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Edifícios: a sustentabilidade começa no projeto

Adaptação do edifício à localização e, principalmente, à sua utilização, escolhendo as soluções adequadas ao consumo. Esta nova forma de pensar a construção implica, em média, um acréscimo de investimento que não ultrapassará os 5%, mas que rapidamente se dilui na eficiência energética do edifício.

Alexandra Costa 15 de Setembro de 2021 às 11:00
As Natura Towers, em Lisboa, são uma referência em matéria de sustentabilidade.
As Natura Towers, em Lisboa, são uma referência em matéria de sustentabilidade. Miguel Baltazar
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Os edifícios, ou mais precisamente a sustentabilidade e eficiência energética destes, são um pilar essencial da estratégia da Comissão Europeia no que concerne à descarbonização da Europa. E, se em relação ao edificado já existente a única opção passa por “lidar” com o existente e fazer as devidas remodelações, no que concerne à nova construção tudo começa pela fase de projeto. É nela, como referem da Garcia Garcia Design & Build, que se define o ADN do edifício. Segundo a empresa é na conceção que se definem questões como soluções construtivas ou materiais a utilizar, que terão um impacto crítico no ciclo de vida do edifício e, consequentemente, na sua sustentabilidade. Aliás, é neste momento, que são definidas as soluções energéticas diferenciadas, adaptadas a cada edifício/situação.

Se pensarmos que, como lembra João Rodolfo, CEO da Traçado Regulador, a indústria da construção representa cerca de 10% PIB mundial e que o consumo energético em edifícios habitacionais, de comércio e de serviços representa quase 50% do consumo total de energia, é fácil perceber que qualquer alteração no modo de produção e de utilização dos edifícios “poderá contribuir de uma forma dramática para mudarmos o destino das gerações vindouras”.

Não se trata apenas do delinear da arquitetura do edifício, mas também dos próprios materiais a utilizar, assim como, segundo João Rodolfo, da produção colateral de resíduos poluentes e a gestão da energia e da água. E são precisamente estes pontos – a gestão da energia e da água – que, do ponto de vista do projeto, “são mais fáceis de ponderar e controlar”.

Como? “É exatamente no projeto que se tomam as opções fundamentais, designadamente quanto à eficiência passiva, a criação de um isolamento térmico que permita manter as condições de temperatura de conforto com baixo custo energético, e quanto a eficiência energética ativa, isto é, a gestão integrada e otimização dos sistemas que consomem energia e os sistemas de produção de energia para autoconsumo”, constata o CEO da Traçado Regulador.

O que ter em conta?

Antes de mais o projeto tem de ter em conta não só a localização em que o edifício se vai inserir mas, e principalmente, a que se destina. As necessidades de um edifício de escritórios serão necessariamente diferentes de um edifício residencial. Começa logo, refere João Rodolfo, pelos horários de utilização e consumos gerados. “Os edifícios de escritórios e o comércio têm maiores consumos no horário diurno e as habitações fora do horário de trabalho. Isto determina condições diferentes de produção de energia para autoconsumo”, constata o CEO da Traçado Regulador. Por outro lado, as condições de utilização (número de utentes, condições de ventilação, comunicação dos espaços com o exterior) são muito diferentes, exigindo sistemas de climatização e condições de ventilação diferentes.

Já a Garcia Garcia considera que, apesar de os padrões de utilização serem diferentes, “os princípios e racionais base subjacentes são iguais, o que leva a que exista uma linha orientadora comum”. A forma de os alcançar é que pode diferir, nomeadamente ao nível das soluções de gestão de climatização ou soluções de reutilização de recursos naturais, uma vez que os padrões de consumos são muito diferentes.

Isto significa que, desde o início, há que ter em conta, também, o ciclo de vida do edifício. Quer isto dizer, segundo a Garcia Garcia, a construção, utilização, manutenção e fim de vida (demolição ou restauro). E isto implica “pensar nos processos e nas soluções de forma global, de modo a efetivamente alcançar essa meta”. É certo que, neste aspeto, existem várias certificações – as mais “famosas” são as BREEAM e a Passive House, que acompanham todo o processo. Como exemplo, na Garcia Garcia, a aposta em materiais sustentáveis (incluindo na sua produção e colocação), um design que permita uma menor utilização de equipamentos de climatização, ou a opção por equipamentos energeticamente mais eficientes são alguns dos cuidados simples que permitem alcançar essa sustentabilidade.

O que se deve, então, ter em conta? João Rodolfo explica que o primeiro cuidado começa na forma do edifício: exposição solar, dimensionamento e posicionamento dos vãos envidraçados, a sua proteção relativamente à radiação solar, garantia de ventilação e iluminação natural. Mas só isto não chega. Há que olhar também para a escolha de materiais, “começando por garantir um bom isolamento térmico e a ausência de pontes térmicas”. Como constata o CEO da Traçado Regulador, “diminuir o consumo de energia faz bem ao planeta e faz bem ao nosso bolso (menor custo).”

E por último deve-se equacionar as novas formas de consumo e produção de energia, procurando que o edifício tenha, se possível, produção própria para autoconsumo. Ou que, pelo menos, seja o mais eficiente possível a nível energético.

Sustentabilidade também significa poupança

A resposta é unânime. A preocupação com a sustentabilidade na fase de projeto significa poupanças a longo prazo. Além disso, como lembra a Garcia Garcia, se considerarmos que um edifício é um investimento de médio/longo prazo, numa perspetiva económica, a sustentabilidade é a solução racional. Sobre o investimento propriamente dito, a empresa refere que no investimento inicial (na construção) se verifica uma diferença que não ultrapassará os 5%. “No entanto, acreditamos que este acréscimo atual tenderá a reduzir-se à medida que a sustentabilidade se torna a regra e não a exceção”, acrescenta a empresa. Por outro lado, trata-se de um diferencial que é facilmente recuperável a médio prazo, “por exemplo, durante a exploração do edifício com consumos energéticos inferiores”. Sobre isso João Rodolfo refere que a Traçado Regulador apenas recomenda investimento em sistemas energéticos com prazos de amortização inferiores a oito anos. “Contudo, todos os nossos projetos contemplam eficiência energética passiva, que possibilite uma classificação energética A+, bem como a possibilidade de implementação futura de sistema de geração de energia para autoconsumo e uma gestão eficaz e coordenada de todos os sistemas que consomem energia”, acrescenta.

E não se trata apenas da gestão da energia. Além disso “é expectável que em breve sejam implementadas taxas para edifícios ‘não verdes’ e com pegada ambiental mais elevada, o que implicará menores impostos futuros sobre os edifícios sustentáveis”. Ou seja, apesar de a opção de sustentabilidade ter impacto no custo, este potencial acréscimo inicial dilui-se ao longo do ciclo de vida do imóvel e tem um retorno palpável.

Portugal tem (ainda) um longo caminho a percorrer

A construção sustentável é um dos parâmetros analisados pelo Global Green Economy Index que, em 2018, considerou que Portugal era o 20.º país europeu com melhor performance na economia verde. No entanto, na opinião da Garcia Garcia ainda há um longo caminho a percorrer. Principalmente se nos compararmos com o centro e Norte da Europa. Mas nem tudo é negativo. A empresa reconhece que o cenário em Portugal tem vindo a melhorar nos últimos anos, “com uma mudança gradual em relação a este tema”. Isto porque as preocupações energéticas e ambientais, tanto por parte das empresas do setor de AEC - Arquitetura, Engenharia e Construção, como por parte dos investidores, começam a estar cada vez mais no topo das agendas. Opinião partilhada por João Rodolfo que acrescenta que Portugal tem adequado a sua legislação no sentido de uma crescente eficiência dos edifícios.

O certo é que há cada vez mais uma maior consciencialização sobre o tema, especialmente por parte dos clientes corporativos. Sendo que, refere a Garcia Garcia, as principais preocupações são a sustentabilidade e redução dos encargos com a exploração do edifício, dado que, na perspetiva do cliente corporativo, um edifício sustentável é capaz de gerar um retorno significativo. “Além do impacto positivo ao nível da imagem institucional, tem uma valorização superior no mercado e uma menor tendência à sua depreciação, custos de operação mais reduzidos e provavelmente estarão no futuro sujeitos a uma menor carga fiscal”, explica a empresa.

Mas não são só os clientes corporativos que começam a mostrar preocupações ambientais. Os clientes residenciais também, e não apenas as que decorrem das imposições legais. Como refere a Garcia Garcia, a procura do mercado imobiliário nacional tem vindo a crescer, com clientes mais exigentes, que sentem a necessidade de incorporar soluções mais sustentáveis. As principais preocupações destes incidem, especialmente, na qualidade do isolamento, nos materiais de construção, na eficiência dos sistemas técnicos instalados e nas energias renováveis.

É inegável as vantagens de pensar na sustentabilidade e eficiência energética dos edifícios logo na parte do projeto. E se isso é algo que começa, a pouco e pouco, a tornar-se habitual, ainda há um longo caminho a percorrer. Sobre isso, João Rodolfo é taxativo: cabe aos projetistas a missão de tornar essa consciência cada vez mais efetiva.

 

Um edifício sustentável, além do impacto positivo ao nível da imagem institucional, tem uma valorização superior no mercado. Garcia garcia design & build

 

 

É expectável que em breve sejam implementadas taxas para edifícios ‘não verdes’ e com pegada ambiental mais elevada. joão rodolfo
CEO da Traçado Regular

 

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