW)". É certo que o Governo está a dar resposta, através dos leilões já efetuados. Mas, acrescenta o presidente da ZERO, "o processo é mais complexo, na medida em que há aspetos ambientais muito relevantes que fazem parte da equação e podem legitimamente atrasar a implementação de grandes centrais solares". O principal problema (ou desafio)? A localização dessas centrais fotovoltaicas. É importante que fiquem em áreas próximas de pontos de acesso à rede elétrica, no entanto, isso pode "conduzir a conflitos em termos do tipo de terreno ocupado, sensível em termos de paisagem, ou em área relevante em termos de conservação da natureza, já que estamos por vezes a considerar parques solares com mais de mil hectares de implantação".

No cenário ideal, em que há produção de energia centralizada e descentralizada, e prevendo o cumprimento do Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050), isso significa que "o solar seja a tecnologia com maior potência instalada", afirma o CEO da APREN, registando um total de 26 GW.

Toda a investigação feita, no sentido de proporcionar inovação no mundo da energia solar, vai permitir, ainda mais, uma maior massificação da mesma.

A nível nacional, por exemplo, Pedro Amaral Jorge acredita que é de esperar uma aposta no solar flutuante em complemento e alternativa ao solar instalado no solo. O objetivo, acrescenta, é procurar não ocupar áreas terrestres contínuas significativas com painéis solares recorrendo à utilização de albufeiras dos aproveitamentos hidroelétricos, evitando "a ocupação de outras áreas em terra, úteis para outras atividades, como a agricultura ou pastorícia, e pode aproveitar-se a ligação à rede elétrica já existente, sendo que as centrais hidroelétricas não a utilizam de forma permanente, visto que há mais sol quando há menos chuva e vice-versa".

Aliás, ainda sobre a agricultura, o CEO da APREN aponta uma outra inovação, o AgriPV, um conjunto de projetos implementados nalguns países europeus, que investigam como combinar a instalação de painéis fotovoltaicos e a agricultura. Segundo Pedro Amaral Jorge, "este método, a ser implementado, resolveria outro problema, bastante debatido a nível europeu, relacionado com a ocupação complementar e simultânea de terrenos agrícolas com centrais fotovoltaicas".

Vantagens da energia solar

Portugal tem todas as condições para poder utilizar, em larga escala, das três principais fontes de energia renovável: hídrica, eólica e solar. Mas qual a vantagem do solar em detrimento das outras? Por um lado, refere Francisco Ferreira, nas "vantagens está o facto de não destruir irreversivelmente uma área significativa como acontece no caso das albufeiras associadas à energia hídrica aproveitada em barragens, não emite poluentes e não põe em causa uma adequada gestão florestal necessária para o armazenamento de carbono como acontece com o uso da biomassa para queima, não tem problemas de ruído nem requerimentos tão exigentes de localização como a eólica, e acima de tudo tem dos menores custos, não implicando uma manutenção extensiva". A acrescentar a isto, há ainda a capacidade de ter uma implantação descentralizada e do perfil de produção coincidir com as alturas do dia de maior procura.

Por sua vez, o CEO da APREN aponta, em primeiro lugar, a acessibilidade. "Quase todos podemos ter acesso à energia solar", afirma, acrescentando que "mesmo que uma residência ou prédio não tenha área útil disponível para instalar um sistema, hoje em dia, com a criação da figura das Comunidades de Energia Renovável (CER), a geração de energia solar fica ainda mais acessível para todos". Por outro lado, lembra, ao instalar uma unidade de produção fotovoltaica, é possível poupar na conta da eletricidade. Sem esquecer que se pode aproveitar o excesso de energia produzida (e não utilizada) e vendê-lo à rede, durante o período de pico de procura, quando os preços são mais altos.
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