Weekend O dia em que os pássaros se calaram

O dia em que os pássaros se calaram

Fukushima é uma ferida aberta no Japão. Ao tremor de terra sobreveio um desastre nuclear sem paralelos. Viagem a esse mundo onde é visível o que as centrais nucleares nos podem trazer.
Fernando Sobral 05 de outubro de 2013 às 10:02

Michael Ferrier "Fukushima" Antígona, 245 páginas, 2013

 

 

Fukushima pareceu a muitos ser lá longe. Mas o tremor de terra, o tsunami e a falência dos reactores nucleares de Fukushima não são nos antípodas. Contam-nos a história de um mundo que está interligado, onde um espirro aqui provoca um abalo a dezenas de milhares de quilómetros. Há a globalização económica e há, também, a percepção de que a Terra é um mundo vivo e que a ciência não controla tudo. O relato de Michael Ferrier, escritor e investigador que vive há duas décadas em Tóquio, sobre o que aconteceu nesse dia e o que sucedeu depois, é ao mesmo tempo poético e apocalíptico. Leia-se: "É de noite, chegamos a uma cidade onde não há um cão sequer que ronda, onde não há pássaros. Onde poderiam eles poisar neste desastre imenso?"


Fukushima continua a ser uma catástrofe. Ainda incontrolável, porque continua a debitar água radioactiva para o Pacífico. E porque a estabilidade dos reactores afectados ainda não é completa. Sobra ainda a pergunta, entre as pressões de quem quer que as centrais voltem a produzir energia e a nova tendência no Japão de produzir cada vez mais energia eólica: o que fazer com esta fábrica radioactiva? Fukushima não é exótico. Na Europa, há centrais a envelhecer. Um dia destes terão de fechar. O que se fará com aqueles blocos radioactivos? Este problema não ocupa quase nenhum debate público num continente cheio de centrais nucleares. O silêncio e o segredo, onde a discussão se centra apenas nas chamadas "vantagens económicas", fazem com que o nuclear fuja ao debate democrático. Este livro tem o grande mérito de trazer essa questão de volta ao centro das nossas preocupações.


Ferrier sentiu o tremor de terra e depois viajou para a zona sinistrada. O seu relato é de uma expressividade única. Lê-se o livro como uma cadeia de sentimentos que se vão entrelaçando. E, sobretudo, todo o livro parece uma pintura feita por um calígrafo oriental.


Tudo se desmorona. A luz desaparece. Escreve Ferrier: "Os grandes estabelecimentos de luxo e de pronto-a-vestir estão desertos. Na semana que se seguiu ao sismo, as suas vendas desceram para metade. A procura concentra-se no essencial: a água, o papel higiénico, as massas instantâneas. Tudo o que entra e sai do corpo, o necessário a uma cidade amedrontada, que se mantém toda digna no meio da incerteza ambiente". O que aconteceu faz com que o supérfluo, o consumo, deixe de ser importante. Só o que é essencial para a sobrevivência passa a ter valor. Ou seja, regressamos ao básico, livres das necessidades artificiais. Mas também se sente que, à volta, um mundo acabou e um outro surge, despojado e triste. Hino contra o nuclear e a realidade que cria, "Fukushima" é quase uma carta de amor ao Japão. Mas também uma sirene: "E de súbito, ao virar de uma curva, ao dobrar de uma estrada, colhe-nos o desastre. De repente, não há mais nada. Nem árvores, nem casas, nem jardins. Nem estradas, nem construções, nem colinas".

 

Os sonhos desapareceram. Só resta a realidade, nua e crua.

 




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