Vinhos O Laboratório da Real

O Laboratório da Real

Da Real Companhia Velha chega uma nova colecção da chancela Séries, com alguns vinhos de castas que nunca haviam sido engarrafadas em modo varietal. Uma pequena festa.
O Laboratório da Real
Pedro Silva Reis e Jorge Moreira mostram a nova colecção.
Gonçalo Villaverde
Edgardo Pacheco 03 de fevereiro de 2018 às 13:00
Diz-se que Portugal e Itália são os países que mais castas autóctones possuem. Ao certo, não se sabe bem quantas serão. Nem o número total, nem o número das que se encontram em produção regular. Também parece que uma entidade do nosso bem organizado Estado tem um campo com muitas castas para os lados de Pegões, mas saber quantas castas portuguesas lá vivem deve ser um calvário burocrático só acessível aos santos. Pouco importa. Vegetativamente, somos abençoados, o resto são estatísticas.

Agora, não faltaremos à verdade se dissermos que a empresa portuguesa que mais castas tem em produção é a Real Companhia Velha (RCV) e que, com inteligência, transformou esse património num factor estratégico de afirmação da sua imagem corporativa.

Vinhos novos de castas desconhecidas são uma bênção para consumidores esclarecidos e - pequeno detalhe - para alguns jornalistas que já não podem com os lançamentos de novas colheitas de marcas que já conhecem de ginjeira.

De maneira que, quando recebo um e-mail a anunciar o lançamento de coisas novas da colecção Séries da RCV, isso é motivo para esfregar as mãos. Não quer dizer que grandes vinhos estejam necessariamente garantidos, mas quer dizer que vou meter o nariz e a boca em novos aromas e sabores num copo. Só isso já é uma festa.

Ora, da nova fornada da chancela Séries - que assim se chama por ser uma colecção de vinhos experimentais - temos agora, em brancos e da colheita de 2016, um Donzelinho Branco e um Gouveio e, em tintos de 2015, um Tinto Cão, um Malvasia Preta, um Cornifesto e o Bastardo. São vinhos varietais novos na RCV, mas manda o rigor assinalar que novidades absolutas no país são o Dozelinho Branco, o Malvasia Preta e o Cornifesto, visto que um ou outro produtor do Douro já trabalha o Gouveio, o Tinto Cão e o Bastardo.

Convém também dizer que, questões estratégicas à parte, a RCV não lança estes vinhos só para ser diferente. Eles resultam de trabalho de anos na parte vitícola e enológica, pelo que só chegam ao mercado quando o enólogo Jorge Moreira tem a certeza de estar perante vinhos que fazem a diferença, mas que nunca deixam de espelhar o que deve ser um vinho do Douro.

Temos assim, nos brancos, um Donzelinho que se apresenta com umas notas de flores e de frutos cítricos com algum fumado à mistura. A boca é muito leve e fresca. Não terá grande prolongamento, mas é bastante curioso e eficaz para umas entradas fumadas.

Embora algo neutro nesta fase, o Gouveio está interessante na boca, em virtude da sua acidez e do baixo teor alcoólico. Sentem-se algumas notas de barrica, que tenderão a desaparecer e a dar algum mistério ao vinho com o passar do tempo.

Nos tintos, começamos com o Tinto Cão, que tem a virtude de fazer um belo pingue-pongue entre fruta e notas vegetais, coisa que exige grande rigor na definição do momento certo de colher as uvas. Nada extraído, não deixa todavia de expressar bem a rusticidade que faz parte da natureza da casta. Se quase todos os vinhos da RCV têm sempre um destino gastronómico, este é daqueles que pede mesmo comida. E de sabor espevitado.

O Malvasia Preta nasce de uma vinha tão mal amanhada que Jorge Moreira tinha dúvidas sobre as virtudes das suas uvas. Vai-se a ver e temos agora um tinto rico, que ora liberta especiarias ora nos surpreende com algum perfume doce. E, na boca, um senhor com carácter. Importará seguir o rasto deste vinho no tempo.

Fechado no nariz, o Cornifesto destaca-se na prova de boca pelo seu carácter vegetal, algo rude (parece Sousão) e com acidez que ajudará à sua evolução em garrafa.

E daqui saltamos para o vinho que mais me encantou: o Bastardo. Não sei se é uma questão de idade ou cansaço pelo enjoativo padrão nacional (Bairrada e Dão à parte), mas agradeço este tinto que mistura fruta vermelha com notas de bosque e até minerais e algo terrosas, que levam a minha alma a viajar com alegria pela Borgonha. Está o leitor a perceber? Pois, é isso mesmo. Delicado, guloso e desafiante à mesa.

Como se imagina, vinhos destes não existiam sem a visão estratégica da família que gere a RCV (em particular de Pedro Silva Reis Júnior), sem uma filosofia enológica muito própria de Jorge Moreira (vinhos elegantes mas sempre durienses) e sem a paixão de Álvaro Martinho Lopes na defesa de algumas castas mais ou menos desprezadas na Quinta das Carvalhas. Se o Álvaro já é um poço de histórias, com os novos Malvasia Preta e Cornifesto ninguém o apanha. Agora é que vão ser elas..
Os seis novos vinhos da colecção Séries - lançada pela Real Companhia Velha (RCV) - têm o mesmo preço: 17€





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