Opinião Ideias SPAM

Ideias SPAM

Circulam por aí umas ideias, repetidas por muita gente, que são verdadeiro lixo. Uma espécie de "spam" mental. Como o espaço é curto escolhi três.
Leonel Moura 01 de junho de 2012 às 12:21
Circulam por aí umas ideias, repetidas por muita gente, que são verdadeiro lixo. Uma espécie de "spam" mental. Como o espaço é curto escolhi três.

A primeira diz que as crises são oportunidades. Como é evidente, não são. Pelo contrário. Sendo certo que existem oportunidades pontuais em todas as circunstâncias, um ambiente de crise económica diminui drasticamente a possibilidade de elas surgirem. A estagnação da atividade, o empobrecimento generalizado, a falta de confiança, limitam brutalmente qualquer iniciativa, sobretudo daqueles que se encontram em maiores dificuldades. Acresce que as poucas oportunidades que surgem são geralmente negativas. Sim, hoje é mais fácil arranjar quem trabalhe por menos dinheiro. Mas esse tipo de "oportunidade" tem outro nome, chama-se oportunismo.

A declaração de Passos Coelho de que estar desempregado deve ser visto como uma oportunidade para mudar de emprego insere-se no referido "spam" mental. É uma parvoíce pegada. Também se pode dizer que partir uma perna é uma boa oportunidade para aprender a andar de canadianas. Mas sobretudo, esta ideia do primeiro-ministro, não corresponde a qualquer realidade concreta. Passos Coelho sabe, pelos números que tem, que o problema está precisamente no facto de que ao desemprego se junta a inexistência de novos empregos. Quem fica sem trabalho tem cada vez menos possibilidade de encontrar outro.

O discurso da oportunidade não é por isso muito diferente daqueles "e-mails" que prometem empréstimos ou quando alguém na Nigéria precisa urgentemente de depositar alguns milhões na nossa conta. Trata-se de uma fraude. Porque não existem oportunidades sem contexto. E hoje estamos precisamente no contexto em que se esgotaram as oportunidades.

A segunda ideia lixo trata do empreendedorismo. Estamos de acordo que é preciso estimular o empreendedorismo, mas diz-se por aí, e desde logo pela voz do próprio primeiro-ministro, que jovens, desempregados e portugueses em geral, deviam criar os seus próprios negócios em vez de aturarem patrões. Ou seja, imagina-se um país com milhares de pequenos negócios, a fazer pequenas coisas. Uma gigantesca feira da ladra portanto.

Ora, mais do que negócios em quantidade, falta escala aos que existem. Isto é tudo muito pequenino. É preciso criar empresas com dimensão suficiente, em capacidade financeira e talentos, para agir no mundo. Mais do que promover o pequeno empreendedor, é necessário acrescentar ideias e capacidades ao que já existe ou se possa constituir com ambição e escala. Em vez de irmos todos abrir bancas para vender nabiças e artesanato, precisamos de empresas de tecnologia e inovação que reunam os melhores cérebros, e isto sem olhar a nacionalidades que é outro dos dramas de quem vê pequeno e local.

Comparo, aliás, esta situação com aquilo que acontece na arte. Qualquer pessoa que compra dez quadros quer logo fazer um Museu com o seu nome. Por isso Portugal está cheio deles e da sua irrelevância. Mais importante seria doar e juntar essas obras num grande Museu capaz de atrair visitantes pela qualidade e variedade. O empreendedorismo é importante, mas a escala e a sinergia ainda o são mais.

Por fim, uma terceira ideia que se tornou numa verdadeira praga. A do marketing. Com o argumento de que os portugueses não sabem montar um negócio, e isso como vimos é tido por imperioso, criaram-se dezenas de escolas e milhares de cursos de marketing. E aqui permita-se que abra um parêntesis. A ideia base do marketing insere-se no processo de infantilização da nossa sociedade. Em vez de vender, trata-se de criar no consumidor a sensação de que ele não pode viver sem aquele produto e portanto quem vende está a prestar um inestimável serviço. Enfim, tolices do nosso tempo. Fecho o parêntesis.

A questão do excesso de oferta em marketing é simples. Nunca em Portugal existiram tantos cursos e tanta gente altamente qualificada em marketing. Sabem embrulhar o produto, ludibriar o consumidor, inventar necessidades que não existem. Só que o problema é outro. Não há nada para vender.



Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.




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