Livros O caos da grande cidade

O caos da grande cidade

É finalmente editado em Portugal o primeiro romance de Luiz Ruffato, uma das vozes mais sólidas da literatura brasileira da actualidade. Um olhar sobre uma São Paulo estilhaçada.
Fernando Sobral 10 de fevereiro de 2018 às 10:30
Luiz Ruffato
eles eram muitos cavalos
Tinta da China, 179 páginas, 2018


Luiz Ruffato é, há muito, um dos mais esclarecidos observadores da realidade brasileira. Basta ler os seus textos na edição brasileira do El País. Num dos últimos artigos, escrevia sobre a situação do país e o julgamento de Lula: "Cláudio Lembo afirmava, em sua já citada entrevista, que o cinismo nacional poderia ser sintetizado no fato de que, ao abolir a escravatura, no final do século XIX, o Estado brasileiro indemnizou os senhores, não os libertos. Não é diferente o que Michel Temer anda fazendo hoje, exatos 130 anos depois... Uma prova cabal de que, infelizmente, aqui o termo 'capitalismo selvagem' não é uma metáfora e sim a nossa realidade cotidiana...".

Ruffato tem a noção do caos continuado do Brasil actual e da reconfiguração da sua estrutura política, que tem muito que ver com a perseguição a Lula (independentemente dos seus erros e do PT) e com a governação de Michel Temer. Com uma extrema-direita autoritária e evangélica à espreita do momento certo.

Talvez isso nos ajude a compreender melhor o primeiro romance do autor brasileiro, "Eles eram muitos cavalos". Estamos em 2000, numa São Paulo futurista e caótica, vista de fora, em que seguimos diferentes personagens que chocam umas contra as outras, mas seguem o seu caminho. Tudo se passa num único dia e o autor vai-nos oferecendo dados sobre as personagens, sobre a temperatura e sobre outros factos. E deparamo-nos com monólogos e diálogos vários, que acabam por servir para fazer um bordado feito de linhas muito diferentes da grande cidade brasileira. Encontramos um pouco de tudo, desde quem vem em busca de uma vida melhor na cidade à modelo frustrada pela sua existência.

Seguimos à boleia de histórias desencontradas: "O doutor tem algum itinerário de preferência? Não? Então vamos pelo caminho mais rápido. Que não é o mais curto, o senhor sabe. Aqui em São Paulo nem sempre o caminho mais curto é o mais rápido."

Não deve ser. Mas é nessa complexidade veloz que Ruffato constrói a sua teia de personagens que dão vida a um mundo que parece uma grande colmeia, mas onde não parece existir nada centralizado. Mas, tudo somado, acabamos por ter uma noção do todo: cada vida isolada é uma peça ou um peão de um xadrez dinâmico. Como as personagens são muito diferentes, temos diferentes níveis de análise e de reflexão. E isso dá ainda mais força àquilo que Luiz Ruffato retrata com vigor e muita ironia.

Este é um livro de fragmentos e eles ajudam-nos a compor a ideia de uma cidade sem limites, crua, mesmo que seja aquecida por um sol inclemente. Este é um livro também sobre a possibilidade de sobrevivência num território tão díspar e contraditório que permite que todos se possam perder.

O título do livro vem de um verso da poetisa Cecília Meireles, e isso também tem algo que ver com uma segunda leitura: "Eles eram muitos humanos" poderia ser a lógica. Porque aqui, neste livro, muitas das personagens são trabalhadores, colocados nas margens da vida rica da cidade que passa por ser o centro económico e financeiro do Brasil. Há aqui classe média e ricos, mas quase sempre analisados por outros olhos. No fundo, Ruffato, neste livro, transporta-nos para a complexidade das grandes urbes, para o mundo onde todos buscam uma oportunidade e, geralmente, acabam perdidos para sempre.