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As rotas da escrita por percorrer

Portugal, país de poetas, terra de escritores, casa de autores. Pessoas que riram, amaram, viveram. Choraram, odiaram, morreram. Vidas por contar, obras por explorar, ruas por percorrer. Há quem organize roteiros para os conhecer. São pequenos capítulos dispersos a serem escritos. Falta completar a obra.

Bruno Simão/Negócios
Diogo Cavaleiro diogocavaleiro@negocios.pt 28 de Março de 2013 às 10:00
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Fernando Pessoa, Almada Negreiros e uma noite de tempestade. Os dois no interior do Martinho da Arcada. O segundo sai do café da capital portuguesa para gritar com a trovoada. Quando regressa, encontra o poeta debaixo de uma mesa, escondido. A história (ou o mito) é contada por um funcionário do estabelecimento do Terreiro do Paço. O açucareiro e a chávena branca, réplicas das que Pessoa utilizava quando ia àquele café, ali estão sobre a mesa. À espera que os visitem.

Há momentos, ruas e espaços a explorar na vida literária de Lisboa – e de Portugal. Fernando Pessoa, José Cardoso Pires, José Saramago, Miguel Torga, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós e Luís de Camões são (apenas) alguns dos nomes em que a vida, a obra e o País se cruzaram. Falta que tal seja divulgado. Não há um plano de investimento geral, mas existem empresas a percorrer os caminhos destes escritores. A Lisboa Autêntica é um dos casos. No próximo sábado, 30 de Março, estreia o passeio "Lisboa com Fernando Pessoa". As curiosidades do poeta dos heterónimos serão reveladas por Fabrizio Boscaglia, italiano estudioso de Pessoa. "Uma redescoberta de Lisboa (Chiado e Baixa) através das palavras de Pessoa dedicadas à capital", antecipa Boscaglia.

"Portugal anda, de uma maneira genérica, a promover Portugal com acções centradas sobretudo no sol e no golfe", critica Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa. A cultura literária, segmento distintivo do país, não é aproveitada, segundo a escritora, que dá como exemplo a seguir a aposta que Praga fez no célebre Franz Kafka. Inês Pedrosa pretende lançar um roteiro do poeta que dá nome à casa que dirige. Há questões logísticas a tornear.

A indicação, através de placas ou sinais, dos locais onde viveram e trabalharam os grandes nomes que escreveram textos e versos portugueses seria uma forma de facilitar um investimento no turismo literário. A casa onde Fernando Pessoa nasceu, no Largo de São Carlos, tem essa sinalização. Nos edifícios onde viveu, trabalhou, namorou e escreveu não existem indicações. Segundo Inês Pedrosa, a autarquia de Lisboa comprometeu-se a assinalar esses locais, "para que o percurso [pessoano] possa ser facilitado a quem não venha em excursões organizadas".

E porque não uma placa a dizer que José Cardoso Pires passava muito tempo no British Bar, para os lados do Cais do Sodré? Esta é a última paragem do passeio Lisboa Literária, organizado pela Lisbon Walker – um percurso que pisa zonas ligadas a Gil Vicente, Padre António Vieira ou Manuel Maria Barbosa du Bocage. A marcação territorial "iria acrescentar algo" à oferta actual do turismo literário, considera também José Antunes, da Lisbon Walker. Mas, na sua opinião, embora haja potencial para o turismo literário, a projecção da língua portuguesa faz com que seja sempre limitado.

A capital não está sozinha nos roteiros literários. Em Coimbra e Sintra, há rotas organizadas pela Cistertour e, em Leiria, também se passeia pelas linhas vividas pelos escritores. Nesta última cidade, a "escolha recaiu sobre os autores leirienses Francisco Rodrigues Lobo, Acácio de Paiva e Afonso Lopes Vieira, bem como Eça de Queirós e Miguel Torga que, por razões profissionais, passaram por Leiria", conta Miguel Narciso, da divisão de acção cultural do município de Leiria. Uma das paragens é no Solar do Barão de Salgueiro. Uma das histórias contadas é a de que o autor de "Os Maias" – que foi administrador do concelho de Leiria – se vestiu de tirolês para um baile de máscaras nesse solar. Corria o ano de 1871. Eça foi ao baile mas decidiu, aí, entrar numa das divisões íntimas da casa com uma senhora. Teve, depois, de abandonar o espaço. Não para gritar com a trovoada. Mas sim porque foi expulso pelo barão.

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