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Peter Bakker: “Temos de reinventar o capitalismo”

O presidente do World Business Council For Sustainable Development (WBCSD) apresenta-nos a “Visão 2050: Tempo para Transformar”, uma “agenda executável para as empresas para acelerar a transição para um mundo mais sustentável”. Peter Bakker defende: “Temos de reinventar o capitalismo, de mudar para um sistema de capitalismo que não olhe só para a performance financeira, mas que integre também o desempenho das empresas em relação aos indicadores ASG (ambientais, sociais e de governança).”

Emília Freire 23 de Junho de 2021 às 11:05
Peter Bakker diz que desta pandemia deve emergir a perceção de que temos de mudar algo. DR
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Peter Bakker, presidente da comissão executiva do World Business Council For Sustainable Development (WBCSD), veio apresentar a "Visão 2050: Tempo para Transformar" no encontro digital que o grupo Semapa organizou para os membros dos boards e senior managers, na passada segunda-feira, e que juntou cerca de 130 participantes. Na sequência dessa participação, o Jornal de Negócios entrevistou Peter Bakker sobre esta "Visão" na qual o WBCSD aspira a um mundo em que mais de nove mil milhões de pessoas possam viver bem, dentro das fronteiras planetárias, até 2050.

O que é a "Visão 2050: Tempo para Transformar"?
A "Visão 2050" é o que chamamos uma agenda executável para as empresas para acelerar a transição para um mundo mais sustentável. Apesar de se chamar "Visão 2050" o foco do relatório está no que as empresas podem fazer nesta década, porque será uma década decisiva, para podermos avançar para um planeta mais sustentável. (https://timetotransform.biz/)

Começámos por identificar que há três desafios globais no mundo - emergência climática, perda da natureza e desigualdade crescente - para os quais precisamos de encontrar soluções.

Por isso criámos esta "Visão" de um mundo em que mais de nove mil milhões de pessoas sejam capazes de viver bem, dentro das fronteiras planetárias, até 2050. Vamos crescer de sete para mais de nove mil milhões de pessoas e queremos que todas vivam bem. Por isso, temos de ficar abaixo dos limites definidos, ou seja, um aumento de menos de 1,5 graus na temperatura global, respeitar e restaurar a natureza e usá-la de forma sustentável e não da forma "extrativa" que temos feito até agora.

Quais são as soluções propostas para os três desafios?
Para conseguirmos lidar com esses desafios criámos nove Caminhos de Transformação. Apresentando-os de uma forma simples: para cada categoria de produtos ou serviços que as empresas fornecem à sociedade criámos um percurso sobre "como devemos fazer a transição" da energia ou dos transportes que usamos, da comida que comemos de forma a avançarmos para a "Visão" que estabelecemos.

Entre os nove Caminhos de Transformação quais são, para si, os mais prementes?
A transformação do sistema energético é obviamente muito importante, ou seja, como descarbonizamos o nosso sistema energético usando mais energias renováveis; outro muito importante é o sistema alimentar, porque a alimentação envolve imensas questões: representa 25% das emissões de CO2, 78% da perda de natureza há centenas de milhões de pequenos agricultores que vivem na pobreza e há uma enorme crise de saúde porque a nossa alimentação não é muito saudável, por isso a mudança na nossa dieta é fundamental. Sem a mudança no sistema alimentar, não poderemos cumprir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) nem o Acordo de Paris, por isso este é bem importante; e penso que o outro caminho, que é realmente fundamental, é que precisamos de mudar o sistema financeiro. Não podemos continuar a avaliar as empresas apenas pela sua performance financeira, temos de incluir os impactos ambientais e sociais das nossas empresas na avaliação do seu desempenho. Por isso, dizemos que temos de reinventar o capitalismo, de mudar para um sistema de capitalismo que não olhe só para a performance financeira mas que integre também o desempenho das empresas em relação aos indicadores ASG (ambientais, sociais e de governança). Para mim, a sustentabilidade é hoje verdadeiramente uma questão de competitividade.

Sem a mudança no sistema alimentar, não poderemos cumprir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) nem o Acordo de Paris.

A sustentabilidade é hoje verdadeiramente uma questão de competitividade.

A "Visão 2050" foi elaborada em 2010. Porque sentiram agora necessidade de a rever e de criar esta nova "Visão 2050: Tempo para Transformar"?
Quando olhámos para a "Visão 2050" criada há dez anos vimos duas coisas: nessa "Visão" os anos entre 2010 e 2020 eram chamados "Turbulent teens" [adolescentes turbulentos] e, de facto, passámos por alguma turbulência. Mas o período entre 2020 e 2050 era chamado de "Era Transformativa", isso em conjunto com a necessidade crescente de uma "Transformação do Sistema" - falada em todas as conferências sobre sustentabilidade - levou-nos a considerar que estávamos a entrar numa fase de transformação. Ao mesmo tempo, quando olhámos para a "Visão" original e vimos que a tecnologia, a emergência climática e o aumento da desigualdade são tópicos que se tornaram muito mais importantes nestes dez anos, fomos trabalhando e acabou por se transformar numa nova "Visão" para nos guiar nesta "Era Transformativa".

A pandemia também teve influência nesta nova "Visão 2050"?
Sim, claro que sim. Começámos antes da pandemia, em março de 2019, mas a covid-19 veio mostrar-nos duas questões muito interessantes: mostrou-nos quão mal preparadas estão as empresas e a sociedade em geral para este tipo de choques, as cadeias de abastecimento, por exemplo, tiveram de lutar contra vários desafios, bem como todas as pessoas individualmente, claro.

Esta pandemia é horrível, com toda a tragédia humana que está a provocar, mas sabemos que virão mais choques, quer sejam pandemias ou alterações climáticas ou outros eventos naturais. Portugal já teve a sua conta de fogos florestais, secas e outros fenómenos podem acontecer. Por isso, temos de ter a certeza de que as empresas estão mais resilientes.

E a pandemia também nos mostrou o quanto o mundo está interconectado. Não só pela rapidez com que a doença se espalhou, mas também pelo desenvolvimento humano e o seu impacto na natureza, a saúde relacionada com a economia e com o ambiente. Ficaram muito mais claras as interligações e a certeza de que a pandemia bateu a todas as portas, em todos os países do mundo. E isso, no meu entender, vai levar a uma maior compreensão do que é necessário fazer, porque todos foram confrontados com esta situação.

Por isso, apesar de toda a perda de vidas que houve, espero que também algo de bom emerja desta pandemia: a perceção de que temos de mudar algo.

Considera que a União Europeia está em boa posição para liderar esta transformação para um mundo mais sustentável?
A Europa está, claramente, a assumir um papel de liderança, principalmente, com o Green Deal, e penso que isso é muito positivo porque acredito que no fim de contas quanto mais sucesso tiverem as regiões, países ou empresas em integrar a sustentabilidade nos seus planos estratégicos mais competitivas serão no futuro.

A sustentabilidade é o único caminho possível?
É uma combinação de fatores que nos leva a esse caminho: a ciência diz-nos o que é urgente e importante; a tecnologia dá-nos outras soluções, quer sejam veículos elétricos ou alternativas à carne; consumidores, há sempre um grupo que quer ter acesso primeiro a novos produtos mais sustentáveis; os reguladores que dão incentivos; e por último, mas não menos importante, o mercado de capitais que começa a premiar as empresas que fazem estas transições. E é nesta mistura que se verão as transformações acelerarem.

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