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De portageiro a director jurídico

Luís Geraldes entrou na Brisa há 35 anos para trabalhar nas portagens de Sacavém, as primeiras do País. Hoje é o director jurídico da concessionária. Pelas suas mãos passaram as várias actualizações do contrato de concessão assinado em 1972 com o Estado.

30 de Novembro de 2012 às 12:18

Recém-chegado de Moçambique, com família para sustentar, Luís Geraldes procurava emprego naquele dia de 1977 na Avenida Fontes Pereira de Melo nº 6, em Lisboa, onde se situava, na altura, a sede da Brisa. A empresa, que era então do Estado, estava a admitir mecânicos e portageiros. Como estudava Direito, foi na portagem de Sacavém - a primeira do país, desde os anos 60 explorada pelo Estado - que começou a sua carreira na concessionária, a 12 de Agosto desse mesmo ano. O primeiro lanço de auto-estrada, entre Vila Franca de Xira e o Carregado, construído no âmbito do contrato de concessão assinado com o Estado em 1972, tinha aberto ao tráfego. No seu primeiro dia de trabalho, esse troço inicial da A1 começou a ser operado pela Brisa.

O preço da portagem rondava, então, um escudo e meio, lembra Luís Geraldes. Valor que os automobilistas não se importavam de pagar, já que lhes permitia fazer uma viagem mais tranquila e principalmente evitar a estrada nacional nº 1, permanentemente congestionada. "As pessoas gostavam porque era mais uma auto-estrada, o esquema de atendimento montado era amigável e impressionava-as que um dia fosse possível chegar ao Porto", recorda.

No início, a receita mensal da portagem do Carregado era da ordem dos 80 contos. Em 1981 chegaria aos 2.000 ou 3.000 contos.

Na praça de portagem "era preciso dar ao dedo", conta Luís Geraldes, na altura com 28 anos. A cobrança demorava a processar, o que originava engarrafamentos, principalmente em dias de muito movimento, como eram os fins-de-semana, épocas de caça ou de eventos desportivos. "Quando o carro parava junto da cabine, o portageiro tinha de ver a classe do veículo, carregar no botão de uma máquina de onde saía o bilhete da respectiva classificação, receber o pagamento e dar o troco", explica, sublinhando a rotina e a agilidade de movimentos que ia ganhando com a prática.

Repetia "bom dia e boa viagem" a todos os que passavam pela cabine que ocupava oito horas diárias.

De portageiro a director jurídico

Para compatibilizar as oito horas de trabalho diário na portagem com o curso nocturno na Universidade Clássica de Lisboa, Luís Geraldes trocava turnos com os colegas. Preferia o da meia-noite às oito da manhã.

Em 1979, já aluno do último ano, aproveitou a vaga aberta no núcleo jurídico. "Não havia mais concorrentes", explica, recordando a sua transferência fácil para a sede da empresa. Desde então trabalhou em todas as actualizações do contrato de concessão com o Estado.

Por isso, sabe hoje de cor todos os diplomas que ao longo de 40 anos marcaram a história e as prioridades da concessionária, constituída por escritura pública a 28 de Setembro de 1972.

Recorda, desde logo, o ano de 1985 e o decreto-lei da revisão das bases de concessão, sem o qual a empresa não teria sobrevivido. É que com a crise que estalou no início dessa década, "o Estado devia à Brisa milhões de contos das receitas garantidas que estavam acordadas mas que não pagava", conta, explicando que o esquema de concessão não estava ajustado aos tempos que se vivia. Em 1982, por exemplo, os ordenados na empresa, que era então do Estado, chegaram a ser pagos fora de horas.

O decreto-lei de 1985 "veio alterar todo o esquema económico-financeiro", numa altura em que importava aproveitar os fundos comunitários, o que "deu saúde financeira da empresa", congratula-se.

Nacionalizada depois do 25 de Abril, a Brisa só iniciaria o processo de privatização em 1997. Momento - e diploma - que Luís Geraldes também destaca.

Em 2008, o responsável teve a seu cargo a maior transformação do grupo, resultante da reorganização da estrutura societária que permitiu a transferência da concessão Brisa, os seus activos e passivos, para um veículo próprio, a BCR - Brisa Concessão Rodoviária, criada em 2010. Reestruturação que teve implicações na sua estrutura financeira. No âmbito da renegociação do contrato que foi feita com o Estado, a concessão foi estendida até 31 de Dezembro de 2035. E a Brisa passou, garante Luís Gelardes, a ser "a única concessionária a dar dinheiro ao Estado", já que ficou definido um mecanismo de partilha de receitas do aumento da tarifa com a Estradas de Portugal.

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