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Como Portugal tem dado energia às renováveis

O peso das renováveis no mix energético tem acelerado, representando hoje mais de metade do consumo de eletricidade. Apesar deste desempenho, os especialistas do setor alertam que ainda há um longo caminho a percorrer até ter energia 100% verde.

Sara Ribeiro sararibeiro@negocios.pt 28 de Maio de 2020 às 10:00
A APREN nâo acredita que seja possível ter 100% de produção renovável antes de 2040.
A APREN nâo acredita que seja possível ter 100% de produção renovável antes de 2040. João Cortesão
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O trajeto das renováveis em Portugal espelha o forte investimento de que o setor tem sido alvo. Uma aposta que devido aos apoios públicos nem sempre foi bem vista. Mas que, como vários especialistas têm alertado, já ganhou maturidade suficiente para continuar a trilhar o seu caminho sem subsídios. E ninguém parece ter dúvidas do seu papel para acelerar a redução das emissões de gases com efeito de estufa.

O contributo da produção de energia hídrica para o mix energético em Portugal é dos mais antigos. Já a aposta na produção de energia a partir do vento e do sol começou a ganhar algum destaque apenas por volta de 1992 e 2007, respetivamente. E se nessas datas o peso destas fontes de energia limpa não passava dos 0,1%, em 2019 a eólica contribuiu com 26% do total de produção de eletricidade e a solar com 2%. No total, as energias renováveis foram responsáveis, no ano passado, por 51% da eletricidade consumida em Portugal. Um número que aumentou para 69% nos primeiros quatro meses deste ano. Tendo em conta este crescimento, quando será possível ter energia 100% verde?

De acordo com o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), Portugal chegará aos 80% de incorporação de eletricidade renovável em 2030. “Os 100% apenas serão atingidos, provavelmente, em 2040”, explicou ao Negócios Pedro Amaral Jorge, presidente da Associação de Energias Renováveis (APREN).

“Apesar de já termos meses com elevada incorporação renovável e vários períodos horários em que conseguimos assegurar o abastecimento com geração 100% renovável, ainda temos um longo caminho a percorrer para atingir um mix elétrico totalmente renovável”, sublinhou.

Para atingir esta meta há passos essenciais que têm que ser dados, nomeadamente a instalação de mais capacidade renovável e “tecnologia de armazenamento de energia que dê estabilidade e segurança de abastecimento ao sistema elétrico”, acrescentou Pedro Amaral Jorge.

Uma posição partilhada pela Iberdrola que, pelo voz de José María Otero, responsável pelo licenciamento e serviços afetos ao projeto Tâmega, aponta ainda para a necessidade de “incrementar a eletrificação de muitos setores da economia, como os transportes e a climatização de edifícios e agilizar o encerramento das minas de carvão”.

José María Otero não tem dúvida que estes passos podem ser dados. Mas, para tal, defende que “os governos e a União Europeia devem criar os quadros regulatórios apropriados que permitam desenvolver esse investimento, por um lado alterando a tributação para um princípio no qual os que poluem paguem e, por outro lado, encurtando os prazos e agilizando a tramitação de permissões, autorizações, conexão à rede, etc”.

O responsável da Iberdrola, que tem em curso a construção de um complexo hidroelétrico no Alto Tâmega com um investimento total de 1,5 mil milhões de euros, alerta ainda para o facto de a atual crise causada pela pandemia oferecer uma oportunidade única para a concretização destas medidas. Até porque, “a saída desta crise só se fará com investimento criterioso e criação de empregos”.

O papel do armazenamento

Apesar da evolução positiva do peso das renováveis, a geração de eletricidade apenas através de recursos limpos ainda não é possível por dois motivos: as condições climatéricas e ainda não existirem “tecnologias de armazenamento de energia, capazes de assegurar uma produção elétrica 100% renovável de forma permanente e continuada no tempo”, relembrou Pedro Norton, presidente executivo da Finerge.

Já Miguel Checa, diretor-geral da Goldenergy, considera que “devido à imprevisibilidade do vento e do e sol”, aliado à ausência de uma tecnologia de armazenamento suficiente, não acredita “que se torne provável a curto prazo a total independência das energias convencionais, sendo que ainda necessitamos de uma tecnologia baseada em gás como um “back-up” de garantia”.

 

Mais de metade da energia já é verde
Evolução do peso da energia renovável nos últimos cinco anos

A produção de eletricidade através de fontes limpas já representa mais de metade do consumo no mercado nacional.

 

 

Hídrica continua a liderar
Evolução da produção de eletricidade por fonte de energia

A hídrica tem sido a fonte de produção de energia renovável com maior peso no mix energético.

 

As metas previstas no PNEC até 2030

O objetivo final do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), imposto por Bruxelas a todos os Estados-membros, é que a Europa atinja a neutralidade carbónica até 2050.

 

 

47% de energia renovável
O Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) elaborado pelo gabinete do ministro do Ambiente, Matos Fernandes, estabelece uma meta de 47% de incorporação de renováveis no consumo final de energia até 2030. Um objetivo que compara com os 31% estipulados até 2020. O plano prevê também uma redução no consumo de energia primária de 35%, assinalando a aposta do país na descarbonização do setor energético, com vista à neutralidade carbónica em 2050 definida pela Comissão Europeia para todos os Estados-membros.

Fecho de centrais a carvão
O PNEC prevê a reconfiguração do sistema elétrico nacional através de um aumento em 15% das interligações elétricas. Isso irá permitir atingir a meta de 80% de fontes renováveis na produção de eletricidade em 2030. Para tal, além do reforço da produção de energia limpa, também está previsto o encerramento das centrais a carvão até 2023. A estratégia para o crescimento nas energias renováveis passa, sobretudo, pelo solar, que representará 24% da geração renovável no final da década.

Redução até 55% de emissões de CO2
O documento tem ainda como principais metas a redução entre 45% e 55% de emissões de gases com efeito de estufa face aos valores registados em 2005. No que toca à importação de energia, o PNEC pretende reduzir o atual valor de 75% para 62% até ao final de 2030.

 

 

Ainda temos um longo caminho a percorrer para atingir um mix elétrico 100% renovável.Pedro Amaral jorge
Presidente da APREN

 

 

Ainda não existem tecnologias de armazenamento de energia, capazes de assegurar uma produção elétrica 100% renovável.Pedro Norton
CEO da Finerge

 

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