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Lagostim-vermelho pode render milhões a Portugal

A introdução desta espécie no circuito comercial em Espanha já rende mais de 20 milhões de euros por ano, fazendo deste país o segundo exportador mundial depois da China. Plano de ação nacional prevê a comercialização desta espécie invasoraem Portugal, mas chegada da captura nacional às peixarias continua por definir.

Sónia Santos Dias 23 de Fevereiro de 2022 às 11:30
O lagostim-vermelho é uma espécie invasora e a sua comercialização poderá ajudar no controlo. Getty Images
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A pesca do lagostim-vermelho-da-luisiana ("Procambarus clarkii") - uma espécie invasora com elevado impacto nos ecossistemas da Península Ibérica - pode render milhões de euros a Portugal, ao mesmo tempo que trará benefícios ambientais pelo controlo da sua população.

A medida de controlo da espécie, através da pesca, comercialização e consumo deste lagostim, foi definida no plano de ação nacional para o controlo do lagostim-vermelho-da-luisiana, aprovado em setembro de 2021, mas o valor comercial deste e a entrada oficial no circuito comercial continuam por definir, não se encontrando ainda a captura nacional nas peixarias ou nos circuitos de exportação, apurou o Negócios junto de diversas entidades nacionais competentes.

400Emprego
Em Espanha, a pesca e comercialização do lagostim-vermelho é responsável pela criação de 400 postos de emprego diretos, através de cinco empresas.

Por outro lado, na vizinha Espanha, este lagostim-vermelho já se tornou num recurso socioeconómico importante, rendendo mais de 20 milhões de euros por ano, tornando aquele país no segundo exportador mundial, depois da China, associando 400 empregos diretos, nomeadamente nas cinco empresas que fazem o processamento da espécie, segundo é reconhecido no próprio plano de ação português. Em Espanha, o impacto socioeconómico desta comercialização é positivo sobretudo pelo nível de emprego que produz em regiões como a Andaluzia.

Em Portugal, não existem dados oficiais suficientes e consubstanciados sobre a captura da espécie nem sobre o seu valor económico, mas são recorrentes as apreensões desta espécie pelo Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da Guarda Nacional Republicana.

Portugal também reconhece que esta espécie é capturada por pescadores espanhóis que se deslocam ao país para esse fim e que muitos dos pescadores profissionais que se dedicam à sua pesca o vendem para o país vizinho, ficando em Portugal apenas uma percentagem muito reduzida das capturas, as quais são vendidas para restaurantes e cafés das regiões próximas do local de captura.

Além de oficializar o esforço de controlo, permite controlar as quantidades pescadas, quem as efetua e em que localizações. Instituto de Conservação da Natureza e Florestas
Fonte oficial

O plano de ação nacional para o controlo do "Procambarus clarkii" pretende também intervir nesta situação. "Para além de oficializar o esforço nacional de controlo, permite implementar um controlo nacional das quantidades pescadas, quem as efetua e em que localizações. Além disso, legaliza a apanha com fins comerciais e estabelece as regras em que se opera a apanha/pesca e transporte, quer para autoconsumo quer para fins comerciais", refere o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) ao Negócios.

Um invasor em expansão

Originária da região centro-sul dos Estados Unidos e Nordeste do México, esta espécie está em expansão na Europa ocupando o habitat de espécies autóctones de lagostins de água doce, razão pela qual foi colocada na lista de espécies exóticas invasoras que suscitam preocupação. É muito resistente quando comparado com outros lagostins, suportando baixos níveis de oxigénio, altas temperaturas (entre 10 °C e 30 °C) e alto grau de contaminação da água. É uma espécie de crescimento rápido, podendo atingir 12 centímetros, e com uma longevidade até cinco anos. As fêmeas podem produzir entre 200 e 700 ovos por ano.

Sendo uma espécie voraz, causa destruição significativa de plantas como o arroz, predando insetos e moluscos. Instituto de Conservação da Natureza e Florestas
Fonte oficial 

Segundo o ICNF, é possível encontrar o lagostim-vermelho-da-luisiana em linhas de água em todos os distritos continentais, bem como na ilha de São Miguel, nos Açores. A espécie também tolera a salinidade e encontra-se já em zonas de estuário dos rios Minho, Lima, Mondego, Tejo, Sado e Guadiana. Também é frequente a sua observação em muitas albufeiras do país, como as de Alqueva ou Castelo de Bode. "Na Península Ibérica, provocou o desaparecimento local de espécies nativas de lagostins. Sendo uma espécie omnívora e comprovadamente voraz, causa uma destruição significativa de espécies de plantas, como, por exemplo, o arroz, predando ainda insetos e moluscos, o que traz consequências limitantes nos recursos disponíveis para as espécies nativas. Desta forma, os seus hábitos alimentares podem alterar perigosamente os ecossistemas nativos. Refira-se também que, nas zonas onde a espécie foi introduzida, se observou a diminuição das populações de anfíbios e de alguns peixes, já que consome tanto os ovos como captura indivíduos não adultos", explica o ICNF.

Devido à sua posição biogeográfica, Portugal tem condições de aclimatação de espécies não indígenas. Neste contexto, a proliferação de espécies exóticas invasoras é identificada na Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030 como uma das principais ameaças à biodiversidade. Considerando que o lagostim-vermelho-da-luisiana está incluído na Lista Nacional de Espécies Invasoras e disseminado em grande escala no território continental, tornou-se necessário estabelecer um plano de ação nacional para o seu controlo.

O ICNF é a entidade responsável pela coordenação, controlo, vigilância e monitorização deste plano de ação. O plano define as condições a que tem de obedecer a apanha do crustáceo, tanto para consumo próprio, como para a atividade comercial. Embora o objetivo final deste plano não seja a institucionalização de uma prática comercial, o ICNF reconhece o impacto socioeconómico que o início da sua comercialização pode ter no país. "É crível que esta possa ter impacto local através da remuneração dos coletores do lagostim e das quantidades pescadas, bem como pela criação, em território nacional, de uma cadeia de comercialização/transformação de base alimentar que acrescente valor económico ao lagostim capturado."

As capturas de lagostim-vermelho podem ser efetuadas para autoconsumo ou em massa. No primeiro caso, os lagostins podem ser capturados por qualquer pessoa com recurso a um camaroeiro, balança (ou ratel) ou por apanha manual e têm de ser transportados mortos. No caso da extração em massa, os animais podem ser comercializados e transportados vivos. Mas a captura apenas pode ser efetuada por titulares de licença de pesca profissional, desde que registados como coletores ao serviço de empresas/estabelecimentos licenciados pelo ICNF para controlo e transferência ou detenção e tratamento desta espécie.



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