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É preciso valorizar o capital natural integrando-o na contabilidade dos países, municípios e empresas

Aquilo que é quantificado é traduzido em valor monetário, algo que não tem acontecido com o capital natural. Mas valorizar os serviços do ecossistema é um caminho que agora se começa a desbravar. Por outro lado, em Portugal, continua-se a apostar em projetos que danificam estes mesmos valores naturais. Temas em debate na talk “Preservação do Capital Natural - Preservar a Biodiversidade”.

Sónia Santos Dias 27 de Setembro de 2021 às 16:00
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A natureza está na base da economia. Estima-se que o valor do património natural corresponda a 50% do valor do PIB mundial. Valorizar estes ativos é um passo importante para estabelecer estratégias que sirvam o desenvolvimento ao mesmo tempo que se preserva a natureza, o capital natural.

O tema foi debatido na talk "Preservação do Capital Natural - Preservar a Biodiversidade", que teve lugar a 23 de setembro, naquele que é o segundo ciclo de talks sobre sustentabilidade organizado pelo Jornal de Negócios. Contou com as boas-vindas dadas por Diana Ramos, diretora do Jornal de Negócios; com a abertura institucional de João Catarino, secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território; e com a participação como keynote speaker de Maria de Jesus Fernandes, bastonária da Ordem dos Biólogos.

O debate, moderado pelo jornalista João Ferreira, teve a participação de Francisco Ferreira, presidente da Associação Zero; Maria de Jesus Fernandes; Nuno Lacasta, presidente do conselho diretivo da Agência Portuguesa do Ambiente; Rita Alcazar, coordenadora dos projetos de Castro Verde da LPN; Sandra Sarmento, diretora regional da Conservação da Natureza e Florestas do Norte; e Pedro Serafim, responsável de Certificação Florestal & Biodiversidade da Altri Florestal.

Para Francisco Ferreira, integrar o capital natural na contabilidade de um país, município ou empresa é incontornável: "É um passo importante. Não é um passo possível agora, mas estamos a caminhar para lá. Precisamos de metodologias, de conhecimento científico e de técnicas que permitam ter critérios claros à escala do país, de uma empresa ou de um município para se poder fazer essa contabilização. O que falta acima de tudo é métrica para quantificar muitas das variáveis e de traduzir essas variáveis monetariamente."

Sobre o mesmo tema, o presidente da APA considera que "é difícil podermos na prática atribuir um valor monetário ao capital natural para depois em função do valor podermos determinar a sua escassez. As contas nacionais não estão preparadas para isto. Por exemplo, se eu cortar árvores numa floresta, nas minhas contas nacionais é lucro. Mas o facto de eu perder aquele capital natural ao longo de 30 ou 40 anos, até que volte a crescer, não é tido em conta. Portanto, não estamos minimamente preparados para escalas de tempo, para podermos dar o preço certo à natureza."

Porém, se ao mesmo tempo se tenta encontrar métricas de valorização do capital natural, por outro, para o presidente da Zero, "não tem havido uma coerência das políticas públicas numa vertente fundamental do capital natural, que se traduz no ordenamento do território. Exemplificaria com alguns temas que põem em causa, no futuro, este mesmo capital natural. Primeiro, continuamos a artificializar muito o território. Depois, temos para os próximos anos uma enorme expansão do turismo; a agricultura intensiva mesmo em áreas protegidas, como no caso do Sudoeste alentejano, é um problema grande; temos grandes projetos, como o aeroporto, junto ao estuário do Tejo, que é uma das 10 zonas húmidas mais importantes da Europa; temos barragens que estão a ser avaliadas. Portanto, continua a não haver aqui uma devida avaliação das necessidades de preservação e valorização do capital natural."

A representante do ICNF discordou: "Eu acho que há coerência e esforçamo-nos todos para conciliar políticas e articular projetos. Temos a Estratégia da Conservação da Natureza e da Biodiversidade 2030, que define claramente que temos um capital natural pelo qual devemos lutar. Além disso, temos estado a trabalhar na melhoria da conservação das espécies. Mas os desafios são imensos e temos um caminho grande pela frente. Os desafios, quer da perda de biodiversidade, quer da perda climática, quer da gestão de recursos, são imensos e obrigam a uma integração de políticas setoriais." Sandra Sarmento referiu ainda que todas as áreas protegidas do país foram contempladas com projetos de investimento. "Já há muitos anos que não havia esta capacidade", disse.

Compatibilizar interesses ambientais e económicos

É sabido que diversas atividades geram danos ao meio ambiente, como é o caso da agricultura ou do turismo em massa, por exemplo. A questão veio a debate como um equilíbrio difícil de obter, onde de um lado pesa a sobrevivência de pessoas, empresas, setores ou países e, do outro, a preservação do meio ambiente.

Nuno Lacasta destacou o facto de esta compatibilidade ser um quebra-cabeças, agravada em Portugal pelo mau ordenamento do território e porque a biodiversidade tem sido "o parente pobre da política de ambiente nos últimos 30 ou 40 anos. Na prática, pouco fizemos no país quando comparado com outras áreas. E muito menos investimos quando comparado com outras áreas da política. Por exemplo, na área do saneamento, gastámos 7 mil milhões de euros nos últimos 20 anos. Nada comparado a isto foi gasto na conservação da natureza. Só agora é que começámos a dar os primeiros passos em termos de financiamento comunitário e nacional em escala para a proteção da biodiversidade."

No debate, foram apresentados pela coordenadora dos projetos de Castro Verde da Liga para a Proteção da Natureza alguns exemplos que juntam os diferentes interesses, nomeadamente de agricultores, caçadores ou empresas, para desenvolver projetos que contribuem para a conservação da natureza ao mesmo tempo que dinamizam a economia local.

Um dos projetos mais emblemáticos tem a ver com a conservação da abetarda, a ave voadora mais pesada da Europa e a segunda do mundo. "Estas espécies emblemáticas dependem de uma agricultura extensiva, de sequeiro, que faz uma rotação entre a produção do cereal com pastagens. Tem sido possível fazer algumas ações graças ao apoio dos agricultores que fazem uma agricultura que consegue compatibilizar as práticas agrícolas com a conservação destas aves." Porém, nos últimos cinco anos, este trabalho que estava a ser feito para recuperação das espécies está a ter um revés, diz Rita Alcazar. Isto porque "temos áreas de conservação para estas espécies da Rede Natura 2000 que foram pensadas para uma parte do seu ciclo biológico, mas na realidade estas aves necessitam, no seu ciclo anual biológico, de outras áreas para além destas. E essas áreas hoje estão a ter alterações muitíssimo acentuadas. A agricultura intensiva tem sido um dos grandes causadores do decréscimo que estamos a observar nestas aves, porque a paisagem alentejana tem tido transformações profundas." Assim, "corremos o risco de as nossas áreas protegidas se transformarem em ilhas de biodiversidade sem qualquer conectividade. Temos de conseguir assegurar que estas áreas de produção intensiva não são áreas extensivas de monoculturas com impactos muito significativos para a biodiversidade e criar corredores de conectividade para estas aves", acrescentou.

Como representante de uma empresa que trabalha madeiras, Pedro Serafim destaca que a promoção da sustentabilidade da matéria-prima é vital: "Tem sido um dos nossos principais objetivos nos últimos anos. Há 16 anos que a Altri tem a sua certificação de gestão florestal garantida por standards internacionais." Para tal, tem de cumprir critérios económicos, ambientais e sociais, refere. "São três pilares em que a empresa é avaliada de uma forma anual. A empresa tem de conseguir mostrar que a sua atividade normal, de gestão do recurso madeira, mantém ou melhora todos os outros valores, sejam os valores sociais, pelo emprego que gera e pela proteção dos valores culturais que existem nos espaços rurais, seja na questão da biodiversidade. Para além disso, a empresa tem por objetivo duplicar, até 2030, as áreas florestais dedicadas à conservação."

A bastonária da Ordem dos Biólogos fechou o debate recordando que todas as ações de restauro da natureza têm custos muito superiores à preservação da biodiversidade e leva muito tempo até se atingirem os objetivos. Por isso, "temos de nos focar nos habitats mais importantes e que são vitais para a vida das outras espécies", dando como exemplo um projeto levado a cabo para salvar as pradarias marinhas da Arrábida: "As ervas marinhas que se viam muito na Arrábida são importantíssimas, porque ali são postos ovos de muitas espécies de peixes e de moluscos. Têm um papel muito importante na reprodução de outros seres vivos que são fundamentais para a biodiversidade marinha. Como desapareceram completamente da zona da Arrábida, foi feito um projeto com o objetivo de restaurar essas pradarias marinhas."


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