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Transições digital e climática caminham lado a lado

A necessária transição para um mundo mais sustentável só é possível com a transformação digital da sociedade em que vivemos. Uma dupla transição que se entrecruza na prossecução dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável a atingir até 2030. Mas tudo começa na educação, sem a qual não é possível fazer toda esta transformação.

Sónia Santos Dias 18 de Outubro de 2021 às 15:30
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Foto em cima: Luísa Ribeiro Lopes, presidente do .PT; Vanda Jesus, diretora executiva do Portugal Digital; e por Pedro Pereira, diretor para a Ação Climática e Sustentabilidade da SAP EMEA Sul. A moderação esteve a cargo de Diana Ramos, diretora do Jornal de Negócios.

A transformação digital que o mundo tem de fazer na sua natural evolução e, em simultâneo, como meio para se alcançar uma sociedade mais sustentável foi o tema da talk "Transformação Digital em Sustentabilidade - Compreender o presente, preparar o futuro", que teve lugar a 14 de outubro, naquele que é o segundo ciclo de talks sobre sustentabilidade organizado pelo Jornal de Negócios. O debate contou com a abertura institucional de André de Aragão Azevedo, secretário de Estado para a Transição Digital; e com um painel composto por Luísa Ribeiro Lopes, presidente do .PT; Vanda Jesus, diretora executiva do Portugal Digital; e por Pedro Pereira, diretor para a Ação Climática e Sustentabilidade da SAP EMEA Sul. A moderação esteve a cargo de Diana Ramos, diretora do Jornal de Negócios.

"A transição digital e a transição em prol da sustentabilidade andam a par e passo", começa por assinalar Luísa Ribeiro Lopes, que recorda que o mundo inteiro está comprometido com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), lançados pela Organização das Nações Unidas em 2015 e que deverão ser atingidos em 2030. "Como é que a transformação digital aparece aqui? A educação é fundamental. Diria que transformação digital sem capacitação digital não existe. Precisamos urgentemente que as pessoas tenham uma educação melhor, uma educação com competências digitais, uma educação que as torne mais informadas para poderem fazer escolhas mais informadas. As pessoas mais informadas tomam opções mais sustentáveis e é esse o percurso que nós temos de fazer. A transformação digital é um potenciador de uma sociedade mais sustentável, quer em termos de igualdade, de saúde ou de educação", acrescentou.

Para cumprir esta meta, Portugal tem um Plano de Ação para a Transição Digital, lançado em março de 2020, assente em três pilares: capacitação das pessoas, transformação digital das empresas e digitalização da administração pública.

Na área das competências digitais, Vanda de Jesus recordou que, no Índice de Digitalização da Economia e da Sociedade (DESI, sigla em inglês), Portugal está neste momento em 19º lugar, sendo a área do talento uma das que precisam de ser bastante trabalhada. "É interessante perceber que onde estamos piores é exatamente no talento. O projeto Upskill é uma oportunidade para a requalificação de pessoas; com o programa Eu Sou Digital, que tem por objetivo incluir um milhão de cidadãos que não tem acesso; e com o Emprego Mais Digital, para dar competências digitais à população ativa, são iniciativas para reduzir a falta de competências digitais, o analfabetismo do século XXI. E para melhorar nos rankings internacionais, porque isso faz com que a nossa economia consiga melhorar com esta capacitação", salientou.

O PRR como impulsionador da dupla transição

Além do papel da educação para a transformação digital, é preciso investimento para que a sociedade evolua, no seu todo, no sentido de cumprir estes ODS. A diretora executiva do Portugal Digital destacou o papel do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para ajudar Portugal nesta dupla missão: "O PRR tem três grandes pilares: a resiliência, o clima e o digital. Se juntarmos tudo o que tem a ver com o clima e o digital estamos a falar de 60% daquilo que é o plano. O que mostra de facto a aposta feita nessa área. Porque mesmo alguns investimentos associados ao clima têm uma forte componente de transição digital intrínseca."

No PRR, estão previstas diversas medidas para a descarbonização da indústria, dos edifícios, etc. No campo do digital, está prevista a criação do Selo de Maturidade Digital em quatro áreas - acessibilidade, cibersegurança, privacidade e sustentabilidade, para as quais as empresas poderão conseguir selos de ouro, prata ou bronze. "Com isto, o nosso objetivo é não só dar uma credibilidade de maturidade das empresas nestas áreas, mas competir internacionalmente e ter melhor acesso a concursos públicos. E depois, no próprio procurement, quer do Estado quer das empresas, valorizar as empresas que têm esta responsabilidade digital e sustentável", referiu Vanda de Jesus.


O outro projeto na área das empresas que vai contribuir para o caminho da sustentabilidade é a fatura digital, existindo o objetivo de desmaterializar 700 milhões de faturas. "É um projeto que já estava no plano, mas neste momento tem financiamento e apoio comunitário através do PRR para que possa ser uma realidade", salienta a responsável.

Na área da dupla transição, está também previsto um apoio de 90 milhões de euros para 3000 start-ups que apresentem projetos que atuem simultaneamente nas transformações digital e climática.

Um grande desafio para as empresas

Presente no debate como representante empresarial, Pedro Pereira salientou que "a principal oportunidade e desafio das organizações é fazer com que a sustentabilidade seja rentável e que a rentabilidade seja sustentável. Fazer um sem diminuir o outro". Para isso, "é importante repensar a estratégia das organizações. O resultado não pode ser só focado no shareholder da organização. São precisos processos e modelos de negócio que orientem todos os stakeholders. E isso é uma fórmula de negócio nova. A fórmula que resultou antes não é a mesma fórmula que vai resultar no futuro".

Neste sentido, a chave está em medir e vincular toda a cadeia de valor do produto, incluindo fornecedores. "A sustentabilidade é um jogo de redes. Não se consegue alcançar um futuro sustentável sozinho. O primeiro passo desse futuro sustentável é ter medidas. Quem não mede não consegue mudar nada. O primeiro passo para todas as organizações é conseguir medir o impacto que tem em cada um dos seus processos. Por exemplo, conseguir vincular a aprovação do orçamento com os Objetivos Sustentáveis das Nações Unidas. Então, eu consigo medir e vincular isso com os meus processos de negócio e ao mesmo tempo consigo vincular os meus fornecedores e o ciclo de vida do meu produto. Essa é a rede inteligente de que estamos a falar", acrescentou o diretor para a Ação Climática e Sustentabilidade da SAP EMEA Sul.

Luísa Ribeiro Lopes reforçou que este é um caminho sem volta, com os consumidores a pressionarem para terem produtos sustentáveis: "As empresas estão a ser puxadas para a sustentabilidade, das margens para o centro. Fornecedores, stakeholders e clientes procuram empresas mais sustentáveis. O nível de sustentabilidade de uma empresa deveria - e estamos muito perto de que isso aconteça - ser um indicador de sucesso da própria empresa. Porque cada vez mais nós vamos procurar produtos sustentáveis e empresas que sejam sustentáveis. As empresas ao terem consciência disto, ao se tornarem mais sustentáveis, ainda que tenham de fazer um investimento nesse sentido, também vão ter uma rentabilidade maior. Este fator de sustentabilidade deve ser um fator de análise de sucesso da própria empresa."

A presidente do .PT reforçou também que sustentabilidade não é apenas ambiental, mas também económica e social. E neste campo destacou que ainda há muito trabalho a fazer na integração das mulheres numa área-chave como é a digital: "A igualdade de género é também um objetivo no desenvolvimento sustentável. Nas áreas do digital só 18% dos empregos TIC (tecnologias de informação e comunicação) são desempenhados por mulheres. Precisamos de trazer mais mulheres para o digital, precisamos de empoderar as mulheres também. É um mundo de homens. Nós precisamos que todas as mulheres no mundo tenham acesso à educação, para terem possibilidade de fazer escolhas informadas. E têm de ter acesso à educação na sua plenitude e não só em determinadas áreas."

Por fim, o debate fechou com uma projeção do que será Portugal em 2050. Os três intervenientes demonstraram confiança e reforçaram que a transformação que o mundo está a pedir tem de ser feita em conjunto. Estamos também perante um manancial de desafios, mas também de oportunidades. "Acho que estamos no caminho para utilizarmos esta década para reposicionar Portugal no mundo mais digital e mais sustentável", finalizou Vanda de Jesus.

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