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Laurent Filipe: Somos o país das rotundas, onde andamos às voltas sem saber como sair

Não tinha planeado lançar mais discos nem fazer uma retrospectiva e por isso Laurent Filipe chamou ao seu álbum “As (Im)prováveis”.

Miguel Baltazar
Susana Moreira Marques 30 de Setembro de 2016 às 14:00
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Laurent Filipe lançou recentemente um disco onde reúne canções de toda a sua carreira. São canções que mostram a sua faceta de autor. São canções em muitas línguas que acabam por contar uma história de quem se dividiu por dois continentes, muitos mais países, vários amores por várias línguas. Não tinha planeado lançar mais discos nem fazer uma retrospectiva e por isso chamou ao álbum "As (Im)prováveis". Depois de tantas voltas, acabou por ficar em Portugal, e, dentro de Portugal, instalou-se em Vila Real, onde quer clarificar e requalificar - para usar uma palavra na moda - os caminhos do Douro. Talvez se possa definir como um gestor cultural ou um criador de projectos. De vez em quando, faz uns biscates como actor. A música é agora intermitente na sua vida. Mas continua a tocar trompete todos os dias, como um atleta que precisa de manter a forma, o que o liga à vida.


1. Os discos são sempre um retrato: podem ser uma polaroid, um instantâneo ou, então, como no caso deste disco, uma retrato mais reflectido. Eu tinha muito material e estas músicas pareceram-me as mais apresentáveis, as mais prováveis. São aquelas que representam trinta anos de escrita, de música e letras. É uma espécie de retrospectiva. E uma forma de pôr mais um ponto no fim de um parágrafo. Por outro lado, era pouco provável que eu viesse a editar um disco na sequência dos 16 ou 17 que já editei, numa altura em que o mercado é tudo menos promissor em relação à edição discográfica e numa altura em que a música deixou de ser a minha actividade principal. O disco chama-se "As (Im)prováveis", porque de facto não estava previsto eu editar mais um álbum.

2. Cresci nos bastidores do teatro e do cinema. O meu pai é actor e era extremamente activo nos anos 60 e 70. A minha mãe é produtora e trabalhou muito em cinema.
Em nossa casa, passavam muitos escritores, actores, realizadores, compositores... Na década de 70, a nossa casa parecia um centro cultural onde vinham pessoas como o Mário Viegas, o António Victorino d' Almeida, o Fonseca e Costa... Para mim, era muito natural que se ficasse até às duas da manhã, a beber, a fumar, a discutir...
No liceu, fiz um pouco de teatro, mas o meu pai, na brincadeira, dizia: "Ah, não tens jeito nenhum para ser actor" ou "Ah, não te metas nisso". Acho que a música serviu-me como um circuito paralelo para a minha afirmação de adolescente.
Por volta dos 13 anos, fiquei fascinado pela música. O pai de uns amigos meus tinha em casa uma panóplia de instrumentos e discos e isso influenciou-me. Nessa idade, é-se facilmente influenciável. É esse período muito breve, entre os 12 e os 16 anos, que vai muitas vezes definir aquilo que uma pessoa faz.
A música foi a minha paixão. A música serviu-me sempre de farol, de orientação. Não tive problemas em decidir o que é que ia fazer. Tenho mais hoje em dia do que tinha nessa altura.

3. O trompete estava em casa desses meus amigos, ninguém o conseguia tocar, por isso estava disponível.
Costumo dizer que é o instrumento que nos seduz, não somos nós. Há um chamamento. São coisas que não se explicam muito bem.
O trompete é um instrumento ingrato e requer muito trabalho todos os dias. É um instrumento que não se pode dizer: ah, agora, daqui a 15 dias, volto a tocar. Não, tem de se tocar todos os dias.
Continuo a tocar todos os dias, como quem faz o seu "jogging". Se tiver um concerto, tenho de me preparar como quem prepara a meia maratona.

4. Fui concebido em Paris, nasci no Brasil, voltei para a Europa, pequenino, num barco, no Júlio César, e fui viver para Espanha. De Espanha, viajávamos para França, Itália, Suíça, de onde é a minha mãe. Toda a minha infância é marcada por extraordinárias viagens a atravessar a Europa.
A minha primeira viagem intercontinental, tirando a primeira vez que vim do Brasil, foi quando fui para os Estados Unidos.
Já estava a viver em Portugal quando foi o 25 de Abril, e a segunda metade dos anos 70 foi caótica. Queria estudar música, mas o Conservatório estava em autogestão. Aquilo que me apetecia, eu achava que não iria conseguir ter aqui. Por isso, fiz um acordo com os meus pais que, terminado o liceu, tudo certinho, ia-me embora. E, nesse Agosto, meti-me num avião e fui. Tinha 18 anos.
Fui descobrir um continente. E uma cultura completamente diferente. Ir aos Estados Unidos não é ir a Nova Iorque. É preciso viajar, atravessar o país. São sete mil quilómetros de uma costa à outra. E conhecer aquela gente.
Estava numa universidade no estado do Kansas, e a primeira vez que me meti no carro conduzi durante quase um dia e ainda não tinha saído do estado. Estava a tentar chegar ao Colorado. E aí é que eu percebi como era grande. O primeiro choque foi perceber que a dimensão é uma coisa extremamente variável e que, quando uma pessoa nasce e cresce num espaço geográfico muito maior, isso dimensiona também as suas ambições. Os Estados Unidos ensinaram-me sobretudo isso: outra forma de dimensionar as coisas. E outra coisa importante: o optimismo. Eu vinha de uma sociedade deprimida, sem grandes perspectivas, e, de repente, cheguei a um país que era próspero, enorme, que irradiava juventude, dinamismo - e muita liberdade ainda, nos anos 80. Não se vivia na paranóia da insegurança.
Hoje, não tenho tanto prazer em viajar. Perdi a vontade de fazer a perigosa travessia, de lidar com os aeroportos. Hoje em dia, as pessoas movimentam-se muito mas vivem numa angústia de segurança.

5. Em 94, decidi restabelecer bases em Portugal. Isto, a pretexto da Capital da Cultura, de projectos que se vislumbravam, e, enfim, porque também se imaginava que as coisas iam prosperar por aqui. E aconteceu, houve um fogo de palha, durante alguns anos...
Em 2001, estava de malas aviadas para regressar aos Estados Unidos quando se dá o 11 de Setembro. Já tinha vendido a minha casa. Já tinha metido tudo em contentores. Voltei para os Estados Unidos em Novembro de 2011. Permaneci durante uns meses, mas depois tomei a decisão de não continuar lá. Percebi que a ordem do mundo tinha mudado drasticamente.
Foi aí que reprogramei a minha realidade e optei por fazer de Portugal, definitivamente, a minha base.

6. Tenho 54 anos. Metade da minha vida foi passada fora de Portugal, mas vinha sempre cá e tenho uma ligação muito forte com o meu país. Portugal é o meu país.
Engraçado, que depois tenha migrado dentro do país. Vivo essencialmente em Vila Real, que é a base do território do Douro vinhateiro, e a relação com o Douro, neste momento, define o meu quotidiano. Estou a trabalhar num projecto, com componentes económicas, sociais e socioculturais, para tentar concertar e encenar esse território no sentido de o tornar inteligível.
Uma das minhas dificuldades em Portugal tem sido sempre perceber Portugal. Nós não nos percebemos a nós próprios. Somos o país das rotundas onde andamos às voltas sem saber onde sair.


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