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Joana Portugal Pereira: O momento de paragem “é a oportunidade para repensarmos o futuro”

O momento de paragem devia ser aproveitado para repensar o futuro, diz a cientista Joana Portugal Pereira. E os estímulos económicos utilizados para financiar setores que se traduzem em desenvolvimento sustentável a longo prazo.

Alexandra Machado amachado@negocios.pt 28 de Maio de 2020 às 10:15
RobertoSchaeffer
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Joana Portugal Pereira, que é autora em relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) – que produziu o documento especial sobre os impactos do aquecimento global de 1,5 graus –, acredita que há mais pressão do público sobre os governantes pelas alterações climáticas. Mas há muito a fazer.

A redução de emissões que houve, com os meses de paragem industrial e de mobilidade, é possível ser consolidada?

A redução momentânea de 8% – segundo a Agência Internacional de Energia seria compatível com os níveis de redução que necessitamos se queremos estabilizar o aquecimento global em até mais 1,5 grau até final do século face aos níveis pré-industriais – não implica de modo algum que estamos no caminho certo para o combate às alterações climáticas. As alterações climáticas são um problema global que necessita de ações e estratégias coordenadas globais contínuas e de longo prazo e que sejam inclusivas. Eu, como especialista em alterações climáticas, não defendo a redução das emissões com o sacrifício económico de descidas de PIB que podem variar entre 7% e 12%, com perdas de milhares de emprego, e com este confinamento que não é desejável para ninguém. Temos é de aproveitar o momento de paragem forçada para criar oportunidades e para estimular indústrias de baixo carbono e tecnologias mais limpas. E repensar a nossa mobilidade urbana.

Mas há quem diga que agora vão comprar-se mais carros, com medo dos transportes públicos. Há esse risco?

Não consigo ler o futuro. É uma possibilidade, mas quero acreditar que haverá força política, de governos locais e centrais, para não permitir essa saída fácil, que talvez faça sentido a curto prazo, mas que a longo prazo não é sustentável.

Não estarão os estados mais preocupados com a emergência económica e social?

Uma questão não pode ser dissociada da outra. Vivemos num planeta e é tudo interligado. Agora que estão a ser definidos os estímulos económicos na União Europeia e noutros contextos económicos é essencial financiar os setores que se traduzem no desenvolvimento sustentável a longo prazo. Não me parece que faça sentido continuar a haver os subsídios perversos a combustíveis fósseis, ou a uma indústria agroalimentar muito ineficiente, com práticas altamente insustentáveis. Neste momento que vivemos esta situação de crise, de terror, não podemos desperdiçar a oportunidade para recriarmos e repensarmos um futuro que seja mais sustentável para todos.

Ao nível da indústria, há alguma coisa que os estados devam impor para se manter os níveis baixos de emissões?

Temos de revolucionar os nossos processos industriais para, por um lado, promover a ecologia circular e, por outro, promover a eficiência energética a partir de tecnologias limpas. Muitas indústrias estão neste momento paradas e com uma almofada financeira muito baixa, por isso talvez não seja o tempo de impor uma certa medida a um industrial que não sabe como vai pagar os salários aos trabalhadores no final do mês. Claro que é muito importante, mas temos de considerar o contexto em que vivemos atualmente. Falamos na transição justa que implica que não vamos deixar ninguém para trás.

Não sente alguma frustração de estar a trabalhar estes temas e depois ver à volta focos que estragam objetivos?

Eu não diria que estragam, diria que atrasam. E não temos muito mais tempo. Tivemos uma última década de grandes impasses, de grandes incertezas políticas, de grande indefinição. Mas a partir de 2015, desde o Acordo de Paris, e há dois anos quando foi lançado o relatório especial do IPCC sobre os 1,5 graus, foi criado o momento certo e o público geral está absolutamente alerta, atento e a pressionar os nossos políticos, negociadores climáticos, para serem mais ambiciosos e aplicarem a estratégia necessária para a redução e adaptação às alterações climáticas de uma forma muito mais acelerada.

 

PERFIL

Joana Portugal Pereira é professora no departamento de planeamento energético da Universidade do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ) e investigadora convidada do Centre of Environmental Policy do Imperial College London. Vive os seus dias entre Londres e o Rio de Janeiro, onde foi apanhada, agora, pelo período de confinamento. Saiu de Portugal em 2008, já com o diploma de Engenharia do Ambiente pelo Instituto Superior Técnico.

O seu nome está há muitos anos associado ao combate às alterações climáticas. O seu percurso académico e de investigação possibilitou que o seu nome esteja inscrito em trabalhos do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa), como cientista sénior.

Falou ao Negócios por Skype, como acontecem hoje em dia muitas entrevistas. Foi também assim que se reuniu em abril com os participantes do IPCC. Mais de 270 pessoas em todos os fusos horários. “A reunião foi muito positiva”, confessou ao Negócios.

 

 

“Temos de aproveitar o momento de paragem para estimular indústrias de baixo carbono e tecnologias mais limpas.”

 

“Talvez não seja o tempo de impor medidas a um industrial que não sabe como vai pagar os salários aos trabalhadores.”

 

Entre Londres e o Rio de Janeiro
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