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Financiamento: penalizar os poluidores

Premiar quem tem projetos que são amigos do meio ambiente e da sociedade em geral. Esta é a nova forma de abordar os negócios, que traz mudanças profundas não só no sistema financeiro, nomeadamente na captação de financiamento para novos projetos, como também na atribuição de um índice de risco. E com isso incentivar, cada vez mais, a negócios mais verdes e sustentáveis.

Alexandra Costa 24 de Novembro de 2021 às 10:30
O financiamento bancário vai ter de estar alinhado com os seis objetivos ambientais europeus. Mário Cruz
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Financiamento verde. Um termo que começa a entrar o léxico dos gestores e que vai alterar, por completo, não só o financiamento de novos projetos, mas, também, a forma como as empresas encararão, no futuro, o seu desenvolvimento. Mas em que consiste exatamente e que mudanças traz nas operações quotidianas de uma organização. A explicação, segundo Sofia Santos, Sustainability Champion in Chief da Systemic, é simples. O financiamento verde consiste em incluir na análise de risco dos projetos que se estão a avaliar, quer para um empréstimo, quer para um investimento, quer para um subsídio, os riscos ambientais, sociais e de governação. Ou seja, a partir de agora - sim, porque esta é uma medida que acompanha a estratégia definida pela Comissão Europeia de descarbonizar a Europa até 2050 - qualquer projeto terá de avaliar o seu impacto no meio ambiente e na sociedade em geral. E esse impacto é contabilizado na análise de risco. "Um projeto com maiores impactes ambientais, aumenta o seu nível de risco, uma vez que hoje já existem uma série de critérios, exigências e regulamentos que induzem à valorização de projetos mais verdes e à desvalorização de projetos mais poluidores", explica Sofia Santos.

E não se trata de algo que vai ser aplicado no futuro. Desde 2019 que foram publicados diversos regulamentos sobre o assunto que "obrigam os fundos de investimento, as empresas e os bancos a reportar de que forma estão alinhados com os seis objetivos ambientais europeus, sendo o mais importante o facto de os bancos passarem a ter em 2022 os rácios de capital associados aos riscos climáticos dos seus empréstimos". Na prática, constata a executiva da Systemic, isso significa que projetos mais poluidores venham a ter uma taxa de juro mais alta ou mesmo não tenham acesso ao empréstimo.

Um projeto com maiores impactes ambientais, aumenta o seu nível de risco. Sofia Santos, Sustainability Champion in Chief da Systemic
E "tudo" começa já para o ano, em que as grandes empresas, gestores de ativos e bancos terão de reportar alguma informação, mesmo que qualitativa, nomeadamente "sobre como o seu negócio está alinhado com a chamada Taxonomia Europeia, que define o que são atividades ambientalmente sustentáveis". Informação que, a partir de 2024, será obrigatória para as grandes empresas não financeiras e financeiras e em 2026 para as PME cotadas em bolsa. No entanto Sofia Santos alerta que as restantes empresas, embora não tenham a obrigatoriedade de reporte, "os bancos e fundos de investimento vão necessitar de obter essa informação".

E isto abarcará todos os setores da economia. É certo que será feito de forma faseada. Atualmente apenas publicados os critérios mínimos para os objetivos ambientais de mitigação e adaptação. No entanto isso deverá mudar e muito provavelmente ainda este ano, em que deverão ser publicados os "critérios mínimos ambientais para os objetivos da economia circular, poluição, gestão da área e mar e proteção dos ecossistemas".

Premiar as empresas respeitadoras

Na prática esta nova forma de pensar vai beneficiar (e premiar) as empresas que têm em conta o meio ambiente e a sociedade em que se inserem e, pelo contrário, penalizar as organizações poluidoras. Uma forma de tentar segmentar o mercado, criando novas classificações das empresas e suas atividades. Lembram-se da classificação dos eletrodomésticos? Algo semelhante, mas para as empresas e os seus projetos. Sofia Santos dá uma explicação mais técnica do que irá acontecer: existirão empresas que estão alinhadas com os objetivos ambientais, aquelas que estão em transição, outras que são enablers pois os seus produtos e serviços permitem diminuir os impactes ambientais de outras empresas, outras que não estão alinhadas, por vezes chamadas de empresas "castanhas" e, por fim, outras que, devido à natureza da sua atividade, como por exemplo exploração de petróleo, nem sequer têm valores mínimos ambientais.

Mas como tudo se irá concretizar? Bem, isso ainda não está totalmente definido. O processo ainda está em curso. No entanto, como refere Sofia Santos, a proposta de Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa afirma que será necessário que os relatórios onde esta informação deve constar terão de ser verificados por uma terceira entidade. Quanto ao financiamento, nomeadamente à atribuição do financiamento verde "será do interesse dos bancos emprestarem dinheiro a empresas que apresentem melhores indicadores ambientais, uma vez que os seus rácios de capital irão estar associados com a sua exposição a riscos ambientais, sociais e de governação". Já em relação à fiscalização esta será assegurada pelas entidades reguladoras do setor financeiro, tal como acontece hoje.

Há um outro pormenor interessante. É que esta nova forma de abordar e classificar empresas e negócios obrigará à contratação de engenheiros do ambiente, entre outras áreas da ciência, que trabalharão em estreita relação com as várias instituições financeiras.

Mas falta ainda mencionar as PME e a microempresas que, no caso de Portugal, constituem a maioria do tecido empresarial. Aqui "é necessário criar-se um enquadramento que lhes permitam publicar estes indicadores e tal ser verificado".

Renováveis e cimento tomam a dianteira

O setor das energias renováveis ser o setor que está mais avançado na implementação desta nova forma de pensar e trabalhar não é nada de novo. Agora sim é uma novidade constar que o "setor do cimento também consegue, em muitos países, cumprir com os requisitos mínimos ambientais exigidos para se ser uma atividade ambientalmente sustentável". A par disso começam a surgir todo um conjunto de novos negócios que têm como objetivo ajudar outras empresas e setores a a diminuírem as suas emissões de CO2. "Neste campo as PME portuguesas são um ótimo exemplo, uma vez que há uma série de equipamentos que são exportados e que, ao utilizarem a melhor tecnologia disponível, contribuem para a melhoria do desempenho ambiental de outros setores, e por isso são também elas atividades ambientalmente sustentáveis", constata Sofia Santos.

O Banco Português de Fomento deveria ser um Banco Verde, mas se lá não chegar Portugal perde rapidamente uma imensa oportunidade de alavancar o financiamento verde junto da restante banca privada. Sofia Santos, Sustainability Champion in Chief da Systemic
Mas se há PME portuguesas que ganham destaque por estarem avançadas há outros setores onde Portugal denota um claro atraso. É o caso, do setor financeiro que, segundo a executiva da Systemic, nunca pensou que estes temas ganhassem a robustez que ganharam, nem nunca pensou que os testes de stress pudessem também incluir os riscos ambientais, o que vai acontecer entre março e julho de 2022.

Falar de descarbonização, de neutralidade carbónica sem pensar nas alterações que isso implica nos negócios e sem premiar/penalizar os bons e maus seguidores é como que dar um passo em frente e dois atrás. A estratégia definida pela Comissão Europeia só terá sucesso se for abordada nas suas várias vertentes. E isso inclui ma nova forma de olhar para o financiamento das empresas. de incentivar a que estas pratiquem boas práticas e que valorizem projetos que, simultaneamente, sejam amigos do meio ambiente e da sociedade em geral. É certo que, também aqui a Europa lidera. No entanto convém olhar para o que os Estados Unidos da América estão a fazer, já que é o país que mais Bancos Verdes tem. Diga-se que tem vários "bancos de fomento" que são verdes, apenas emprestam dinheiro a projetos empresariais que diminuem as emissões de CO2 e impactes ambientais. E Portugal? "O Banco Português de Fomento deveria ser um Banco Verde, mas se lá não chegar Portugal perde rapidamente uma imensa oportunidade de alavancar o financiamento verde junto da restante banca privada, escapando assim uma oportunidade de contribuir para a aceleração do potencial da economia verde que existe em Portugal e a respetiva criação de postos de trabalho", constata Sofia Santos.
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