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Plataforma junta mulheres para salvar os oceanos

São mais de 400 mulheres que assumem, numa plataforma, o duplo objetivo de potenciar o valor das mulheres no mar e a sustentabilidade. O grupo é bastante diverso e inclui investigadoras, cientistas ou biólogas a surfistas pescadores, mariscadoras, mergulhadoras, advogadas, professoras ou médicas de norte a sul do país, incluindo as ilhas.

Sónia Santos Dias 21 de Setembro de 2022 às 14:30
Projeto inclui um documentário e uma minissérie de quatro episódios. Objetivo é ilustrar a relação das mulheres com o mar. Ricardo Nogueira
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Quando Raquel Costa teve a rara oportunidade de descer no submarino amarelo Nautile, do centro de pesquisa francês IFREMER, até cerca de 3.000 metros de profundidade, ao largo dos Açores, não sabia que estaria a mudar a sua vida para sempre.

O que a geóloga marinha viu, nesse ido ano de 1998, foi "indescritível", nas palavras da própria. Num lugar profundo do planeta Terra, onde a luz não chega e quase tudo ainda está por descobrir e documentar, viu um "peixe grande azul com três patas fininhas, um polvo cor-de-rosa que parecia ter orelhas e que andava a bailar à frente do submarino, um tubarão que parecia estar deitado, corais que não sabia que existiam a três mil metros de profundidade". "Em termos de geologia, vi e apanhei imensas rochas incrivelmente diferentes daquilo que estávamos à espera."

O mergulho de 7h30 marcou-me imenso. É importante passar a mensagem de que não conhecemos bem o mar, que é imenso: 70% do planeta é mar e só conhecemos 3%.
Raquel Costa
Geóloga marinha 
Neste mergulho de 7h30 em plena escuridão com uma "pressão de água incrível", para além de seres e cenários que parecem ser de outro mundo, a investigadora testemunhou uma grandiosidade que a levou a querer ser uma voz ativa para a preservação dos oceanos. "Esta experiência marcou-me imenso, porque o privilégio de ter feito este mergulho fez com que achasse que era importante passar a mensagem de que não conhecemos bem o fundo do mar, nem o próprio mar, que é imenso: 70% do planeta é mar e nós só conhecemos 3%", destaca Raquel Costa.

Da geologia marinha passou para a estrutura de missão para a extensão da plataforma continental junto da ONU e, daí, para a literacia dos oceanos. "Percebemos que os portugueses sabem pouco sobre o mar", destaca. Hoje, dedica-se a educar e sensibilizar para a necessidade de preservar os oceanos: "É preciso ter consciência para mudar atitudes. É preciso que as pessoas compreendam de facto a importância das coisas para tomarem decisões conscientes."

Do campo da literacia passamos para as artes de pesca. Em Portugal, as mulheres representam apenas um quarto da força de trabalho neste setor e Anabela Valente é uma delas. Mariscadora na ria de Aveiro, dá continuidade a uma atividade familiar em que a presença feminina é muito forte e representa a Rede Estrela do Mar - Rede Portuguesa de Mulheres da Pesca. "O papel da mulher na atividade tem vindo a trazer sensibilidade ao setor, capacidade de mediar negociações e organização. A mulher sempre esteve ligada ao setor, mas nem sempre teve visibilidade", conta a mariscadora ao Negócios. A defesa do mar e da ria é também uma das suas bandeiras e uma das razões para integrar o projeto Mulheres do Mar. "É muito importante valorizar as atividades de marisqueiro e de pesca, para consciencializar as pessoas para a falta que o peixe e o marisco fazem no mar, na ria e, claro, na nossa alimentação", destaca.

Emoção pela defesa do mar

Raquel e Anabela são duas das mais de 400 mulheres que integram o projeto Mulheres do Mar, que pretende dar a conhecer a relação emocional de algumas mulheres com o mar e com isto promover a conservação do oceano. O projeto compreende um documentário, uma minissérie, um site agregador de toda a informação recolhida e uma campanha de comunicação que recorre à emoção transmitida por estas mulheres, passando a dupla mensagem de respeito pelo oceano e do valor do trabalho feminino no mar.

Quando ouvimos estas mulheres falarem da relação emocional com o mar, percebemos que o mar esteve presente nas suas vidas e faz parte da sua essência.
Raquel C. Martins
Mentora do projeto Mulheres do Mar 
"Sem nunca deixarem de ter o mar por perto, no documentário elas falam da infância, das famílias, da maternidade, da igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, da economia circular, de biologia marinha e biodiversidade, da história dos mares no passado e dos sonhos para o futuro. Quando ouvimos estas mulheres falarem da relação emocional com o mar percebemos que o mar esteve presente nas suas vidas e faz parte da sua essência", explica Raquel Clemente Martins, mentora do projeto. E acrescenta: "As entrevistas com as Mulheres do Mar são realizadas de uma forma muito íntima e individual. As mensagens que nos passam são de uma beleza e sensibilidade contagiante, que, acreditamos, vão ser inspiradoras para mais pessoas tomarem consciência da urgência de todos nos unirmos para salvar o oceano. A sua sabedoria chega-nos sempre da sua relação emocional com o mar, que preenche os seus estudos científicos, as suas investigações mar adentro, a faina de todos os dias, etc. Acreditamos que a sua mensagem vai ser emocionalmente forte, catalisadora e desafiadora."

Do projeto fazem parte mulheres de todos os perfis, desde investigadoras, cientistas ou biólogas a surfistas pescadores, mariscadoras, mergulhadoras, advogadas, professoras ou médicas, de norte a sul do país, Madeira e Açores. Para o documentário são feitas entrevistas com a partilha de experiências de vida junto ao oceano e de como esta vivência tem impacto na vida pessoal, profissional e social. "O que as une é esta forma de viver o mar no seu dia a dia e a necessidade que sentem de o preservar", assinala a mentora do projeto.

Para Raquel Costa, é a emoção que leva à mudança e, por isso, é a grande arma que as mulheres usam neste projeto. "É esta parte que faz a transformação das pessoas." Para a geóloga marinha, "vai fazer uma diferença enorme em quem ouvir essas histórias, pois vão perceber que a diferença é feita por mulheres normais e que todos podemos fazer essa diferença".

Defender os ODS 5 e 14

Com um propósito e uma responsabilidade assumida, o projeto Mulheres do Mar compromete-se a participar na execução da Agenda 2030 das Nações Unidas, promovendo e valorizando o desenvolvimento sustentável social e ambiental de forma interligada com a paz, a segurança, a igualdade de género, o combate às alterações climáticas, a promoção do crescimento económico inclusivo e a adoção de padrões de consumo sustentável.

O foco está sobretudo nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5 e 14, dedicados, respetivamente, à igualdade de género e à proteção da vida marinha. "Ainda que a ligação entre as mulheres portuguesas e o mar seja ancestral e consistente ao longo dos tempos, são apenas 25,2% da força de trabalho no mar em Portugal", destaca Raquel Clemente Martins. Estão principalmente ligadas às áreas da indústria de processamento, investigação e desenvolvimento, desportos de alta competição, empreendedorismo e governança. Neste sentido, "este projeto tem também como objetivo sensibilizar para a importância da adoção e fortalecimento de políticas sólidas e legislação aplicável para a promoção da igualdade de género e o empoderamento das mulheres. É urgente acabar com todas as formas de discriminação contra as mulheres no trabalho, na família e no lazer", acrescenta a responsável.

No que toca ao ODS 14, as Mulheres do Mar comprometem-se a garantir a preservação, proteção e recuperação do oceano, através do alcance da sua ação.

As capturas não obedecem a tamanhos, quantidades, ou seja, não têm controlo nenhum. É preciso fiscalização mais rigorosa [da pesca]. Anabela Valente
Mariscadora na ria de Aveiro
No caso da mariscadora Anabela Valente, a sua contribuição para a preservação do oceano passa pela valorização da atividade e de uma maior fiscalização. É preciso, defende, "um trabalho conjunto entre associações de produtores, mariscadores, pescadores, Ministério do Mar e investigadores, valorizando o pescado desde que é capturado". Uma vez que, acrescenta, "há capturas que não são contabilizadas por serem furtivas e dão origem a um mercado ilegal". "As capturas não obedecem a tamanhos, quantidades, ou seja, não têm controlo nenhum. É preciso fiscalização mais rigorosa e constante para combater esse flagelo."

No dia a dia, estas mulheres já estão a trabalhar para reduzir a poluição marinha, para proteger e restaurar ecossistemas, para reduzir a acidificação do oceano e são responsáveis por aumentar diariamente o conhecimento científico e tecnológico. Promovem a pesca sustentável, a pesca de pequena escala e estão empenhadas em fazer cumprir a lei marítima internacional e a conservação das áreas costeiras e marinhas.

Para além disso, o mar tem um enorme potencial económico que deve ser explorado de forma sustentável, defendem. Para Raquel Costa, tal passa pelo recurso a soluções inovadoras em diversas áreas, como, por exemplo, "na biotecnologia, que tem um impacto enorme do ponto de vista económico e muito pequeno em termos de sustentabilidade", refere a investigadora.

O site e o documentário deverão estar prontos no primeiro semestre do próximo ano e a minissérie que foi produzida no segundo semestre de 2023. A minissérie, de quatro episódios, é dedicada aos temas do lixo marinho, economia circular, biodiversidade e alterações climáticas. O projeto terá ainda diversas iniciativas até 2030.

Promovido pela ONG Help Images, o Mulheres do Mar conta também com o apoio institucional de diversas entidades estatais.
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