Weekend Pavel Gomziakov: As fronteiras políticas entre nós, músicos, não fazem sentido

Pavel Gomziakov: As fronteiras políticas entre nós, músicos, não fazem sentido

Veio para Lisboa quando começou a tocar com Maria João Pires e sentiu-se em casa. Foi também em Lisboa que descobriu um violoncelo extraordinário, um Stradivarius tão raro que precisa de escolta policial para ser tocado. O violoncelista russo está este domingo no CCB.
Pavel Gomziakov: As fronteiras políticas entre nós, músicos, não fazem sentido
Bruno Simão
Susana Moreira Marques Bruno Simão - Fotografia 09 de setembro de 2016 às 15:00
Em cada país conhece um público diferente, mas também igual na sua capacidade de escuta, de emoção, de prazer. Pavel Gomziakov dá concertos um pouco por todo o mundo, da Rússia, onde nasceu, aos Estados Unidos, passando pelo Japão. Conversámos com ele em Lisboa - em português - num raro período sem viagens, a poucos dias do seu concerto no CCB, este domingo, dedicado à música russa, com o pianista Andreï Korobeinikov e a violinista Tatiana Samouil. Veio para Lisboa quando começou a tocar com Maria João Pires e sentiu-se imediatamente em casa. Foi também em Lisboa que descobriu um violoncelo extraordinário, um Stradivarius tão raro que precisa de escolta policial para ser tocado. Acaba de lançar um disco, pela editora britânica Onyx, com os concertos para violoncelo de Haydn, gravado com a Orquestra Gulbenkian e o Stradivarius que pertenceu a D. Luís I.  


1. Aqui, em Lisboa, existe um violoncelo absolutamente extraordinário. Há dois anos fui convidado para tocar num concerto no Museu da Música, no Dia Mundial da Música, e experimentei este violoncelo e não queria acreditar. Já tinha tocado vários Stradivarius, mas este é mesmo extraordinário. Foi comprado pelo rei português D. Luís I, que era um violoncelista amador. Ficou no país e agora é tesouro nacional. Aliás, não é só um tesouro nacional, mas internacional.
Quando comecei a trabalhar com a editora Onyx Classics, em Inglaterra, e comecei a planear gravar os concertos de Haydn com a Orquestra Gulbenkian, pedi este violoncelo.
O violoncelo está fechado. Deixam tocá-lo muito de vez em quando e nunca tinha saído do museu. Saiu, pela primeira vez, para gravar este disco - que acaba de sair - e, um mês depois, para um concerto, que foi organizado pela Fundação Gulbenkian para angariar fundos para apoiar os refugiados. É sempre complicado tocar com este violoncelo. O seguro é muito caro. O violoncelo tem de viajar num carro blindado e com escolta policial. Não pode ser tocado em qualquer sala: a sala tem de ter determinadas características. Na Gulbenkian, o violoncelo fica guardado ao lado de pinturas do Amadeo [de Souza-Cardoso], da Paula Rego, nas reservas do museu. Durante a noite, tem de ficar num sítio com muita segurança.
Vou voltar a tocar com ele no próximo ano, na Gulbenkian, num recital com o pianista Andreï Korobeinikov . E as receitas do concerto vão reverter a favor do museu, para ajudar a restaurar colegas de vitrina do Stradivarius.

2. Nós tínhamos um piano em casa e a minha irmã começou a tocar. Enquanto eu brincava no tapete com os brinquedos, via a minha mãe forçar a minha irmã a estudar piano. A minha irmã chorava. E eu pensava: Eu, música? Nunca!
Quando tinha 6 ou 7 anos, e era o momento certo para começar, a minha mãe perguntou-me se queria tocar e eu disse que não. Só passados dois anos é que a minha mãe me conseguiu convencer.
A nossa cidade era muito pequena, mas havia lá um professor de violoncelo muito bom. Então comecei a aprender violoncelo. Ao início, é chato aprender, e claro que nenhuma criança quer passar muitas horas a praticar, mas passado um tempo, comecei a perceber que podia transmitir emoção com o som que produzia. Logo de pequeno percebi que se escolhia um vibrato, produzia uma emoção, se tocasse de determinada maneira, era melancólico, de outra maneira, triste. Disso, gostei.

3. Fui estudar para Moscovo, a 1.300 quilómetros da minha terra. Fui com 14 anos, sozinho. Nunca voltei para a minha cidade.
Foi muito difícil a ida para Moscovo. Foi em 1990, e naquela época não havia comida. Percebia-se muito rápido que se tinha de ser alguém na vida, numa profissão, para sobreviver, porque o país estava um caos.
Comecei a trabalhar muito, mesmo. Trabalhava 11 horas por dia. Era só dormir, comer e estudar violoncelo.
Quando terminei o Conservatório em Moscovo, fui estudar para Madrid com uma professora mítica, muito famosa, a Natalia Schakhovskaya, que foi aluna do Rostropovich, um violoncelista muito importante.
Na Escola Rainha Sofia tínhamos todas as condições para trabalhar. Era como viver no paraíso. Todos os alunos eram muito bem tratados. Tínhamos comida, empregada para fazer a cama... Era o contrário de Moscovo, onde fazia as minhas compras, lavava a minha roupa, à mão. Ali, no paraíso, podia trabalhar mais, mais e mais.
Depois, como queria trabalhar Bach e música francesa, a minha professora disse-me para ir trabalhar com Philippe Muller, em Paris. E fui. Tive sorte: tive os melhores professores, a "crème de la crème".
Acho importante cada músico transmitir o seu conhecimento para o futuro, para formar as novas gerações. E como vivo em Portugal - e como Portugal me recebeu tão bem e eu quero retribuir - é o sítio certo para fazer isso. Dou aulas na Universidade do Minho.
Tenho um aluno que começou a trabalhar comigo aos 15 anos e foi para a mesma escola onde eu estudei em Madrid. Ele é muito trabalhador, muito sério e vai ser um óptimo violoncelista. Se conseguir formar alguns alunos assim, já é qualquer coisa.

4. Conheci a Maria João Pires num festival de música em Espanha. Ela não sabia se ia tocar comigo ou não, mas deu-me uma oportunidade. Fizemos um ensaio. Começámos a tocar uma sonata de Schubert e, no fim do primeiro andamento, ela perguntou: quem és tu? Continuamos? Tocamos o segundo e terceiro andamento? Terminámos e ela disse-me que era a melhor sonata de Schubert, com violoncelo, que tinha tocado na vida. Depois, propôs-me formar um duo.
Tocar com ela foi muito bom para mim e aprendi muito. Durante vários anos, tocámos juntos pelo mundo inteiro e gravámos um disco com sonatas de Chopin.
Foi assim que vim parar a Portugal, e desde a primeira vez, gostei muito. Quando cheguei a Lisboa, fiquei apaixonado. Fazia-me lembrar a minha terra. Desde o momento em que tinha saído da cidade dos meus pais nunca mais me tinha sentido em casa. Em Moscovo não me sentia em casa. Em Madrid, em Espanha, não. Em Paris, também não. E em Lisboa, sim. Não é pelo clima, porque o clima é completamente diferente, mas pela gente, mais simples, e porque tem um modo de viver mais calmo. É uma cidade muito humana.
Fiquei aqui. Agora, por causa das viagens, passo bastante tempo em Paris entre concertos, mas sempre que tenho mais tempo volto para Lisboa. Nunca penso sair de Portugal. Acho que vou ficar aqui.

5. Perguntam-me muitas vezes quais são as diferenças entre os públicos de diferentes países. Claro que há diferenças na presença nos concertos: por exemplo, no Japão faz-se um silêncio assustador. Mas, no fundo, são sempre pessoas que querem apreciar música. Se estás a tocar música e a transmitir emoções é igual em Portugal, no Japão, na Alemanha, nos Estados Unidos... A música é uma língua que todos percebem. Acho que em situações políticas difíceis, os músicos podem dar certos passos. Acho, por exemplo, que os músicos russos podem ir tocar à Ucrânia, e os ucranianos ir tocar à Rússia, para mostrar que as fronteiras políticas entre nós, músicos, não fazem sentido.





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