Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Francisco Louçã: Tenho hoje uma visão da política mais pragmática e, em certo sentido, mais radical

Francisco Louçã já não é líder do Bloco de Esquerda, mas garante que o Governo tem condições para evitar medidas adicionais ao orçamentado. Uma conversa na sua casa em Lisboa, com um canto cativo para a neta de dois anos.

Miguel Baltazar
  • Assine já 1€/1 mês
  • 26
  • ...
O pragmatismo parece ser a palavra de ordem para as dificuldades da "geringonça". Como o compromisso europeu "não é uma religião de Estado", haverá sempre soluções e alternativas para as exigências de Bruxelas. Francisco Louçã já não é líder do Bloco de Esquerda, mas garante que o Governo tem condições para evitar medidas adicionais ao orçamentado. O que não vê como possível é que se ganhe margem orçamental sem uma reestruturação da dívida. Ainda assim tem uma solução para acabar com o défice. Uma conversa no escritório da sua casa em Lisboa, com um canto cativo para a neta de dois anos. Viagem pelo percurso e pelo pensamento de um político e economista que conhece, como poucos, os bastidores da maioria de esquerda.


Qual é a sua memória mais antiga?

Fui com dois anos para Moçambique. O meu avô estava lá exilado, a minha mãe tinha nascido lá e o meu pai era lá militar. Estive em Moçambique dos dois aos cinco anos e tenho algumas memórias, mas podem ser um pouco implantadas por filmes que reproduzem brincadeiras de miúdo. Há coisas de que me lembro: de andar na rua, dos elefantes do circo que passavam à frente de casa, de um leopardo bebé que foi adoptado por uma família vizinha.

 

Como foi a sua infância?

Voltámos com os meus pais para Lisboa no princípio dos anos 60 e fiz a escola primária aqui. Depois fui para o primeiro ano de um liceu novo, o Padre António Vieira, onde fiz o ensino secundário. A seguir fui para Económicas, apanhando já os últimos anos do fim da ditadura, a morte do Salazar e o fim do marcelismo.

 

Fala de um contorno político e estudantil, mas como era a vida familiar, os amigos?

Era muito marcada pela escola, era a nossa comunidade. A minha família tinha algumas particularidades. Ainda conheci o Cunha Leal, que foi um homem muito importante na história da Direita durante a I República, mas depois também na oposição à ditadura. Era amigo dos meus pais e dos meus avós. Havia uma intercepção da história de todo o século XX na história da nossa família. Mas, como sempre, os adolescentes descobriam a vida por si próprios e isso era feito na escola. Caso dos primeiros protestos contra a guerra colonial. Cruzei-me com pessoas fascinantes. O Nuno Teotónio Pereira, o Miguel, filho dele, era um dos meus melhores amigos no liceu. Conheci bem esse grupo de católicos progressistas.

 

O facto de ser filho de um militar deu-lhe alguma disciplina especial?

Não sei. O meu pai mantinha muito separada a vida profissional da vida familiar e não me lembro de termos muitas conversas sobre a vida profissional. Fui visitá-lo quando esteve uns anos na Guiné. Passei lá umas férias de Natal, quando tinha 15 anos, em 1972.  Foi uma visita muito impressionante porque de noite ouviam-se os tiros de canhão à volta de Bissau, que estava cercada. A ideia muito presente no meu pai era a ideia da integridade, da palavra dada, mas nunca aproximou os filhos da vida militar. 

 

E politicamente?

Naquela altura, nas famílias de classe média, as conversas eram muito discretas, mas era um ambiente de oposição porque todas estas histórias eram partilhadas: as várias vezes que o meu avô tinha estado preso, a deportação. Depois fui descobrindo algumas histórias de família, por exemplo que Humberto Delgado foi clandestinamente a Moçambique para encontrar o meu avô e para encontrar Almeida Santos. A ideia era preparar aquela revolução falhada que ele pensava que podia fazer em Moçambique. Na família do meu pai, que vem de Silves, um centro importante de oposição no princípio do século, descobrimos mais tarde que dois tios fizeram parte do Partido Comunista. A política entrava de qualquer modo porque quem tinha 14, 15 anos sabia que aos 18 anos ia para a guerra colonial. Conseguia o adiamento se estivesse na universidade, que era a nossa expectativa, mas sabíamos que iríamos para a guerra colonial.

 

E a sua mãe, advogada, que influência lhe deixou?

A minha mãe era a pessoa mais presente na família porque o meu pai estava muitas vezes fora durante muito tempo. Era a presença dominante. Somos cinco filhos, portanto era uma grande família e ela acompanhou-nos muito.

 

Que consciência tem do que ela lhe transmitiu de mais forte?

Ela tem o melhor que os advogados têm: um sentido muito forte da justiça, não como um valor privado, mas como uma reclamação pública, como uma forma de exigir direito, regras. Tive um processo disciplinar no liceu por causa de uma greve e ela teve uma participação grande, com o padre Max, que era meu professor e fez parte da nossa defesa. Eu e alguns colegas fomos acusados e suspensos e eu senti que já não era só um sentido de protecção familiar, era mais do que isso.

cotacao Catarina Martins tem enormes vantagens sobre mim. É encantadora, forte, sabe o que quer. Os adversários que a subestimaram cometeram um erro tremendo.

Um sentido argumentativo, também?

Aí, não sei porque, em adolescente, nunca contactei muito com as peças jurídicas. Contactava mais com a forma como os meus pais estavam na vida quotidiana. Eram universos muitos cruzados. Ainda tenho o cartão que o Marcelo Caetano escreveu à minha mãe quando eu nasci. Ela era das primeiras alunas da Faculdade de Direito, não havia muitas mulheres nessa altura. Ele era professor, eram muito poucos alunos e os professores acompanhavam as suas vidas. Cheguei a conhecer Marcelo.

 

Quem diria…

O mundo era muito pequeno, mas isso também nos dava uma percepção da fragilidade da ditadura. O Fernando Rosas, que é mais velho do que eu, conta aquela história do professor que na primeira aula, na Faculdade de Direito de Lisboa, lia o nome dos alunos e perguntava como está o pai ou o tio a cada um deles. Todos eram de famílias conhecidas, não havia muita gente.

 

Conheceu Marcelo Caetano mais tarde.

Nos anos 70, numa recepção organizada por uns amigos da minha mãe, que eram pessoas próximas do regime. Foi uma conversa normalíssima, nada de especial.

 

Cursou Economia porquê?

Achava que a Economia era a chave para perceber o sistema capitalista, a economia moderna, as grandes forças que se moviam no globo e que determinavam as grandes opções.

 

História era um desperdício porquê? Também podia servir o mesmo objectivo…

Também serve. Mas achava que era preciso perceber a mecânica das grandes forças que moviam o mundo. E isso era a economia. A História era uma parte da Economia.

 

Em 1973, aderiu à LCI (Liga Comunista Internacionalista). Estaria mais destinado a aderir ao PCP, tendo em conta algumas ligações familiares. Ou não?

Não. A história do Partido Comunista na minha família é do principio do século. O meu avô materno tinha participado no congresso da fundação em 1921. Era anarcossindicalista e afastou-se logo a seguir. Os tios do lado do meu pai, não os conheci. Havia um amigo meu na escola, um pouco mais velho, que entregava o Avante, que eu lia com atenção… Mas, nos anos 70, a URSS não era muito atractiva para quem olhava para a revolução do Maio de 68, para a descoberta da liberdade sexual, da fraternidade, do internacionalismo, para a memória de Che Guevara… O Brejnev, com franqueza, estava preso no discurso da coexistência pacífica, ao mesmo tempo que o Vietname estava a ser bombardeado e que os vietnamitas estavam a conquistar Saigão.

 

Como é que se definia politicamente?

Considerava-me um revolucionário anticolonialista. Pelo contacto que tinha com esses grupos de católicos e com dirigentes associativos, Ferro Rodrigues e outros, cheguei a ser convidado para participar no que ainda não tinha nome e mais tarde veio a ser o MES [Movimento de Esquerda Socialista]. Mas atraía-me mais a ideia de uma organização internacional. A LCI tinha acabado de se formar, conheci no movimento estudantil alguns dos seus animadores… Mais tarde, este corpo originário estaria também na base do PSR [Partido Socialista Revolucionário].

 

O mundo mudou muito, mas Francisco Louçã mudou assim tanto?

Sou fiel aos mesmos valores, princípios e preocupações. Tenho hoje uma visão da política mais pragmática e, em certo sentido, mais radical. Conheço um pouco melhor como o mundo funciona e como funcionam os poderes, que eu via como o Dom Quixote olhava para os moinhos e para os gigantes que eles representavam. Conhecer melhor a máquina implacável que é o sistema de submissão dos povos, a extracção financeira, o funcionamento da Goldman Sachs…

 

Isso tornou-o mais radical?

Radical no sentido de que perceber melhor como funcionam estes poderes exige mais da resposta política do que a vontade romântica ou o acto de vontade dos anos 70. A minha geração foi muito marcada pelo Maio de 68, pela tragédia da vitória de Pinochet contra Allende. Marcada também por grandes esperanças. Viajei em 1978 para o Brasil, conheci Lula e acompanhei o início da formação do PT [Partido dos Trabalhadores], na altura ainda com regras de clandestinidade, visitei a Argentina, o Chile e o Paraguai, onde contactei com grupos que se estavam a formar… Tudo isso eram possibilidades de derrubar ditaduras, que se concretizaram. Eram coisas novas que surgiam e rompiam as amarras das estruturas políticas tradicionais. Tudo era possível nessa altura.

 

Continua a sentir-se um revolucionário? Ou é mais pragmático?

A ideia socialista é fortíssima.

 

Ainda?

Talvez mais agora do que antes. Antes era uma emergência, agora é a civilização. Estamos a perder tudo, estamos a perder tudo…

 

Mas não assistimos todos ao falhanço do socialismo e da social-democracia?

Sim…

 

Sem resposta.

Em certa medida, nunca houve. A resposta tem de ser construída pela realidade social. Só uma democracia viva pode construir a capacidade e a imaginação que um povo pode organizar. O fracasso dos regimes de Leste não foi uma surpresa para mim porque nasci numa experiência política que era muito crítica de um comunismo banido. Os revolucionários foram assassinados por Estaline. O fracasso da experiência chinesa é muito evidente. E o da social-democracia também.

 

Parece estar tudo a desabar. Ou não?

Temos edifícios que desabam sucessivamente. Alguns têm uma grande capacidade de recuperação. O neoliberalismo desabou com o "crash" do "subprime", em 2007. Houve uma vergonha enorme com a desregulação…

 

Mas reconstruiu-se rapidamente.

Essa é a grande diferença de 1929. O paradigma neoliberal morreu e o keynesianismo ascendeu. Surgiu um novo receituário de formas de organização social e económica. Na crise 2007/2008, a reconstrução trouxe uma maior agressividade.

 

Que resposta se está a organizar?

Neste momento, não temos nenhuma. Estamos a levantar os escombros. Um dos mais arriscados é o que vivemos na União Europeia. A política de austeridade que foi organizada como protecção das periferias da UE é o factor principal da sua desagregação e dos seus erros políticos.

cotacao Ninguém deve estar demasiados anos no Parlamento. Estive lá 13 anos e acho que foi muito tempo.

A UE é recuperável?

Tem um principio de desagregação e uma enorme força institucional. Não se pode cometer o erro de subestimar a enorme força institucional. Mas não tem salvação possível. Acho que está perdida. Os incentivos para a organização de um sistema de austeridade funcionam promovendo essa escolha política na Alemanha. E, portanto, não haverá mudança. Há 10 anos, o rendimento "per capita" da Alemanha era 180% do português. Agora é 220%. Daqui a uns anos será ainda mais. A UE podia resultar se ela fosse um processo de convergência, lento, disciplinado, hierarquizado, mas um processo de convergência. Se é um processo de divergência entre o centro da Europa e o resto, a sua fragmentação é inevitável.

 

E a Alemanha?

A Alemanha é a única direcção política forte. Não há outra. Não haverá reversão das políticas porque o incentivo para as continuar por parte dos vencedores é muito forte. Não há nenhuma razão política para que a Alemanha altere o seu entendimento da UE e das regras de decisão. Estas regras permitem-lhe uma grande acumulação de capital, financiar-se a 0%, transformar-se num centro financeiro que não era, melhorar a competitividade da sua economia e ter uma política redistributiva que tem um consenso razoável.

 

E, no entanto, o sector financeiro alemão também corre riscos.

Curiosamente, o FMI dizia que há um risco sistémico para a Europa dos sistemas bancários português e italiano. Antes, tinha falado do Deutsche Bank. Este é o principal risco sistémico para a Europa. E o Santander, em alguma medida, também. Porque tem uma exposição enorme a produtos especulativos. O valor nocional dos derivados do Deutsche Bank é de 52 triliões de dólares, que é mais do que o PIB mundial, três vezes o PIB dos EUA. É um valor nocional, não é um valor real de mercado. Quando há uma exposição desta ordem, significa que uma perda proporcionalmente pequena é tão grande que pode desencadear efeitos dominó nos mercados financeiros.

 

O sistema financeiro é o principal inimigo de si próprio?

É inimigo de si próprio, mas tem enormes capacidades de influência política, que permitem o resgate dos bancos perante as dificuldades. O sistema bancário é o único sistema que funciona com capitais de 8 ou 10%. Nenhuma outra empresa poderia ter uma cobertura de capital sobre a sua operação desta medida porque, tecnicamente, significaria que estava falida. O sistema bancário funciona assim porque tem a confiança e o suporte do emprestador que, em última instância, são os bancos centrais. A regra é completamente anormal dentro do conjunto das actividades económicas no sistema capitalista.

 

É um exagero dizer que é o sistema financeiro que governa o mundo?

É inteiramente verdade. É determinante das opções da condução da política e transformou as economias modernas em economias extractivas. O que importa para determinar a rentabilidade das empresas a longo prazo é a sua capacidade de obtenção de rendas.

 

O endividamento é um aliado do sistema financeiro?

O endividamento e estas valorizações que a desregulação permitiu. Como é possível que se possa ter um capital de 1 bilião de dólares e fazer emissões de dívida 2.225 vezes maior do que o capital que lhe dá suporte? Isso é possível. Se esta empresa perder 0,0003%, vai à falência.

 

Depois de tantos anos de liderança partidária, de palco parlamentar, como é deixar de estar na primeira linha?

Gostei muito do que fiz. Fi-lo sem nenhum sacrifício. Foram muitos milhões de quilómetros, uma vida pesada, mas com gosto. Ninguém deve estar demasiados anos no Parlamento. Excluo desta referência os fundadores da democracia, respeito muito essa geração. Agora, no século XXI, este princípio republicano é muito importante. Estive lá 13 anos e acho que foi muito tempo. Deve-se ter uma profissão, uma relação com a sociedade que seja independente do partido e do cargo político. Também no BE achei que era importante conduzir um processo de renovação de gerações. Foi um processo dificílimo.

 

Porquê?

Porque, havendo figuras fortes que são a imagem do partido, a mudança é muito difícil para as pessoas que chegam. Foi o João Semedo, que depois teve se afastar por razões de saúde conhecidas e que teve um papel valiosíssimo. Foi também a Catarina Martins, que foi muito desprezada na altura.

 

Quem deu o empurrão a Catarina Martins nessa fase? Francisco Louçã?

Vi com gosto o risco que ela correu. Tinha a certeza que ia resultar. Acarinhei muito essa solução. Apoiei-a muito. Outras pessoas perceberam-no. Houve quem não o percebesse, na esquerda e mesmo no Bloco. Hoje, os factos são mais fortes do que qualquer argumento. Na Europa houve outros partidos que fracassaram nessa transição.

 

Era um risco?

Um risco enorme.

 

E, no entanto, os resultados que conseguiu nas legislativas foram os melhores de sempre. Não vai dizer que não ficou surpreendido?

Em termos públicos, certamente. Para mim, não é nenhuma surpresa a capacidade que revelou. Quando a apoiei sabia que havia uma combinação raríssima de capacidade de trabalho, de comunicação, de profundidade. Basta ver o que Catarina foi capaz de fazer nos debates com Paulo Portas, António Costa e Passos Coelho…

 

Não era assim Catarina Martins.

Não era. Mas isso significa capacidade de aprender. Tudo o que ela fez é o que ela tem e é o que ela sabe desenvolver. Não há políticos artificiais ao nível de responsabilidade que ela tem.

 

Que há de Francisco Louçã em Catarina Martins?

Acho que é uma pessoa muito diferente, que representa uma liderança muito distinta, tem enormes vantagens sobre mim. É encantadora, forte, sabe o que quer. Os adversários que a subestimaram cometeram um erro tremendo.

 

Qual é hoje o seu papel na política?

Fiz questão de não fazer parte de nenhum órgão de direcção do BE, colaboro em iniciativas, falo muito com as pessoas.

 

Pedem-lhe conselhos?

Conselhos é um termo um bocado pesado. Conselhos dou a Marcelo Rebelo de Sousa porque faço parte do Conselho de Estado. Discutimos algumas coisas, por razões técnicas ou outras, acompanho, digo o que penso, mas não tenho nenhum papel na decisão política quotidiana. Não tenho nenhum poder político, mas sei que faço parte de uma corrente que tem muita influência.

 

Alguma vez lhe tinha passado pela cabeça apoiar um governo do PS?

Em anos anteriores, tivemos várias discussões sobre a possibilidade de "geringonça", chamemos-lhe assim. Tínhamos um sector – que depois saiu do Bloco e foi muito agressivo contra o Bloco nas últimas eleições, o Livre – que genuinamente queria fazer isso, mas com uma estratégia oposta à do BE, que era a de integração e subordinação política. Creio que a estratégia do BE provou que a única possibilidade de triunfar era conseguir uma relação de forças. Lembro-me de discutir com o Miguel Portas, em 2005, quando o governo PS sucedeu a Santana Lopes. A tomada de posse foi numa manhã de domingo, creio, e um grupo de dirigentes do Bloco almoçou com o governo, incluindo José Sócrates. Tinha maioria absoluta, por isso não se discutiram formas de participação no governo, mas discutiram-se formas de colaboração que todos pensávamos que podiam ser importantes. Discutimos o referendo ao aborto, que poucos anos mais tarde fizemos triunfar e que não era uma opção fácil porque o PCP opunha-se e a direita também, o Presidente Cavaco era uma surpresa e o Tribunal Constitucional podia criar obstáculos. Gerir este processo foi de uma enorme argúcia política e de uma enorme lealdade política em muitas iniciativas. Lembro-me de ter falado com deputados do PSD, Passos Coelho incluído, para que viessem a protagonizar o sim. Miguel Relvas e outros fizeram-no. Mas o que estava em cima da mesa era se podia haver uma cooperação com o governo que assumisse outras formas. Tínhamos muitas reservas, mas não a excluíamos.

 

Qual era a receptividade do PS?

O governo tinha um enorme interesse, apesar de dispor de maioria absoluta.

 

Isso repetiu-se no segundo governo, já sem maioria absoluta?

Não, porque essa discussão dependeria do que se conseguisse fazer. E o conflito com os professores surgiu muito depressa, surgiu um conflito forte sobre o contrato de trabalho que até levou alguns deputados do PS a tomarem uma posição muito mais próxima da esquerda do que de José Sócrates, e sobretudo a crise financeira de 2007 desencadeou um processo de subordinação de Portugal a uma lógica de protecção do sistema financeiro.

 

A tentativa de aproximação ficou por ali?

Foi abertamente discutido se se podia ter ou não um caminho que avançasse, havia pontes com o governo, relação excelente com António Costa, ministro da Justiça. Luís Fazenda conduzia esse processo e, uma vez, disse-me que não houve uma única lei que António Costa propusesse sobre a qual não tivéssemos chegado a acordo. Foi com António Costa que eu e o Miguel Portas negociámos a lei sobre a droga, que foi das primeiras leis que o Bloco conseguiu fazer aprovar. Depois, a discussão política é o que é. Nós não tínhamos nenhuma obrigação, o governo também não, e houve confrontos muito fortes.

cotacao O Governo tem sido muito fiel aos compromissos que assinou. O principal defeito é a sua vulnerabilidade em relação à chantagem de Bruxelas. [...] Bruxelas queria uma privatização parcial da CGD.

Já a experiência com António Costa na Câmara de Lisboa foi diferente.

Foi, porque aí António Costa – para dizer isto de uma forma simpática – captou, sob a sua asa, um vereador independente que tinha sido eleito pelo Bloco e isso é um acto de conflito político que deixou marcas.

 

Feito esse caminho, nas últimas eleições, não ficou surpreendido com a evolução, com o primeiro sinal da "geringonça" dado pelo PCP?

Não é bem verdade. Creio que o primeiro sinal foi dado pela Catarina Martins no debate com o António Costa. Sem resposta, porque na altura não podia haver resposta.

 

Isso foi antes das eleições. Mas depois, perante os resultados, o primeiro sinal veio do PCP.

Durante o fim-de-semana das eleições é conhecido que houve alguns contactos entre o Bloco e o PS para saber o que poderia acontecer. Houve mesmo encontros formais, na presunção de que as últimas sondagens davam a indicação de uma aproximação de resultados e que a esquerda com o PS poderia ser superior. Depois desse fim-de-semana, o PCP dá um sinal muito interessante porque faz uma reunião com o PS. Para o BE, era importantíssimo que fosse o PCP o primeiro a reunir. Porque, se fosse ao contrário, o Bloco já tinha uma questão em curso com o PS e se desse um sinal de que era possível concretizar um acordo – conhecendo o PCP como conhece –, ele ficaria encostado à parede porque a sua resposta estava condicionada por uma decisão prévia dos outros partidos. Era uma espécie de ultimato ao PC. Sabendo como se deve tratar com o PC, deixar-lhe o campo aberto para fazer a sua escolha era sempre a estratégia mais inteligente. Foi isso que o BE fez e fez outra coisa: propor uma reunião técnica com o PS para avançar logo com a discussão concreta. O PS preferia uma discussão política entre a Catarina e o António Costa e o Bloco, o que fez foi adiar isso para depois da reunião com o PSD. Naquela semana, havia uma grande incerteza. Havia sinais com o BE que ainda não eram públicos, havia a reunião pública com o PC, mas o Presidente ia nomear Passos Coelho. E António Costa tinha deixado em aberto a possibilidade de se abster... Havia, portanto, uma enorme reserva em relação ao PS. Ao propor que a reunião fosse depois do PSD, o BE exigia que todos os trunfos fossem postos em cima da mesa. Se a intenção do PS fosse aceitar a regra tradicional e deixar o PSD governar, o assunto morria. Como a reunião entre o PS e o PSD não resultou, Catarina Martins disse: "O governo Passos Coelho morreu hoje." O que era tomar por certo coisas que estavam em curso, mas era forçar esse curso também. Ela já tinha a certeza que António Costa aceitava as três condições do tal debate da campanha eleitoral.

 

E o PCP?

A partir da declaração formal de Jerónimo de Sousa, estava plenamente integrado nesse processo.

 

Mas nunca estiveram a três?

Não. É algo apenas explicável por razões internas ao PCP. Acho que é prejudicial ao Partido Comunista e ao Bloco. Permite ao PS ter um papel de pivô na negociação com um e depois com outro, dá-lhe uma enorme vantagem. Havendo reuniões a três, haveria uma total transparência. A questão da eleição para o Tribunal Constitucional (TC) nunca teria acontecido.

 

Porquê? O PCP queixa-se de nem sequer ter havido reunião a dois.

Não sei se é verdade. Mas se houvesse reuniões a três…

 

Havia já esse compromisso com o BE em relação ao TC?

Claro!

 

Antes do governo entrar em funções?

Claro. A indicação que o PS deu foi que, havendo eleições parlamentares para uma parte do Conselho Superior do Ministério Público e do Tribunal Constitucional, aceitaria ceder um lugar no CSMP e um lugar no TC. Para o BE, não é nada de novo. Tinha sido negociado. O PS até disse que era razoável do ponto de vista institucional, pela ordem dos partidos. Daria um lugar ao PCP no CSMP e um lugar ao BE no TC. Se houve protesto do PCP, isso sugere que o PS não teria informado o PCP. Se assim foi, o PS fez muito mal.

 

Qual é o principal defeito e a principal virtude deste governo?

O Governo tem sido muito fiel aos compromissos que assinou. O principal defeito é a sua vulnerabilidade em relação à chantagem de Bruxelas. Mas até acho que se tem batido muito bem em relação à CGD, por exemplo. Bruxelas queria uma privatização parcial.

 

Tem a certeza?

Absoluta. Até agora, tem resistido bem. A razão para o atraso é apenas pressão política do BCE e da Direcção-Geral da Concorrência. O Governo quer uma recapitalização exclusivamente pública e o Presidente também. E ainda bem. Em algumas matérias dessa chantagem, acho que o Governo se bateu bem, como é o caso também das sanções. Mas a fragilidade do nosso país torna-o vulnerável à pressão e ao ultimato.

 

A questão europeia parece ser uma contradição insanável na maioria. É o que separa O PS do BE e do PCP. Isso significa que este Governo está condenado?

Não. De todo. Nos dossiês concretos, o Governo tem resistido bem.

 

O compromisso europeu não é, em si próprio, uma contradição na "geringonça"?

Do ponto de vista declarativo, sim, se fosse tratado como uma espécie de religião de Estado. Se o tratarem, como até agora, de uma forma muito pragmática, não.

 

Medidas adicionais, exigências para o Orçamento de 2017…

O Governo está em condições de poder evitar medidas adicionais, sobretudo aquelas que não são permitidas pelos acordos, nomeadamente aumentos de impostos sobre as pessoas.

 

É a linha de fractura? Se o Governo ceder, acaba o entendimento?

Seria um erro. E não estou a ver nenhum dos protagonistas desta maioria a procurar linhas de fractura e a temer que o céu lhes caia em cima da cabeça.

 

Perante uma dificuldade que possa surgir…

Inventarão uma solução. Terão a capacidade e a inteligência de se bater por soluções. Se o Governo fosse confrontado com a exigência de privatização da Segurança Social – já não são metas orçamentais, mas princípios (o que não é impossível na UE) –, isso seria um ultimato extremo, mas isso não aconteceu.

 

Não há linhas vermelhas inultrapassáveis?

Deve sempre encontrar soluções que permitam ou a mobilização da opinião pública para uma resposta consistente ou a criação de relações de força na Europa para as negociações que forem possíveis, mas sobretudo tem de confiar na sua capacidade de encontrar alternativas. Mas há um limite para estes jogos de empurra sobre as políticas orçamentais. Se me perguntar se, nestes quatro anos, Portugal consegue recompor a sua margem orçamental se não tiver ganhos significativos numa reestruturação da dívida, isso acho que não é possível.

 

A reestruturação da dívida é uma exigência?

Há muitas reestruturações possíveis. Precisamos de uma que nos permita abolir o défice. Bastaria a combinação de uma devolução dos lucros que o BCE faz com a dívida pública portuguesa com a redução dos juros sobre o "stock" da dívida ao nível do que eles são financiados. Ou seja, bastaria o Mecanismo Europeu não ter lucros sobre a dívida portuguesa para que o nosso défice passasse a ser zero. Deixaríamos de precisar de nos financiar, a não ser para operações correntes. Só precisaríamos de gerir o financiamento que temos para a dívida anterior. Que diferença isto faria para a economia portuguesa!

 

Se houver um bloqueio, não poderá ser útil uma clarificação eleitoral? Tem-se falado em crise política. Parece haver uma certa vertigem eleitoral…

Esse é o sonho do PSD.

 

A esquerda não sairia mais forte se houvesse eleições?

Não. Qualquer calculismo sobre um jogo político de ganhos de curto-prazo está totalmente afastado na actuação dos partidos de esquerda. O que esta experiência terá de demonstrar é que um partido como o BE é capaz de governar, de fazer opções fundamentais, de ter uma visão consistente para a sociedade portuguesa. E que sabe fazê-lo com gente preparada, com inteligência e pragmatismo.

 

BE e PCP podem vir a partilhar o Governo? Será uma resposta a uma dificuldade que surja?

Não há razão para fazer antecipações desse tipo. É preciso prosseguir um caminho de solidez, de grande respeito pelos trabalhadores, de fidelidade aos compromissos eleitorais. O Bloco tem de ter as pessoas mais capazes de serem os mais competentes ministros e as pessoas mais capazes de serem dirigentes do movimento social e da representação da República.

cotacao Marcelo foi eleito como um anti-Cavaco. Desde então, tem sido um factor de estabilidade política.

O BE não esconde que a sua ambição é ultrapassar o PS, de ser governo de modo próprio…

Todos os partidos têm a ambição de ser governo. Não creio que o BE possa colocar nos próximos anos a ambição de superar o PS. Tem 10% e depois de 10 tem de chegar a 20. Esse crescimento não se faz por magias eleitorais. Faz-se com muita implantação social, muita capacidade de representação, de liderança. Está a fazê-lo, mas está a começar.

 

Que avaliação faz do desempenho do Presidente da República?

Marcelo foi eleito como um anti-Cavaco. Desde então tem sido um factor de estabilidade política.

 

Quando olham para si, há quem diga que é um racional puro, que não deixa transparecer grandes emoções. São injustos consigo?

Não é preciso ler António Damásio para saber que não há razão sem emoção. Nós somos latinos e vivemos grandes emoções. O que é preciso nas situações difíceis é manter a cabeça fria. Uma coisa é ser um dirigente político e estar a tomar decisões, outra é a vida muito diferente que tenho hoje.

 

O que é que o diverte?

Acima de tudo, a minha neta, que está a aprender a falar. Fez dois anos. Noutro dia, ao jantar, perguntada sobre se tinha sido ela a fazer uma coisa qualquer respondeu: talvez. Foi a primeira vez que usou a palavra. Encantadora, a descoberta da subtileza!

 

Que anda a ler?

Estou a ler o último Vargas Llosa. Não é dos melhores. Mas é uma figura fascinante, paradoxal, estranha, mas é um grande escritor.

 

E a escrever?

Estou a acabar de escrever um livro sobre o sistema financeiro sombra com Michael Ash, director da Faculdade de Economia da Universidade de Massachusetts. E estou a trabalhar noutro livro com o João Teixeira Lopes e a Lígia Franco sobre as classes populares.

 

E a ouvir?

Estive há pouco tempo em Nova Orleães e ando a ouvir sobretudo jazz. Ana Moura também é uma das preferidas cá de casa..

 

Qual foi a sua grande vitória política?

Consegui meio milhão de votos numa campanha eleitoral do BE. Mas acho que a campanha presidencial foi mais bem conseguida.

 

Esse capítulo está encerrado ou pode reabrir-se?

De certeza que não serei candidato contra Cavaco Silva.

 

Mas pode ser contra outro.

Isso logo veremos. 


Ver comentários
Saber mais Bruxelas Francisco Louçã Portugal Catarina Martins Bloco de Esquerda Marcelo Cavaco geringonça Sócrates
Mais lidas
Outras Notícias