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Economia circular pode travar perda global de biodiversidade

Falar de biodiversidade é mais do que mencionar plantas e animais. Trata-se de algo que sustenta a nossa economia, sociedade e, em última instância, o ser humano. Protegê-la deveria ser o nosso principal objetivo.

Alexandra Costa 22 de Junho de 2022 às 15:30
A reciclagem deve ser vista como a última paragem da economia circular.
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O planeta Terra está em agonia. A população humana não para de crescer, as alterações climáticas estão a causar estragos e não parece haver uma solução mágica para resolver estas questões. Ou assim parecia. Um estudo recente do Finnish Innovation Fund Sitra - Fundo de Inovação finlandês Sitra, em português, parece ter encontrado uma solução. Os dados recolhidos indicam que as intervenções da economia circular em quatro setores-chave podem travar a perda global de biodiversidade e ajudar a biodiversidade mundial a recuperar para os mesmos níveis do ano 2000 até 2035.

Como? Apostando na economia circular. Reaproveitar os resíduos, desenvolver produtos que durem (mais) e manter esses mesmos produtos no ativo por mais tempo. Desta forma não só temos um melhor retorno do investimento como não há necessidade de extrair novos recursos naturais para a produção de mais produtos.

O estudo indica que, ao abordar quatro setores - Alimentação e agricultura, Florestas, Edifícios e construção, e Fibras e têxteis -, consegue-se não só melhorar a pegada carbónica desses setores, como, através da economia circular, registar um grande avanço no combate à perda global de biodiversidade. Mesmo que nenhuma outra ação seja levada a cabo.

Como afirma Kari Herlevi, diretor de projeto no Sitra, "é possível travar a perda de biodiversidade, mas requer mudanças significativas na forma como produzimos, consumimos e gerimos produtos e materiais. A economia circular oferece soluções, e o melhor é que estas soluções estejam prontas para serem utilizadas."

A exploração dos recursos naturais é uma das principais causas da perda acentuada de biodiversidade que estamos a viver. Susana Fonseca
Associação Zero
Opinião partilhada pela Zero. Sobre o tema, Susana Fonseca aponta que, hoje, "a exploração de recursos naturais é uma das principais causas da perda acentuada de biodiversidade que estamos a viver em muitas partes do mundo", acrescentando que a procura constante de mais recursos e em cada vez maior quantidade para alimentar o voraz sistema de produção e consumo em que vivemos leva à destruição de muitas áreas naturais em terra e no mar.

A economia circular tem a vantagem de defender uma abordagem que "nos pode levar a reduzir de forma mais ou menos significativa a necessidade de recursos virgens". Mas a ambientalista também alerta que a redução dependerá da coragem com que é implementada a economia circular, porque "esta começa na redução, no questionamento da necessidade de produção de algo, passando depois por, se considerado realmente necessário avançar para a produção, avançar para materiais não tóxicos, na menor quantidade possível, reciclados, sempre que possível, que deverão dar corpo a produtos duráveis, reparáveis, atualizáveis, reutilizáveis e também recicláveis, ainda que a reciclagem deva ser vista como a última paragem da economia circular e não como a primeira, como tantas vezes vemos no discurso e na prática de muitos decisores políticos e empresariais".

O desafio da alimentação

A alimentação e a agricultura são as áreas em que, segundo o estudo, a transição para a economia circular pode ter o maior impacto. Através da simples mudança para mais proteínas alternativas e para uma agricultura regenerativa, e através da redução dos resíduos alimentares para metade, a perda de biodiversidade poderia ser travada até 2035.

O reaproveitamento, a par de algumas alterações alimentares, tornaria possível alimentar a população usando menos terra agrícola e utilizando menos aditivos, como fertilizantes. De acordo com o estudo, que capta os impactos na biodiversidade das mudanças no uso do solo, as intervenções circulares examinadas poderiam, por exemplo, libertar terras agrícolas correspondentes a até 1,5 vezes o tamanho da União Europeia para outras utilizações até 2050.

Há uma outra vantagem adicional. A transição para a economia circular permite atenuar as consequências das alterações climáticas, ao reduzir a emissão de gases com efeito de estufa e ao permitir um maior sequestro. O estudo afirma mesmo que, no caso do setor alimentar e agrícola, a transição para uma economia circular reduziria as emissões de metano provenientes da agricultura em cerca de 90% até 2050.

Para se ter uma real noção da importância do setor há que ter a perceção de que uma mudança para um setor alimentar e agrícola circular seria o que teria o maior impacto na recuperação da biodiversidade. Isto porque, segundo o estudo, representa 73% da contribuição total para o cenário da economia circular. Edifícios e construção, fibras e têxteis, e florestas contribuem com 10%, 9% e 8%, respetivamente.

O setor alimentar e agrícola apresenta tanto uma oportunidade como um desafio fundamental para os decisores políticos: sem uma reforma do setor alimentar e agrícola, o declínio da biodiversidade pode ser reduzido, mas não totalmente travado. Estes resultados refletem a pegada da agricultura global, que hoje utiliza cerca de metade das terras habitáveis do mundo.

É certo que o impacto de uma transição para uma economia circular varia de região para região. Se na América Latina, África Subsariana e Índia as áreas a "atacar" são os têxteis e a agricultura, na União Europeia isto seria suficiente para satisfazer a proposta recentemente atualizada da Comissão Europeia de remoção líquida de 310 Mt de CO2 por ano do uso do solo, da alteração do uso do solo e dos setores florestais até 2030. As emissões de metano provenientes da agricultura poderiam diminuir em quase 90%, impulsionadas por deslocações da produção agrícola intensiva de gado. Isto sublinha as importantes sinergias entre as políticas circulares para enfrentar tanto a biodiversidade como as crises climáticas.

Por outro lado, e no caso dos edifícios - convém notar que a eficiência energética dos edifícios é um dos pilares da estratégia da União Europeia -, ajudaria a reduzir a dependência de matérias-primas virgens, mercados voláteis e cadeias de abastecimento frágeis.

Um outro ponto importante é que, ao contrário do que se poderia imaginar, a transição para uma economia circular não implicaria perda de postos de trabalho. A transição para proteínas alternativas poderia proporcionar benefícios globais anuais de 170 mil milhões de dólares até 2030, aumentando para 500 mil milhões de dólares até 2050, desde que os investimentos necessários não fiquem parados. Isto, traduzido para postos de trabalho, são cerca de três milhões de novos empregos. Por ano.

O estudo aponta também que os ganhos de eficiência na reciclagem de madeira para construção, assim como a redução da perda e desperdício de alimentos e ainda a reciclagem de algodão, por exemplo, poderiam proporcionar poupanças anuais às empresas entre 0,6 e 1,5 mil milhões de dólares por ano.

"A perda de biodiversidade é um desafio que pode até eclipsar as alterações climáticas nos próximos anos, e até agora não estamos a fazer o suficiente", diz Kari Herlevi. "A boa notícia é que a economia circular tem sido em grande parte uma oportunidade negligenciada, apesar de já termos as soluções circulares mesmo à nossa frente. Podemos travar o declínio da biodiversidade antes que seja demasiado tarde, mesmo já na próxima década".

Já Susana Fonseca realça que "a aplicação em pleno do conceito de economia circular poderá evitar muitos impactos da exploração de recursos naturais virgens a que hoje assistimos. Esta poupança acontecerá nos recursos diretos, mas também nos secundários, como a energia, cujas necessidades serão muito mais reduzidas se estivermos a agir na área da redução, reutilização, reparação… e reciclagem, em vez de apostarmos sempre na produção de coisas novas com recursos acabados de retirar da natureza."

Impacto da economia circular:
• Alimentação e agricultura: as reduções da poluição e da perda e desperdício de alimentos ao longo da cadeia de abastecimento aumentam a eficiência da produção para reduzir as necessidades de consumos, particularmente de proteínas, enquanto a agricultura regenerativa tem efeitos positivos sobre a biodiversidade.
• Florestas: as melhorias na vida útil dos produtos e a reutilização de produtos e materiais reduzem a procura de madeira. A madeira nova provém de florestas geridas de acordo com princípios regenerativos para melhorar os resultados da biodiversidade.
• Edifícios e construção: menos materiais e menos espaço urbano são utilizados, prolongando a vida útil dos edifícios, otimizando a utilização ativa, reduzindo a utilização de materiais e reutilizando e reciclando materiais. Mais materiais renováveis são utilizados na construção.
• Fibras e têxteis: a procura de novos materiais é reduzida através do aumento da durabilidade, taxas de utilização, reutilização e reciclagem do vestuário, enquanto métodos regenerativos de cultivo são cada vez mais utilizados.

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