Weekend Onde estão os escritores portugueses de hoje? Onde é que eles estão?

Onde estão os escritores portugueses de hoje? Onde é que eles estão?

Baptista-Bastos tem uma voz tonitruante. Dá peso e espessura às palavras. Tem fama de ser brigão. Impulsivo. Mas estes traços desvanecem-se quando fala de Isaura. "Vais-te embora Isaurinha", pergunta pouco depois da entrevista ter começado. Isaura vai ao médico. Isaura é sua mulher. Conheceu-a aos 26 anos, quando ela tinha 20. Ela disse-lhe: "espero por ti o tempo que for preciso". Esperou. Casaram. Tiveram três filhos. Ele confessa-se, com ternura: "sou um Isauro-dependente". Ele tem uma casa em Constância, onde guarda os livros. Quando precisa de algum, os filhos vão buscar. "É uma casa muito estreita, com escadas, e a Isaura tem medo que eu vá para lá, ela não me deixa ir". É ela que trata dele, "que resolve as coisas". Todas. Do dinheiro à saúde. Isaura foi ao médico, mas esteve sempre presente na entrevista. "Ela ralha comigo. Tem a mania que manda em mim". Admite-o com indisfarçável carinho. Armando Baptista-Bastos fará 80 anos no dia 27 de Fevereiro. Quando se deu o 25 de Abril, tinha 40 anos, o mesmo número de anos que a revolução celebrará em 2014. Uma revolução "interrompida", lamenta. No início do mês, lançou o livro "Tempo de Combate", que reúne as suas crónicas do Negócios e do "Diário de Notícias". Um calendário de iras, provações e afectos. Baptista-Bastos é tudo isto. E muito mais.
Onde estão os escritores portugueses de hoje? Onde é que eles estão?

Como jornalista e escritor, como é que se sente sendo conhecido, principalmente, pela pergunta: “Onde é que você estava no 25 de Abril”?

Eu fiz essa pergunta [no programa “Conversas Secretas”] a três pessoas de direita, como a Maria José Nogueira Pinto, de quem eu gostava muito. Coisa estranha, não? Um homem de esquerda ter, assumidamente, relações de estima por gente abertamente de direita. Interessa-me o carácter, é uma coisa do código de honra da minha geração. Bom, fiz essa pergunta três ou quatro vezes, mas, no outro dia, fui entrevistado pelo Júlio Isidro e ele contou-me uma história fabulosa: “não foste tu quem primeiro fez essa pergunta”. Foi o locutor do Rádio Clube Português, o Luís Filipe Costa. O seu a seu dono. Mas eu não me importei nada, achei piada.

-Vais-te embora Isaurinha? - Conhecemo-nos éramos dois miúdos, eu estava desempregado por motivos políticos, é claro. Estive envolvido na Revolta da Sé, aliciado pelo Urbano [Tavares Rodrigues]. Eu dizia logo que sim a tudo o que era revolução, não podia viver neste país. E já tinha viajado, já tinha estabelecido confrontos. Conheci a Isaura quando tinha 25 ou 26 anos, e ela 20. Contei-lhe tudo, “olha que eu estou metido em coisas”, e ela, “eu espero por ti o tempo que for preciso”. Assim foi. E andamos nisto.

 

E esperou quanto tempo por si?

Entretanto, fui trabalhar para o “República”, e depois contratado para o “Diário Popular”. Nesse mesmo ano, casámos. Arranjei dinheiro para a casa. Eu vivia em quartos…, mas foi bom. Felizmente, tive muitos azares. Nunca tive muito dinheiro na vida, os tostões eram contados, de tal maneira que, às vezes, ia buscar o mais pequeno ao liceu – tenho três filhos –, ele gostava, e ainda gosta muito, de cachorros quentes, e eu não tinha dinheiro para lhos dar. Isso, às vezes, constrangia-me um bocado, mas não me enraiveceu, não fez de mim um homem rancoroso.

 

Como é a sua relação com o dinheiro?

Não percebo nada de dinheiro. Durante anos, a minha mulher é que me punha o dinheiro dentro do bolso. Ainda hoje não tenho a noção do valor do dinheiro. Por vezes, eu comprava alguma coisa, chegava a casa todo contente, e ela logo dizia: foste enganado.

 

A propósito da Maria José Nogueira Pinto, entendi que, para si, as amizades e a lealdade não têm ideologia.

Faz-me lembrar aquela história do Brecht, que ele, aliás, conta no “Journal de Travail”. Um dia, aparece no Berliner Ensemble um tipo que diz: eu sou comunista! O Brecht ficou pior que estragado e diz-lhe: mostra o teu talento, não mostres o cartão, nunca mostres o cartão do teu partido. E é isto, ainda hoje tenho muitos amigos à direita. Nunca utilizei essa bitola nas relações e até arranjei empregos para muita gente. Quando estava no “Diário Popular”, tive poder de facto. Esta relação com dinheiro é de tal ordem que um dia, depois do 25 de Abril, o presidente do conselho de administração, que se chamava António Moreira da Cruz e era do PSD, chamou-me lá acima e disse-me: eu estou completamente envergonhado porque o senhor ganha 60 contos. O senhor é a Torre de Belém do “Diário Popular”! Mas por que é que é isto? E eu disse: nunca pedi. E não era só por isso. A circunstância de ser assumidamente um homem de esquerda e de ter o fascínio da revolução… – é uma coisa que não perco. E o presidente do conselho de administração lá me arranjou mais 30 contos. Foi uma satisfação porreira porque eu tinha três filhos e nunca tive dinheiro para lhes comprar uma bicicleta. Isto não é tocar o fado neo-realista, é uma verdade. E eu, além de ter sido muito brigão, era muito respingão, e estas coisas pagam-se. Ainda bem.

 

Está arrependido?

Não, não. Eu fazia tudo na mesma. Meti-me nos golpes de Estado, metia-me nas coisas, metia-me em tudo o que eu pensava que era necessário.

 

Afinal, quem é que é o Baptista-Bastos?

É um homem de 80 anos, com uma vivência desgraçada, apesar de tudo. Mas ainda bem que tive a sorte de ter tido muitas dificuldades. De dinheiro. De – é feio dizer isto – ter sido um homem invejado. O Baptista-Bastos é um tipo que ainda hoje lê, um tipo que estudou, um tipo que tem preocupações com a língua portuguesa. Tenho uma paixão pela língua. Foi uma aprendizagem longa. Os livros que vocês vêem aqui são um 1/36 avos dos livros que tenho. Tenho milhares e milhares de livros, procurados por mim, lidos por mim, muitos deles estão numa casa pequenina que tenho em Constância. Mas é uma casa muito estreita, com escadas, e a Isaura tem medo que eu vá para lá, ela não me deixa ir.

 

É respingão, mas obedece à sua mulher.

Costumo dizer que sou um Isauro-dependente, porque ela é que trata de mim, ela é que resolve as coisas, e não apenas as coisas do dinheiro, resolve as coisas da minha saúde. Às vezes, eu não quero ir aos sítios, aos médicos, ela é que toma conta disso.

 

É o seu farol.

É a mulher que esteve sempre ao meu lado, não esteve atrás, esteve sempre ao meu lado nos períodos difíceis, muito difíceis. Hoje as pessoas não sabem, nem palpitam, o que era a dificuldade naquele tempo. Eu expunha-me muito, era muito mexido. Quase todos os dias estava na primeira página do “Diário Popular”. Os jornais são a minha eterna paixão, eu gosto de jornais, gosto do cheiro dos jornais, gosto das pessoas dos jornais, gosto de jornalistas.

Houve uma altura em que podia ter continuado, eu era um homem ainda novo e estava no auge das coisas, mas fui saneado, do “Diário Económico”, por um tipo que tem a boca torcida e que se chama Miguel Coutinho. Não tenho nada a ver com isso, mas ele é que perdeu. E, apesar de insistentes pedidos do Fernando Dacosta, do Adelino Gomes, etc, para entrar no “Público”, o Vicente Jorge Silva disse que “não” porque eu tinha admiração pela revolução cubana. Tinha e tenho. Um dos meus grandes falhanços é nunca ter entrevistado o Fidel Castro e aqueles homens da revolução, o Camilo Cienfuegos...

E o Mao Tse-tung? Como é que um homem, com meia dúzia de gajos, com os olhos em bico, atravessa a China, e faz essa epopeia impressionante que é a Grande Marcha? A China era o sítio onde os imperialismos iam fazer cocó. A China e a Albânia. E aqueles gajos disseram que não. O Mao Tse-tung e o Enver Hoxha eram figuras que muitos homens da minha geração seguiram com grande fascínio. Ainda hoje, a revolução é uma ideia que me faz estremecer.

 

Mas hoje olha da mesma maneira para Mao Tse-tung ou Enver Hoxha?

As coisas depois esboroam-se. Eu nunca fui muito do Enver Hoxha. Li os livros dele, que eram uns interrogatórios feitos a dissidentes, em que apenas as perguntas eram publicadas, não as repostas. Eu queria saber o que se passava, não ia atrás de conversas. A ideia de revolução está muito ligada à revolução francesa, à comuna de Paris, à revolução soviética. Os saltos que a humanidade deu são grandiosos e depois há aquilo que são as regressões, as coisas que nos deixam magoados. No outro dia, falava com um amigo e ele dizia: eu estou é velho, senão metia-me aí numa coisa de tiroteio. E eu também.

 

É um homem amargurado? Está desiludido?

Não, não sou amargurado, entristece-me isto. Ver os miúdos a ir embora daqui, aquela miúda da fotografia do “Público” a dizer “o meu país não me quer”. Isto não pode ser. Eu não trocava este país por nada. Tive várias possibilidades para trabalhar lá fora, nunca quis. Eu quero é isto. Os outros sítios não têm o Tejo, os outros sítios não têm os cafés, os outros sítios não têm os meus amigos. Que ainda aí estão. Estamos é velhos.

 

Tem dois netos. Que país é que gostava que eles tivessem?

O país com o qual eu sonhei, depois de Abril, que nós só tivemos durante meia dúzia de meses, quando as leis se faziam na rua.

 

Ainda acredita na ideia de uma sociedade sem classes?

Acredito. Acredito. Numa sociedade onde as pessoas se respeitem.

 

Falou em revoluções grandiosas. Para si, o 25 de Abril, que está a fazer 40 anos, foi uma revolução grandiosa?

Foi uma revolução interrompida. Alguns dirigentes políticos quiseram que a revolução avançasse porque previam que iria acontecer qualquer coisa de regressão.

 

A sociedade civil portuguesa é fraca? Falta consciência social?

Falta a ideia de comunidade. A gente assiste a uma coisa vergonhosa: os intelectuais portugueses estão calados. Havia aí um grupo andaluz que dizia, a propósito do Lorca, “Que cantam os poetas andaluzes de hoje?”. Onde estão os escritores portugueses de hoje? Onde é que eles estão?

 

 

Esta rábula de dizer que o poeta não tem de entrar nas coisas da cidade é um disparate.
Aos escritores portugueses, falta viver. Andar no meio da rua, ver o que se passa. Também já não há pensadores franceses.

 

 

O que pensa dos novos escritores portugueses?

Penso muito mal. Primeiro, porque escrevem mal. Bom, não gosto de generalizações. Há um escritor pelo qual tenho grande apreço, o José Luís Peixoto. O resto, não me interessa muito. É curioso. Eu tenho três filhos que são grandes leitores. E eles também não apreciam muito [os novos escritores]. Gostam muito dos escritores portugueses do século XIX.

 

O que falta, na sua opinião, aos novos escritores portugueses?

Viver. Viver. Andar no meio da rua, ver o que se passa.

 

A cultura, “latus sensus”, perdeu poder de influência?

É uma das vitórias do neoliberalismo.

 

Os escritores, pintores, músicos, perderam voz?

Porque não querem. Por que é que não vão para o meio da rua? Por que é que não fazem abaixo-assinados?

 

Mas têm de ter uma função política?

Claro que sim. E esta rábula de dizer que o poeta não tem de entrar nas coisas da cidade é um disparate. Tenho aí um texto do D’Alembert que é de uma actualidade total. Ele diz: temos de ir para o meio da rua, temos de protestar. A ideia da intervenção não foi só do Sartre e do Camus ou do Merleau-Ponty, a ideia de intervenção vem desde sempre. Veja a nossa cultura, as nossas cantigas de escárnio e maldizer mais não são que uma intervenção moral, cívica, cultural. E o Bocage... O Padre António Vieira!

 

Mas o que é que ditou essa separação entre o poder político ou poder efectivo…

Foi o poder político e a traição daqueles que não deviam ter traído. O caso do PS, que é assustador. O PC está desvanecido, já não tem a força que tinha de facto, vai tendo uma força à medida que a direita faz estas esculhambações.

 

Mas desde a queda do Muro de Berlim, ou antes, a esquerda foi perdendo referências. A Perestroika, os acontecimentos na China… tiraram algumas referências e, a partir daí, a esquerda nunca mais de endireitou.

Estive na União Soviética três vezes e, numa delas, já estava o Gorbachev no poder, e eu disse a um companheiro: isto está completamente diferente. “Porquê?”, perguntou ele. Olha, quando acabo de comer a sopa, já não vejo o retrato do Brejnev estampado no prato. E ele: tu és capaz de dizer isso na televisão e na rádio? Lá disse estas coisas e percebi que havia uma distensão, vi a cara das pessoas nas ruas, era diferente, havia uma outra maneira de olhar as coisas. Mas tenho pena que a União Soviética tenha implodido. Agora percebeu-se que era um travão a muitas das coisas que estão a acontecer. Aliás, há um livro do Alberto Moravia – que não era comunista – onde ele conta que foi para o Parlamento Europeu a convite do Berlinguer e lhe disse: “eu vou, e não é porque acredite nos conceitos e nos princípios, mas porque sei que o PCI [Partido Comunista Italiano] é um travão ao que aí vem”. É um bocado verdade. Aliás, o PC, na minha opinião, ainda hoje é um pequeno travão àquilo que se projecta.

 

Há algum político actual no qual se reveja?

Há muitas pessoas de quem gosto, mas não sei se têm a estaleca e a estirpe para “tomar contra do país”. E as coisas estão muito baralhadas e, simultaneamente, muito calafetadas em coisas estanques. À esquerda, por exemplo.

 

O que é a esquerda para si hoje?

É uma ideia. De igualdade, de fraternidade, de equidade. De trabalho.

E a prática dessa esquerda?

A prática desta esquerda não existe. Se estamos a pensar no PS, é uma desgraça. O PS não é de esquerda. É um partido cada vez mais à direita. E isso é deplorável. Cada vez que ouço o Francisco Assis na televisão, fico arrepiado. E o António José Seguro…

 

A ascensão da direita é mérito da direita ou demérito da esquerda?

A direita não tem muito mérito, a direita tem é força, tem a força das coisas, de ter os jornais, de ter muito jornalista estipendiado, muito comentador. Veja os comentários que fazem na televisão, são risíveis.

 

Qual o caminho da esquerda em Portugal?

Não vejo, mas vai aparecer. Uma outra coisa qualquer, que não tenha como significado o maniqueísmo de esquerda-direita. Qualquer coisa tem de aparecer, ninguém pode viver assim.

 

Há uma crescente desideologização da sociedade e, sem o confronto de ideologias, geralmente uma sociedade é mais fraca…

Eu tenho a impressão de que as ideologias não desaparecem. Adormecem. Voltam a ter peso. Senão é aqui, é noutro sítio.

 

As novas gerações serão algo apolíticas?

Não o serão. Vem aqui muita gente nova falar comigo. Telefonam-me, querem saber quem sou. Habitualmente, a porta está aberta. São estudantes e empregados. As críticas que fazem a certos jornais pela ausência de debate… Mas não é um problema só português. Em França, é a mesma coisa. Digo a França porque eu sou francófilo, francófono e francotudo, tendo um débito total para com a França. Um débito cultural, um débito moral. Sem estar, muitas vezes, de acordo. Também já não há pensadores franceses.

 

Muitas das questões que se levantam em Portugal são questões que também se levantam na Europa comunitária.

Não há Europa comunitária. É tudo mentira. A Europa está de joelhos perante a Alemanha. O Hitler e o Bismarck não conseguiram dominar a Europa através da bota e do canhão. Estes conseguiram com a economia.

 

Nesse sentido, como vê o futuro da Europa? Vamos voltar aos Estados-nação?

Não vejo [futuro]. Mas tudo é previsível, nada é imponderável numa situação desta natureza.

 

Mesmo o fim da moeda?

Pois. Há economistas portugueses, como o João Ferreira do Amaral, que dizem que não há problema nenhum com isso. Não sei, ninguém sabe, mas nós estamos nas mãos de economistas…

 

Este seu livro “Tempo de Combate”, que resulta das crónicas publicadas no Negócios e no “Diário de Notícias”, é um sinal desses tempos de revolta que assume?

É um calendário das minhas iras, das minhas provações, mas também um calendário das minhas ternuras e dos meus afectos.

 

E o que é que isso lhe deu?

A consciência daquilo que sou e daquilo que eu sei que sou. Sou um homem de grandes ternuras, de grandes afectos, toda a gente sabe isso, toda a gente que me conhece, evidentemente.

 

Impulsivo, também?

Toda a vida, então? Venho de um tempo em que os pais dos miúdos mandavam forrar as sandálias com a borracha dos pneus dos automóveis. E as sandálias tinham de durar dois anos. E, para durarem dois anos, os miúdos andavam descalços. E os pés feriam-se com as pulgas, com as garrafas. Isto foi ontem! Não posso esquecer isso, em circunstância alguma. Sou do tempo em que ia aqui à província e os camponeses não trabalhavam de sol a sol, mas sim de alba ao anoitecer. Aqui no Ribatejo, por exemplo. Recordo-me, quando li o Redol pela primeira vez, de dizer: “isto não pode ser”. Era a dois passos de Lisboa, os fangueiros. O Redol, que tão esquecido está, é um escrito importantíssimo para a gente perceber o que aconteceu.

 

Mas, durante estes anos, pelo menos do ponto de vista material, deram-se alguns passos qualitativos importantes.

Sim, mas muitas vezes as crianças vão para a escola sem comer. Não estamos na “idade do acesso”. Não estamos. Eu tenho tudo de facto ou quase tudo de facto ali no computador, mas onde eu tenho tudo ou quase tudo é aqui, no Padre António Vieira… O computador não ensina o que foi o século XIX. Quem me ensina o que foi o século XIX é o Camilo. O Eça de Queiroz. É o grande Oliveira Martins. Devia ser obrigatório ler a história de Portugal dele. E as pessoas não sabem.

 

Diz que um dos grandes problemas da sociedade é o facto de as pessoas não lerem ou de cada vez lerem menos.

É provocado, é dificultado, abra a televisão.

 

Mas as pessoas podem desligar a televisão. Têm esse poder.

Na minha opinião, deveria haver programas de sedução de leitura. No tempo do fascismo, havia o Villaret, havia o David Mourão-Ferreira, que tão esquecido anda. Hoje não há nada. Há “A Casa dos Segredos”. É simpático ver as pessoas a fornicar. O Karl Popper, uma pessoa de quem não estou muito próximo, mas que gosto muito de ler, tem um livrinho sobre a televisão e está lá tudo.

 

Mas nós, no pós-25 de Abril, tivemos acesso à educação, a ferramentas que, supostamente iriam permitir exercermos o nosso direito e poder de escolha. Isso aconteceu?

Apesar de tudo, acho que sim. A curiosidade das pessoas levou-as a aceder às coisas, às faculdades. Agora estamos em regressão.

 

E como responde ao “deslumbramento pelo dinheiro fácil”? Não tivemos culpa, também?

Talvez. Tivemos, mas não culpa total. A culpa do povo é mínima. Não houve incentivos. As coisas têm de ter uma continuidade. No outro dia, ouvi o filósofo José Gil, quando ele foi considerado um dos vinte filósofos europeus. Ele disse: “eu sou o resultado dos estudos feitos por outros”. E tem uma certa razão de ser. Nós somos o produto de grupos, ninguém tem as ideias em sistema de exclusividade, as ideias pertencem a muito mais gentes, as ideias são formadas por nós, mas pertencem a muito mais gente.

 

Como é que vê o futuro?

Não vejo, com esta idade já não vejo. Bem, eu tenho esperança. Mas não tenho certezas. Tenho sonhos. A minha mulher diz sempre: põe os pés na terra. Estou sempre a sonhar e ainda bem, senão era insuportável. Fico sensível e emocionadíssimo quando vejo homens e mulheres de quarenta anos sem emprego. Mas que raio de mundo é este?

 

Como preenche hoje os seus dias?

A ler, a escrever. 

 

Além deste livro de crónicas, tem algum romance?

Tenho várias coisas começadas, e tenho, há longos anos, um livro de memórias, que não é um livro amável. No outro dia, estava aqui a fazer uma lista dos grandes esquecidos. Às vezes, faço assim umas coisas. Por exemplo, tenho aí uma lista das palavras que eu nunca utilizarei.

 

Quais são?

Implementar. Calendarizar. Elencar, que acho uma coisa quase pornográfica. Não gosto de palavras bonitas, gosto é de palavras expressivas. O “Século” ensinou-me a pegar na caneta e o “Diário Popular” abriu-me as portas para tudo. Foram as grandes escolas, até de camaradagem, uma palavra que os jornalistas suprimiram. Um dia, uma estagiária foi ter com o meu amigo Neves de Sousa: “ó colega…”. O Neves: “ó colega?! Ó menina, vou-lhe explicar, colegas são as putas, os jornalistas são camaradas e tratam-se por tu”. Outro grande homem dos jornais que ninguém sabe quem é.

 

 

O grande Garrett dizia: o país é pequeno e a gente que nele vive também não é grande.
Temos muita inveja uns dos outros. É a miséria portuguesa. O mesquinho na mesquinhez.

 

 

O Neves de Sousa deixou uma série de filhos, a maior parte deles ligados ao jornalismo. Nenhum dos seus filhos quis seguir a carreira do pai?

Não, não. Eles perceberam que, se fizessem isso, seriam sempre os filhos do Baptista-Bastos. Um é advogado, outro é arquitecto e professor aqui na Clássica, e o número três é psicólogo clínico e deu-me dois netos lindíssimos, que são a luz dos meus olhos, claro. Mas foi muito difícil, a menina Isaura e eu… eles, os meus filhos, queriam ir trabalhar. Opus-me sempre. Sabia que se fossem trabalhar, nunca mais se iriam licenciar. São grandes leitores, uma coisa que me apraz muito, e discutem comigo. Incitei-os a discutir. São pessoas de esquerda, mas não têm filiação partidária, como eu hoje não tenho.

 

Sente-se órfão politicamente?

Órfão não. [Revejo-me] no PC, sim. Já votei no PS. Fui enganado pelo Guterres e isso não lhe perdoei. Um dia, ele estendeu-me a mão e ficou com ela no ar.

 

Enganou-o porquê?

Porque fugiu. Ele tinha a simpatia das pessoas. Não me recordo de haver um dirigente socialista, a não ser o Soares, com tanta simpatia e empatia.

 

Sobre assuntos ecuménicos, como olha para o Papa Francisco, que até já aparece na capa da “Rolling Stone”?

Com grande simpatia. Ele não tem seguidores, está a falar sozinho. E veja o caso do episcopado português, há um silêncio opressivo sobre aquilo que o homem diz. Ele percorre caminhos perigosos. O populismo é um caminho perigoso.

 

Mas ele está a percorrer esse caminho?

Não sei. A popularidade é uma coisa que afecta as pessoas, não se esqueça disso. As pessoas ficam muito anchas de si próprias. Se calhar, ficam com a noção de que têm valor a mais. O homem é um ser gregário, o homem não é um ser isolado, veja os alentejanos – um dia, o José Gomes Ferreira, o autêntico, escreveu um poema lindíssimo, disse: nunca vi um alentejano cantar sozinho. Olhe, faz-me falta, o Zé Gomes. E o Manuel da Fonseca. Era até ao fim da vida. Grandes brigas no meio da rua com estes gajos, grandes copos, grandes afinidades.

 

Falava nas palavras expressivas. Foi no jornal “O Século” que tomou o gosto pelas palavras?

No gabinete do Acúrsio Pereira [chefe de redacção], estava uma frase do Garrett, que era mais ou menos isto: odeio palavras velhas, amo as palavras antigas. Volta e meia, vou ler o Garrett nas “Viagens na Minha Terra”, uma coisa primorosa. No III volume d’“As Farpas”, do Ramalho Ortigão, está uma definição do Garrett feita pelo Herculano: o Garrett era capaz das maiores trafulhices quando se via em apertos – e acho que era uma coisa constante – mas havia uma coisa que ele era incapaz de fazer: uma frase mal escrita.

 

Uma vez disse que entre as pessoas que melhor escreviam em Portugal estava Paulo Portas.

E é verdade. O que o Paulo Portas escrevia n’“O Independente” tinha uma força e uma raiz de portuguesismo numa altura em que isto estava a ser invadido por culturas outras que não tinham nada a ver connosco.

 

A boa escrita à margem das ideologias.

Eu tenho uma grande biblioteca de escritores fascistas.

Mais que a ideologia, é a cultura que pode unir as pessoas?

É a cultura, embora a cultura seja ideológica. É a visão que essas pessoas têm do mundo. E a língua.

 

Pegando na questão da língua, as relações com o Brasil estão mal exploradas?

O Brasil é a nossa salvação como expressão da língua. Mas eu não sou servo da hegemonia da língua através de Portugal ou do Brasil ou de Angola ou de Moçambique.

 

Precisamos de acordo ortográfico para a salvação da língua?

Eu sou contra o acordo. Um grande paladino da defesa do contra o acordo é o Vasco Graça Moura, de quem sou grande amigo.

 

Enumerou há pouco as palavras que nunca usa mas também se referiu aos “grandes esquecidos". Quem são?

São uma data deles. O Carlos de Oliveira, o Manuel da Fonseca, que ninguém lê. Há outros que não fazem falta nenhuma. Mas, por exemplo, a Celeste Andrade, a Maria Judite Carvalho, a Irene Lisboa. Então, em mulheres, é uma coisa impressionante. A Imprensa Nacional Casa da Moeda devia fazer essa divulgação. É claro que tem feito algum trabalho meritório, por exemplo, com o Casais Monteiro, que estava esquecido, mas devia haver uma grande atenção à Maria Judite de Carvalho, à Irene Lisboa. Como é que é possível esquecer a grande autora da solidão? Que país é este? Há muitos esquecidos. O Leão Penedo, o Rogério de Freitas, o Marmelo e Silva, um dos maiores contistas portugueses. E depois há lóbis que impõem uns e apagam outros. E não há um grande suplemento semanal que se oponha a isto. Os esquecidos, vamos lá ver quem são os esquecidos. Ficariam surpreendidos com a grandeza dessa gente.

 

E o Baptista-Bastos? Qual é a sua ambição como escritor?

Escrever bem. Os prémios que tenho recebido, se calhar, já são demais. Têm-me perguntado sempre se os aceito ou não. E eu pergunto: quem é o júri? Depende disso. Não vou atrás dessas conversas. O meu amigo José Saramago, por quem tenho grande apreço, como pessoa e como escritor, dizia assim: sabes, ò Armando, um tipo que mija por cima do ombro em Portugal está lixado. É um bocado verdade. É a miséria portuguesa. O mesquinho na mesquinhez. E o grande Garrett dizia: o país é pequeno e a gente que nele vive também não é grande. Há muita inveja.

 

 

Há muitas pessoas de quem eu gosto, mas não sei se têm a estaleca e a estirpe para "tomar contra do país".
Qualquer coisa tem de aparecer, ninguém pode viver assim.

 

 

Somos um pouco assim.

Temos muita inveja uns dos outros. Eu conhecia relativamente bem o universo jornalístico e literário. No meu tempo, era muito menos gente, aí uns quatrocentos no jornalismo. Havia mais solidariedade porque éramos poucos e porque as coisas estavam muito divididas e marcadas. Mas conheci muito bem o universo dos escritores, um universo que é de pôr a pistola em cima da mesa. As histórias que eu sei de inveja, de ciúmes. Eu dizia: não é preciso estares assim, porra! Aqui, em Portugal, um dos mundos que frequentei foi o do cinema. Tenho muita saudade do Fernando Lopes, em casa de quem dormi numa altura de aperto, não tinha dinheiro nem para comer. Nessa altura, fui trabalhar para o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, uma coisa que pouca gente sabe. Num emprego, como redactor, que me arranjou um homem monárquico chamado Avellar Soeiro, que era relações públicas. Não havia redactor nenhum. Aquilo era um processo para eu ganhar umas coroas. Ainda estive lá uns meses. Isto nos anos 60. Depois, em 1964, fui para o Brasil com o Raul Solnado.

 

Fazer o quê?

O Raul Solnado e eu conhecíamo-nos desde miúdos e tínhamos o Brasil como paixão. De maneira que combinámos que o primeiro que fosse ao Brasil levaria o outro. É claro que foi ele. E eu fui como secretário do Raul Solnado. Foi um êxito fulminante no Brasil. Eu tinha 30 anos e conheci lá toda a gente. Fiz amizade com o Vinicius de Moraes, o Rubem Braga, o António Maria, e depois as cantoras, a Dóris Monteiro, a Nara Leão, toda essa gente. Aquilo foi um banho lustral. O Brasil ensinou-me uma coisa: nem tudo está perdido. E ensinou-me a formar as minhas próprias convicções. Porque isto de dizer que nem tudo está perdido quer dizer que temos de ter uma força interior, que tem a ver com sonho e esperança. Por isso é que minha mulher me diz: põe os pés na terra. E o Brecht dizia: os homens são feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos. Pelo sonho é que vamos. Eu nunca desisti de trabalhar. E, quando estava em aperto, ia para a tradução de livros. Escrevia na máquina de escrever. Traduzia livros em 15 dias. Rebentava com os dedos todos e ela [a mulher] chorava de me ver ali horas e horas. E ela dizia que chorava de orgulho, o que me dava uma certa coragem, um certo ímpeto. Nisso, tive sorte. Ela ralha comigo. Tem a mania de mandar em mim.