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O euro e a crise sem fim da Europa

Um conjunto de reflexões sobre o euro nestes tempos de crise cruza-se com a depressão democrática que se vive na Europa. É uma obra que oferece estimulantes pistas para percebermos os dias em que vivemos.

Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 04 de Março de 2017 às 12:15
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VÁRIOS
The Euro and the Crisis Springer,
366 páginas, 2017

No mundo do início do século XIX, tudo era aparentemente diferente. Mas há coisas que pouco mudaram. Na altura, um dos mais poderosos banqueiros, Nathan Rothschild, podia então dizer: "Não me interessa saber qual é o boneco que está colocado no trono de Inglaterra para governar o Império... O homem que controla o fornecimento de dinheiro à Grã-Bretanha controla o Império Britânico. E eu controlo o fornecimento de dinheiro". E hoje, na zona euro, quem controla o dinheiro? Uma questão que é mais preocupante para as economias mais frágeis que, ciclicamente, buscam no exterior a liquidez que não têm.

A crise da Europa tem muito que ver com a crise da sua moeda, que foi a partir de certa altura considerada o pilar central de toda a acção de Bruxelas. O erro está a pagar-se caro. Por isso, é extremamente aliciante este conjunto de reflexões "The Euro and the Crisis", coordenadas por Nazaré da Costa Cabral, José Renato Gonçalves e Nuno Cunha Rodrigues, e que conta com participações de nomes como Joseph E. Stiglitz, Francisco Louçã, Yannis M. Ioannides, Luís Máximo dos Santos, Francisco Torres, George Kopits ou Pierre-Alain Muet.

São textos sólidos e inteligentes que nos obrigam a reflectir, a partir de diferentes pontos de vista, sobre temas como o valor da zona euro, a importância da coordenação de políticas fiscais, os estabilizadores macroeconómicos da UE ou o futuro da zona euro.

Joseph Stiglitz escreve que as fragilidades da zona euro não podem só ser atiradas para cima dos países "gastadores", porque as culpas maiores estão no deficiente mercado interno. Além disso, refere que há um erro de raiz: a política monetária está focada na estabilização dos preços e por isso o BCE "distraiu-se" com a derrapagem dos países periféricos a partir de 2009.

Muito estimulante é o texto de Sergio Rossi sobre a possibilidade de uma união monetária a duas velocidades. E aqui o autor levanta a possibilidade de países como Portugal, a Grécia ou Espanha reintroduzirem as moedas nacionais, porque isso melhoraria a sua prestação económica. Isso permitiria, segundo o autor, transformar a zona euro numa união monetária viável. Francisco Louçã, por seu lado, analisa os falhanços do euro e discute alternativas para este projecto "falhado". Segundo Louçã, para certos países como Portugal, a manutenção no euro só é viável com uma "nova dimensão" de solidariedade entre os Estados-membros. Algo que não é visível.

Extremamente aliciante é também a reflexão de Luís Máximo dos Santos sobre as motivações políticas da união monetária. Depois de traçar a evolução histórica da ideia (no início, a integração monetária não era uma prioridade), define uma data em que as circunstâncias se alteram: a reunificação alemã, que alivia as objecções de Berlim à ideia, já que o marco era um símbolo do sucesso do país no pós-guerra. E aí surge o "trade-off" entre Alemanha e França: o apoio à reunificação em troca do apoio à moeda única. O medo de países da periferia, de ficarem mais longe, do núcleo central apressou a entrada destes no euro.

Depois veio a crise. Máximo dos Santos diz que se o BCE tivesse feito, em 2010, o que fez em 2012, a história seria diferente. Porque os problemas do sul da Europa não são só dos gastos excessivos mas da deficiente arquitectura do sistema. E acrescenta: "A Europa perdeu o 'momentum' para se reformar", porque sabe o que deve fazer para se reformar, mas não o faz por falta de condições políticas.

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